Câmara de Lisboa reconhece risco “permanente” de extinção da profissão de calceteiro
Atualmente há cerca de 20 profissionais em exercício efetivo de funções, havendo concursos a decorrer
O risco de extinção da profissão de calceteiro em Lisboa “é permanente”, representando “um enorme desafio” que o município da capital pretende superar, em conjunto com o Governo, afirmou a vereadora de Projetos e Obras em Espaço Público.
“Por trás da calçada estão calceteiros, que é uma classe profissional que enfrenta um enorme desafio, como todas as classes profissionais mais operacionais […], porque de facto a causa pública não tem propriamente vencimentos muito apelativos e, portanto, é o grande desafio das autarquias, juntamente com o Governo, reforçar e valorizar esta classe profissional, disse a autarca Joana Baptista (independente eleita pelo PSD), em declarações à agência Lusa.
Falando a propósito dos 40 anos das Escolas de Calceteiros e de Jardinagem de Lisboa, que se celebram este ano, a vereadora destacou o trabalho do município em recrutar profissionais para estas duas áreas.
Relativamente aos trabalhadores dedicados à calçada artística portuguesa, Joana Baptista disse que a Câmara Municipal de Lisboa (CML) reforçou este ano a equipa existente de 20 profissionais, duplicando esse número: “Passámos de 20 calceteiros para 40 calceteiros, mas não é suficiente, porque na realidade a faixa etária média é muito elevada para o desempenho físico que obriga esta atividade profissional.”
Segundo o historiador Rui Matos, o mestre calceteiro Carlos Calceteiro e o Sindicato dos Trabalhadores do Município de Lisboa, atualmente há cerca de 20 profissionais em exercício efetivo de funções, havendo concursos a decorrer.
A média de idades, indicou a vereadora, “ultrapassa os 55 anos”, pelo que daqui a cerca de 10 anos esta classe profissional vai reformar-se. A autarca assumiu como fundamental o reforço de trabalhadores nesta área, “mas também o rejuvenescimento”.
“Como é que se apela aos mais jovens para virem para esta classe profissional? Porventura, com um vencimento superior àquele que a tabela legal assim o determina, mas também com formação, e isso a CML já o faz, porque temos uma escola nacional de calceteiros que apelamos e reforçamos àquilo que é a componente formativa. Portanto, recrutamos e formamos os nossos calceteiros”, declarou.
No entanto, o presidente do Sindicato dos Trabalhadores do Município de Lisboa (STML), Nuno Almeida, disse à Lusa que a Escola de Calceteiros está “quase inativa”, sem cursos e formação há mais de uma década.
Ao acompanhar uma equipa de calceteiros das Brigadas LX da CML, a agência Lusa falou com trabalhadores que confirmaram que não tem havido formação por parte da Escola de Calceteiros, pelo que os aprendizes acabam por “aprender trabalhando”.
Questionada sobre as medidas do município para travar o risco “permanente” de extinção da profissão, Joana Baptista respondeu que “isso não depende da CML, depende de uma determinação do Governo” para a melhoria do vencimento destes trabalhadores.
“É exatamente nessa perspetiva que estamos em diálogo permanente com o Governo [liderado por PSD/CDS-PP]. Aliás, esta abordagem de comemoração do Dia do Calceteiro e do Dia da Calçada Portuguesa [a 22 de julho, celebrado este ano pela primeira vez] foi um impulso da Assembleia da República, e temos o Governo connosco, com a CML, porque no fundo é Lisboa que é a montra da calçada artística portuguesa”, expôs a autarca, que integra a governação PSD/CDS-PP/IL no executivo municipal.
Quanto à externalização dos serviços nestas áreas, tanto na calçada portuguesa como na jardinagem, Joana Baptista referiu que o problema da falta de trabalhadores “é transversal”, afetando público e privado.
“Hoje em dia, cada vez mais é difícil recrutar, seja no setor público ou privado, estas classes mais operacionais. É tão difícil, hoje em dia, recrutar um bom jardineiro, um jardineiro que saiba podar um buxo, ou um bom serralheiro, ou um bom canalizador”, frisou.
Neste sentido, a autarca reforçou que o processo de contratação de trabalhadores para a CML “é contínuo” e assegurou a aposta na formação através das Escolas de Calceteiros e de Jardinagem.
Quanto ao reconhecimento do valor da calçada artística portuguesa, com génese em Lisboa, a vereadora de Projetos e Obras em Espaço Público na CML destacou o projeto de criar, até 2029, um centro interpretativo desta arte, com a coleção de moldes existente num armazém municipal em Alvalade.
Relativamente à candidatura da arte e saber-fazer da calçada portuguesa a património mundial da UNESCO, Joana Baptista enalteceu a proposta e assegurou que município apoia esse desígnio, “através do recrutamento de calceteiros”, bem como dos projetos de reabilitação do espaço público, em que a CML “não prescinde de ter calçada artística portuguesa”.