Burnham, o pós-neoliberalismo e a rematerialização da esquerda
O primeiro discurso de Burnham em Downing Street, ao recordar-me Mamdani, deixou-me a pensar se estamos perante uma nova tendência de recentrar a ação e a linguagem política nas questões materiais. A confirmar-se essa tendência, verifica-se uma alteração programática da esquerda trabalhista, centrista e moderada, menos ideológica e mais programática do que a esquerda radical que tem vivido das lutas de reconhecimento e emancipação cultural. Por outras palavras: o centro-esquerda quer retirar às guerras culturais o monopólio da agenda política.
Depois de décadas em que a esquerda se foi tornando sobretudo intérprete das transformações culturais, Burnham procura que esta regresse à sua função original: organizar politicamente a insegurança económica e social, numa altura em que esta foi capturada, maioritariamente, pela direita radical, numa clara articulação entre ressentimento económico e apelo conservador e nacionalista. Não porque o etnonacionalismo seja uma consequência automática da insegurança económica, mas porque esta cria um terreno fértil para a transformação da perda material em ressentimento cultural.
As causas da perda de representatividade social da esquerda são, hoje, conhecidas. Tanto a esquerda quanto a direita radical identificaram um responsável pelo crescimento do desconforto e da ansiedade económica: as políticas neoliberais que conduziram à crise de 2008. No entanto, depois do sucesso da esquerda radical nesse período, a esquerda e a direita alteraram os seus campos de ação, num jogo de espelhos em torno da luta pela hegemonia cultural, entre o progressismo e o backlash cultural.
Na viragem pós-austeridade, a esquerda deu ênfase às políticas de reconhecimento das vozes subalternizadas da história e à luta contra o privilégio branco. A agenda era benemérita, mas o timing revelou-se um desafio à medida que a imigração alterava a paisagem social e se ia tornando uma questão política e social sensível, arrastando consigo ansiedades económicas e culturais. A direita radical, por seu turno, transformou essas ansiedades numa narrativa identitária, segundo a qual a perda de segurança, estatuto e controlo resultaria não do modelo económico, mas da imigração, das elites cosmopolitas e da transformação cultural das sociedades ocidentais.
Discursos inflamados, responsáveis imediatos sobre políticos corruptos, imigrantes e “esquerdistas”, e soluções simplistas para problemas complexos deram terreno à direita etnonacionalista para crescer entre segmentos das classes trabalhadoras e médias, materialmente vulneráveis, culturalmente desconsiderados e politicamente afastados das elites. Muitos desses eleitores viam-se ansiosos com as mudanças culturais, ao mesmo tempo que uma parte da esquerda radical lhes apontava o dedo como racistas, xenófobos e racialmente privilegiados.
Ora, tal como Mamdani, também Burnham parece compreender a fórmula elementar para combater a direita radical, e não passa por continuar a impor uma grelha moral contra o patriarcado e o privilégio branco, nem meramente por explicar que, por exemplo, Nigel Farage está errado e é populista. Pelo contrário, é necessário atender às necessidades às quais ele responde: segurança económica e laboral, proteção social, segurança pública, criação de um sentido de pertença e identidade num quadro multicultural e uma promessa de horizonte partilhado.
Burnham e Mamdani não ocupam, naturalmente, o mesmo lugar ideológico. O que os aproxima é menos o programa do que o método político: tornar a esquerda novamente compreensível através do preço e da qualidade da vida quotidiana e pelo retorno à ideia de uma plataforma mais ampla do que as segmentações pelas quais tem vivido. Em vez de pedir primeiro ao eleitor que adira a uma grelha moral ou identitária, mostram-lhe o que o poder público pode fazer pela habitação, pelos transportes, pelo emprego e pelos serviços essenciais.
A direita etnonacionalista oferece segurança através da fronteira, pertença através da nação étnica e futuro através da restauração. Burnham procura oferecer segurança através dos serviços públicos, pertença através da comunidade e do território e futuro através do investimento e da reindustrialização. Não se limita, assim, a prometer proteção contra o declínio: procura recuperar uma ideia de progresso, mobilidade e capacidade coletiva, sem a qual a esquerda corre o risco de se tornar apenas administradora da decadência.
Isto não significa, porém, que seja possível declarar o fim das guerras culturais. A direita radical continuará a mobilizar a imigração, a identidade nacional, o género, a religião e a memória histórica, mesmo que a esquerda prefira concentrar-se nas questões económicas. A resposta não pode passar pelo abandono das conquistas culturais e dos direitos das minorias, mas pela sua integração numa linguagem universalista e numa ideia de pertença cívica comum. A política material é necessária, mas não suficiente. Mas é, agora, a melhor e mais urgente arma de todos os centristas.
A rematerialização da esquerda centrista é um passo essencial para reconstruir uma base eleitoral num quadro urgente de salvaguarda dos princípios da democracia liberal-social. Burnham não parece querer substituir a cultura pela economia, mas reconstruir materialmente as condições de uma pertença democrática (que é tanto de esquerda quanto de direita, é tanto liberal quanto conservadora) que a direita radical converteu numa promessa etnonacionalista.