Camas Novas em Paredes Antigas

🗓️ 2026-09-12 📁 business-finance 📝 ⏱️ 👁️ : -

A Residência Universitária Confiança, inaugurada esta semana em Braga, é hoje a maior estrutura pública de alojamento estudantil do país, com 786 camas e um investimento superior a 29 milhões de euros do PRR. Mas o número que mais me interessa não é esse. É o facto de este projeto não ter nascido de um terreno vazio: nasceu da antiga Fábrica Confiança, uma unidade de sabonetes e perfumes fundada em 1894, que laborou até 2005 e que, sem esta intervenção, provavelmente continuaria hoje devoluta, a degradar-se silenciosamente no coração da cidade.

Há uma inteligência simples nesta opção que merece ser destacada. Em vez de procurar um terreno na periferia para construir de raiz, Braga optou por devolver função a um edifício que já tinha localização privilegiada, ligação histórica à cidade e estrutura para ser recuperada. O resultado não é apenas uma residência de estudantes. É a prova de que reabilitar pode ser, ao mesmo tempo, mais rápido, mais sustentável e mais rico simbolicamente do que construir de novo.

É um modelo com potencial óbvio para ser replicado por todo o país. A grande maioria das cidades médias e grandes portuguesas com tradição universitária carrega o mesmo tipo de contradição: pressão crescente sobre o alojamento estudantil, a par de centros históricos cheios de edifícios devolutos ou subaproveitados, muitos deles a poucos minutos a pé dos principais polos académicos. Coimbra é só um exemplo entre vários: a própria Câmara Municipal identificou recentemente 237 imóveis devolutos só na Baixa da cidade, um sinal de potencial há muito por aproveitar, mas longe de ser caso único no mapa universitário nacional.

Pense-se no que significaria aplicar, ainda que parcialmente, a lógica da Confiança a uma fração desse património devoluto espalhado pelas cidades universitárias do país. Não seria necessário urbanizar terreno novo, nem esperar anos por processos de licenciamento associados a construção de raiz em zonas verdes. Estariam já ali paredes, estrutura, e, em muitos casos, valor patrimonial e arquitetónico que hoje se perde por abandono. O que falta não é oportunidade física. É vontade política de a rentabilizar, cidade a cidade, com o mesmo grau de ambição que Braga demonstrou.

O que torna este modelo particularmente inteligente é que resolve, ao mesmo tempo, três problemas que normalmente são tratados em separado. Resolve falta de alojamento estudantil, ao criar camas a preços muito abaixo do mercado privado. Resolve degradação urbana, ao devolver uso e manutenção a edifícios que de outra forma continuariam a deteriorar-se. E resolve esvaziamento dos centros históricos, ao trazer de volta população jovem para zonas que, noutros contextos, se tornaram sobretudo espaços de passagem turística ou comercial vazios ao fim do dia.

Este tipo de intervenção também tem uma vantagem política pouco discutida: já está testado. Braga mostrou que é possível articular Câmara Municipal, financiamento europeu através do PRR, e gestão universitária num único projeto, sem que nenhuma das partes tivesse de carregar sozinha o peso do investimento. É um modelo replicável precisamente porque já não é uma ideia teórica, é um exemplo em funcionamento, com estudantes já instalados e uma cerimónia de inauguração para o comprovar.

Cidades como Coimbra, Porto, Aveiro ou Évora, todas com centros históricos ricos e uma pressão real sobre alojamento estudantil, têm a mesma base de oportunidade que Braga soube aproveitar: património devoluto, procura de estudantes por perto, e acesso a fundos europeus vocacionados exatamente para este tipo de reabilitação. Falta apenas que cada autarquia e cada instituição de ensino superior decida seguir o exemplo com a mesma determinação.

No fundo, a Confiança não devia ser lembrada só como uma residência de estudantes bem-sucedida. Devia ser lembrada como prova de conceito: de que a resposta a alguns dos problemas mais urgentes das nossas cidades, a habitação estudantil e a degradação dos centros históricos, pode estar, literalmente, já construída à nossa espera. Falta apenas decidirmo-nos a abrir a porta.