A procuradoria-geral que terá enriquecido com burlas em call-centers: o escândalo de corrupção que abala a Ucrânia
Esta segunda-feira, Ruslan Kravchenko abandonou a Ucrânia. O polémico procurador-geral saiu do país durante a madrugada e dirigiu-se para a Lituânia, onde terá agendada uma reunião de negócios. Esta viagem fez soar os alarmes, uma vez que poderia estar a fugir do país e, desta forma, escapar às consequências da Operação Cartago. Antes da fuga, ainda assim, gravou um vídeo — em que denuncia que está a sofrer pressão direta de Volodymyr Zelensky.
Mais do que isso, Ruslan Kravchenko — que apresentou a demissão do cargo na semana passada, mas que continua em funções — denunciou que existe uma purga em curso promovida pelas agências anticorrupção contra si, acusando-as de deterem “uma influência sem controlo”, o que comporta “riscos para a soberania nacional da Ucrânia”. Gerou-se uma verdadeira crise institucional entre a presidência, a NABU/SAPO e ainda a procuradoria-geral.
Mesmo tendo pedido a demissão, o procurador-geral apenas sai de funções se o Parlamento ucraniano assim o entender. Por causa disso, Volodymyr Zelensky apelou esta segunda-feira a que todos os deputados do seu partido político (que detém a maioria) votem pela sua demissão. Numa publicação no X em tom de desafio, o Presidente garantiu que há apenas um “caminho para o procurador-geral”: a demissão. “Foi o que eu lhe disse. A Ucrânia viu todas as razões para que isso aconteça. Se ele considera que isto é pressão política, é livre de lhe chamar isso.”
There is only one path for this Prosecutor General: removal from office. That is what I told him. Ukraine has seen all the reasons why. If he considers this political pressure, he is free to call it that. I ask parliamentarians to support his removal without delay.
— Volodymyr Zelenskyy / Володимир Зеленський (@ZelenskyyUa) September 14, 2026
Como funcionava o esquema de corrupção da procuradoria-geral?
Burlas pelo telefone. Era assim que esta alegada rede de corrupção acumulava fortunas. O esquema era relativamente simples: chamadas falsas em nome de instituições bancárias, pedidos urgentes dos números de cartões de crédito ou débito e o esvaziamento das poupanças de milhares de pessoas — tanto ucranianas como europeias.
Como relata a imprensa ucraniana, estes esquemas já eram conhecidos pelas autoridades há vários anos. “Todos sabem onde os call centers operam, quantos existem e quem os possui”, referiu uma fonte policial ao Ukrainska Pravda. No entanto, a maioria gozava de uma relativa imunidade judicial, suspeitando-se de troca de subornos ou favores. O cenário agravou-se em meados de 2025 com a nomeação de Ruslan Kravchenko: o procurador-geral terá querido ficar com uma parte do “bolo” neste negócio, escreve o mesmo jornal.
Em vez de tentar travar e investigar estes call-centers que realizavam fraudes por telefone, a procuradoria-geral, sob a liderança de Ruslan Kravchenko, terá exigido dinheiro para que não fossem abertas investigações. Para evitar deixar rasto, os responsáveis da procuradoria-geral envolvidos nesta rede utilizavam complexos esquemas de lavagem de dinheiro, adquirindo imobiliário e registando bens em nome de terceiros. Mais de 20 milhões de hryvnias (mais de 400 mil euros) terão sido apenas para compras em joias e casas. Cerca de 12 milhões de hryvnias (cerca de 280 mil euros) em contas bancárias em nome de terceiros.