10 Anos horribilis
Visto de Bruxelas, a semana de Alto-Nível da Assembleia Geral das Nações Unidas, que decorre todos os anos por esta altura em Nova Iorque, é normalmente uma oportunidade para a União Europeia e os seus líderes afirmarem a importância do multilateralismo e darem espaço à diplomacia na busca de soluções para problemas que não conhecem fronteiras. Frequentemente, os encontros mais importantes acontecem nos corredores ou salas adjacentes à reunião magna, a mais relevante do calendário geopolítico internacional. Ora, o estado do mundo já viu melhores dias e o encontro de 2026 anuncia também o fim do mandato de um europeu (e português) que esteve à frente dos destinos da ONU nos últimos 10 anos: António Guterres. Não teve a vida fácil e é cada vez mais difícil antever o que espera a quem o vier a suceder.
Já vinha de trás
Bem vistas as coisas, o primeiro quartel deste século XXI foi mais atribulado do que muitas vezes o pensamos. Para o bem e para o mal. Os últimos quase 26 anos foram de transformação e esperança, mas também de desespero e guerras. A quantidade de acontecimentos que foram mudando o sentido do mundo é difícil de contabilizar, mas alguns marcaram e influenciaram as relações internacionais até aos dias de hoje.
A começar pelo 11 de setembro de 2001 que levou, primeiro, à intervenção no Afeganistão e depois à invasão do Iraque, que tanto afetou as relações transatlânticas e alterou os equilíbrios de poder no Médio Oriente, a primeira década de 2000 foi de grande consequência. Este período foi marcado pelo primeiro alerta de saúde pública global deste século com a epidemia da SARS (2003), pelos ataques terroristas em Madrid (2004) e Londres (2007), pelo primeiro ensaio nuclear subterrâneo da Coreia do Norte (2006), pela invasão russa da Georgia (2008), pela queda do banco Lehman Brothers (2008) que levaria à crise financeira global e o atear do rastilho da Primavera Árabe, com a revolta na Tunísia (2010).
É também nesta década que a China entra para a Organização Mundial do Comércio (2001), que o genoma humano é sequenciado pela primeira vez (2003), que o Facebook é lançado, abrindo caminho à explosão de redes sociais, e que a UE ganha dez novos membros (2004), que o Protocolo de Kyoto sobre as alterações climáticas entra em vigor (2005), que o IPhone começa a ser comercializado (2007), revolucionando as comunicações moveis, e que a Cimeira do G20 (2008) passa a ser um fórum internacional regular. Muito mais aconteceu.
Sementes
Se os primeiros dez anos do quartel foram ricos em acontecimentos, pode afirmar-se que a década de 2010 lançou muitas das sementes daquilo que estamos a colher geopoliticamente nos dias de hoje. A década começa com o alargar das revoltas e revoluções no Médio Oriente, levando à queda de autocratas na Tunísia, no Egito e na Líbia e com o início da guerra civil na Síria (2011). À medida que a crise na Zona Euro se agrava (2012), a situação na Ucrânia deteriora-se com a revolução na Praça ‘Euromaidan’ depois da rejeição do Acordo de Associação com a UE pelo presidente ucraniano Yanukovytch (2013).
Os anos que se seguem contribuem para agravar o xadrez internacional e para reforçar algumas das tendências de fragmentação, de aumento de riscos geopolíticos e de erosão de normas universais que continuam a marcar a atualidade. A invasão russa da Crimeia e o início da guerra no Donbass (2014), a crise migratória que afetou a Europa (2015), o referendo do Brexit (2016) que viria a determinar o divórcio entre a UE e o Reino Unido e a primeira presidência Trump (2017-2021), assinalam um ponto de inflexão na ordem internacional. A sucessão de ataques terroristas, por exemplo, em Paris (2015), Bruxelas ou Istambul (2016), após a declaração pelo Daesh do ‘califado islâmico’ no Iraque e na Síria (2014), alimentam o clima de insegurança em muitas sociedades.
Neste decénio também há importantes ganhos diplomáticos e multilaterais tais como o Acordo Nuclear com o Irão ou o Tratado de Paris sobre as alterações climáticas (2015). Porém, estes são depois fragilizados pelas decisões da administração Trump que os abandona em 2017 e 2018, respetivamente.
Simultaneamente, a China está a afirmar-se internacionalmente e o seu novo líder, Xi Jinping, a consolidar poder internamente. Após o lançamento da Nova Rota da Seda (2013), com vista a aumentar a influência chinesa além-fronteiras, Pequim funda o Banco Asiático de Infraestruturas e Investimentos e apresenta o plano Made in China 2025 (2015) para fazer do país uma superpotência tecnológica até 2049. A somar a isto, a limitação de mandatos presidenciais é abolida (2018) fazendo de Xi, potencialmente, líder vitalício do gigante asiático.
É neste turbilhão que António Guterres inicia o seu mandato em janeiro de 2017. E o pior estava ainda para vir.
Aceleração
Em 2020, com a Pandemia de COVID-19, o mundo liga o turbo e mete o pé no acelerador, por exemplo, com a transformação digital. Nós, aqueles que podíamos bem entendido, passámos a trabalhar, a aprender, a vender e a comprar, a socializar e a divertirmo-nos virtualmente. Em poucas semanas, o mundo tornou-se numa espécie de grande laboratório de experimentação de políticas públicas para fazer face à emergência médica.
A crise que se abriu foi igualmente rica na aprendizagem que vários governos e líderes fizeram no que toca às dependências e vulnerabilidades estratégicas que estavam agora a ser utilizadas como armas de arremesso geopolítico, a começar pelas vacinas.
Mas não foi só aceleração. Houve também travões e regressões como foi aquela que diz respeito à pobreza extrema que voltou a crescer contrariando a tendência de declínio que se vinha verificando até então. O Banco Mundial estima que 97 milhões de pessoas terão sido adicionadas aos números da pobreza extrema logo em 2020. De acordo com algumas projeções, o agravamento da pobreza poderá ser uma tendência que se vai manter nas próximas décadas afetando principalmente a África Subsaariana.
Não bastando, Guterres foi não só confrontado, mas atingido com o regresso de uma guerra de larga escala à Europa: a invasão da Rússia à Ucrânia em fevereiro de 2022. Ou seja, um membro permanente do Conselho de Segurança da ONU resolveu queimar a Carta das Nações Unidas, violando os seus princípios básicos. Para além dos crimes de guerra que têm sido cometidos a mando do Kremlin, a agressão russa pôs fim à ordem de segurança na Europa e fez crescer o risco de uma guerra mais generalizada no velho continente, fomentando instabilidade internacional.
A somar a isto, o retorno do conflito armado ao Médio Oriente com o ataque terrorista do Hamas a Israel e a catástrofe humanitária que se seguiu em Gaza pelas mãos do governo israelita (desde 2023), o regresso à presidência dos EUA de um Trump ao mesmo tempo protecionista e intervencionista (2024), e o atual conflito que opõe os EUA e Israel ao Irão, que levou ao bloqueio do Estreito de Ormuz, aceleraram e fizeram crescer os níveis de incerteza e volatilidade internacionais, com ramificações para a segurança energética e a segurança alimentar de muitos países, agravadas pela insegurança climática e pelo aquecimento do planeta que se tem acentuado nos últimos anos.
Em 2016, o AlphaGo derrotava o campeão (humano) do complexo jogo de tabuleiro chinês denominado ‘Go,’ mostrando o potencial da Inteligência Artificial. Mais uma das tais sementes que deixa agora a comunidade internacional a braços com uma nova revolução tecnológica e sem saber bem para onde ela nos poderá levar.
O caminho para 2036
O senhor ou a senhora (será desta?) que se segue a Guterres à frente dos destinos da ONU não vai ter a vida facilitada até porque muitos daqueles que têm sido os campeões do multilateralismo como a UE têm um nó difícil de desatar: aos desafios e prioridades que aumentam, faltam os recursos e a coragem política correspondentes.
Em Bruxelas, uma das áreas que corre o risco de vir a sofrer cortes, no contexto das negociações para o novo orçamento comunitário, é a que se designa por ‘Europa Global.’ Ora, uma decisão destas seria a contraciclo geopolítico e a UE arrisca-se a pagar amanhã a fatura que quer evitar hoje.
Se a diplomacia, o multilateralismo, a cooperação e o desenvolvimento sustentável continuarem a ser relegados para segundo plano, vão ser as próximas gerações, que tanto andam na boca de muitos líderes, a sofrer. Quem lhes vai dizer?