Alerta de madrugada, carrinhas suspeitas e detenções: o que aconteceu junto à base aérea de Fairford?
O episódio ocorreu por volta da 00h45 de domingo. Uma mulher estava a chegar à sua casa, em Whelford, quando encontrou uma das ruas bloqueada e avistou "três veículos suspeitos" e um "grande grupo de homens encapuzados" a dirigir-se em direção à base aérea britânica da RAF Fairford.
"Quando me viram, correram - alguns para o campo e outros em direção à aldeia vizinha de Kempsford. Percebi, então, que algo de muito invulgar estava a acontecer", afirmou a testemunha.
Em pânico, a agricultora tentou contactar a polícia do Ministério da Defesa britânico (MoD), mas como ninguém atendeu, ligou para o 999 (equivalente ao 112 em Portugal) e alertou a polícia de Gloucestershire.
Cerca de 10 minutos depois, a localidade encheu-se de polícias armados. Ainda assim, os moradores de Whelford - a cerca de 3,2 quilómetros da base aérea - só foram acordados pelas autoridades por volta das 7h. Cerca de 85 famílias tiveram de ser retiradas das suas casas e encaminhadas para um centro de lazer local.
A polícia estabeleceu entretanto um perímetro de segurança equivalente a cerca de 400 metros. Para o local foram mobilizados vários especialistas em desativação de explosivos do exército, que recorreram a um robô para examinar as três carrinhas brancas. Segundo as autoridades de Whitehall, a investigação está agora a ser conduzida pela unidade antiterrorista.
Além do perímetro que foi isolado, foram ainda impostas outras restrições no espaço aéreo ao redor da base aérea da RAF Fairford: sem autorização prévia, nenhuma aeronave pode sobrevoar uma área de cinco milhas (oito quilómetros) em torno da base, situada na região de Cotswold.
Os suspeitos
A polícia de Gloucestershire só confirmou por volta das 8h que, de facto, tinha ocorrido um "incidente grave" nas proximidades daquela base aérea. Ao mesmo tempo, revelou que, na madrugada de domingo, foram detidos cinco homens ao abrigo da Lei Antiterrorista britânica, por suspeitas de envolvimento em crimes relacionados com terrorismo.
"Para que fique bem claro, isto não significa que a investigação tenha terminado", indicou o comissário adjunto e chefe da unidade de contraterrorismo da polícia do Reino Unido, Laurence Taylor.
As detenções resultaram de uma operação conjunta entre as autoridades dos Estados Unidos e do Reino Unido. No domingo, em entrevista aos jornalistas, o presidente norte-americano, Donald Trump, afirmou que os suspeitos já estavam a ser "monitorizados há muito tempo" e que as autoridades acreditavam que estes estavam a "procurar causar grandes danos".
"Estávamos a investigá-los. Queriam causar grandes danos. Trabalhar com os britânicos foi uma ótima solução", reiterou.
De acordo com a polícia britânica, todos os homens são cidadãos britânicos residentes em Londres, e têm cerca de 20 anos. São eles: um jovem de 24 anos de Camden (norte da capital britânica), três homens de 23, 24 e 25 anos de Westminster e um de 24 anos de Willesden.
Segundo a legislação britânica, os suspeitos poderiam permanecer sob custódia policial até 14 dias até serem acusados formalmente ou libertados. Contudo, esta segunda-feira, foram todos libertados sob fiança, após "extensos interrogatórios", informou Laurence Taylor.
Envolvimento do Irão?
As autoridades estão agora a investigar uma possível ligação ao Irão, à Rússia ou a outros possíveis grupos militares. As suspeitas ganharam força depois de o vereador local, Tristan Wilkinson, ter afirmado à agência de notícias Reuters que a RAF Fairford teria sido alvo de uma alegada ameaça iraniana há cerca de seis semanas, o que levou a um aumento de vigilância na zona.
Apesar disso, as autoridades ainda não chegaram a qualquer conclusão sobre a motivação do incidente.
Em declarações ao canal NOW, esta segunda-feira, o especialista em relações internacionais José Filipe Pinto mostrou-se cético em relação à hipótese de um atentado terrorista. Na sua perspetiva, o episódio poderá estar mais próximo de um ato de vandalismo do que de uma operação terrorista organizada.
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A embaixada iraniana em Londres entretanto já rejeitou "categoricamente" qualquer envolvimento na alegada tentativa de ataque. Num comunicado publicado na rede social X, a embaixada condenou mesmo o que classificou de "especulações infundadas e maliciosas publicadas por alguns indivíduos e meios de comunicação social britânicos".
A embaixada acrescentou ainda que "a República Islâmica do Irão reserva-se ao direito de tomas as medidas legais cabíveis, conforme necessário, para salvaguardar os direitos e interesses do país e do seu povo em resposta ás narrativas mediáticas enganosas e prejudiciais".
O que disse o governo britânico?
O ministro dos Negócios Estrangeiros do Reino Unido, Ed Miliband, considerou esta segunda-feira que este incidente serve de "lembrete das ameaças que o nosso país enfrenta". Sem entrar em detalhes sobre a investigação em curso, garantiu que o Reino Unido responderá de forma firme a qualquer ameaça à sua segurança. "Vamos agir contra os representantes do Irão", declarou.
Já o primeiro-ministro, Andy Burnham, classificou o episódio como "profundamente preocupante" e assegurou que o governo "tomará sempre todas as medidas necessárias" para proteger a população. Ao mesmo tempo, pediu que as pessoas "não especulem enquanto as autoridades investigam todos os factos".
A base aérea
A base aérea da RAF Fairford tem assumido um papel central nas operações militares norte-americanas desde a escalada das tensões entre os Estados Unidos, Israel e o Irão. A base tem sido utilizada para o destacamento de bombardeiros norte-americanos.
Na altura, o então primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, autorizou a utilização de bases militares no Reino Unido para ações classificadas como "defensivas" por Washington. Foi nesse contexto que, em março, quatro bombardeiros americanos pousaram na RAF Fairford, marcando o início de uma presença militar reforçada dos Estados Unidos em território britânico.