As camisas-castanhas de Ventura
Paralelos históricos não servem para nada. Não comovem ninguém, porque ninguém sabe História, nem quer saber. Comparações com a ascensão do nazismo, então, mais inúteis são. “Fascista” é hoje palavra muito liberal, atirada para todo lado, a ponto de perder o significado. E encostar alguém a Hitler é uma falácia conhecida – reductio ad hitlerum – para desqualificar o adversário, em vez de debater com ele: Hitler era vegetariano, por isso malta que não come carne é culpada ou cúmplice de crimes contra a Humanidade. Está a ver o truque.
Paralelos históricos são inúteis. Mas vamos ao inútil, porque a História não se repete, mas às vezes rima. E, com as devidas distâncias, é difícil não assistir à invasão da Rádio Universidade de Coimbra (RUC), esta semana, por uma tropa de criminosos alegres do Chega sem pensar nos camisas-castanhas, a tropa de assalto que acompanhou Hitler na sua ascensão ao poder, nos anos 1920 e 1930, embrião das SS que serviu como milícia de proteção do partido nazi, atirada contra opositores políticos ou vozes contestatárias do chefe Adolfo. Claro, o Chega não é o partido nazi, nem André Ventura é Hitler – por muito que haja ligações táticas, mais ou menos embaraçadas, a grupos neonazis como o 1143.
Em casos de grande visibilidade mediática, Ventura nunca demora a vir a público exigir penas duras para os criminosos, mas não para estes. Imagina-se o que diria o líder do Chega se algum grupo de extrema-esquerda invadisse os estúdios televisivos durante uma das suas muitas entrevistas em direto, obrigando à interrupção da emissão. Mas, para Ventura, o que aconteceu na RUC foi um protesto justo em defesa da liberdade e do pluralismo – porque lhe dá a palavra a ele e a tira aos outros. A arruaça, aliás, continuou nos dias seguintes, com apoiantes do Chega a inundarem as linhas telefónicas e emails da RUC e da Associação Académica de Coimbra com insultos e ameaças, sem que o líder do partido repudie essa javardice ou apele à claque para que se aquiete.
O mesmo Ventura já se resignou (e tenta que o país se resigne) à sua incapacidade de prevenir que pedófilos, ladrões de esquina (ou de aeroporto) e criminosos comuns adiram ao partido e sejam por ele candidatos ou eleitos para cargos políticos. A diferença, explica ele com mal colocada bazófia, é que no Chega os criminosos, depois de apanhados, são expulsos. A menos, claro, que cometam os crimes em nome e para benefício do partido, como fizeram agora Rita Matias, Madalena Cordeiro e o resto da tropa de choque. Claramente, o critério de Ventura não é de legalidade, é de conveniência pessoal e de vantagem política. Eis como a invasão de propriedade privada, a ocupação ilegal de instalações de um órgão de comunicação e o silenciamento de uma emissão radiofónica – para a qual o Chega foi convidado, note-se! – se tornam virtuosas. A lei e a ordem de Ventura são as que lhe derem poder. Por esse critério, vale tudo.
Isto não foi um caso isolado. As mesmas deputadas Rita Matias e Madalena Cordeiro já tinham, em março passado, entrado pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, até abusando do cartão de livre-trânsito a que têm direito como deputadas, para tentarem interromper uma reunião da Comissão Coordenadora do Conselho Científico, para serem recebidas pelo diretor da Faculdade, que já tinha recusado o encontro. As duas deputadas foram até censuradas pela Comissão de Transparência e Estatuto dos Deputados por esta arruaça. Em 2024, o partido tinha pendurado faixas das janelas do Parlamento contra o fim do corte nos vencimentos dos políticos que vigorava desde a Troika. Só as retiraram quando os bombeiros chegaram ao Palácio de S. Bento começaram a subir gruas para retirarem as faixas. E há, claro, o famoso assalto ao gabinete do Chega no Parlamento, em que não se percebe se o partido é vítima ou autor. De novo, Ventura, que tão rápido costuma ser a exigir investigações cabais e mão pesada aos crimes que passam na televisão, tem andado caladinho sobre o crime de que ele próprio foi vítima. Quase três meses depois, não se sabe nada do que aconteceu naquela noite, e o líder do partido ofende-se quando lhe falam no assunto. Entretanto, o “assalto” dá um jeitaço ao Chega, porque teve a utilidade de lhes roubar provas do que lhes interessa a cada momento. Logo na altura, roubou-lhes provas cabais contra Luís Neves. Pouco depois roubou dados comprometedores que lá teriam sobre a compra de uma posição na REN pelo Estado. Se o Chega visse nisso vantagem tática, também lhes teriam roubado registos explosivos sobre a saúde de Mikas, o gato da deputada do PAN Inês Sousa Real. É para o que der jeito.
Como diz o povo, “se queres conhecer o vilão, põe-lhe uma vara na mão”. A tropa de assalto do Chega, e o apoio triunfal do seu líder, dizem-nos tudo o que precisamos de saber sobre esta gente, a sua política de normalização da violência e o seu compromisso com a lei e a ordem. São estas “camisas-castanhas” em fatinhos da moda, de boa costura, que abrem o caminho ao poder que o Chega quer ser. Eu sei que paralelos históricos não servem para nada. Não servem, seguramente, para mudar a direção dos ventos nem travar o que aí vem. Servem só (e não é pouco) para, depois do mal feito, ninguém poder dizer que não sabia. Fomos todos avisados.