Associação considera "culturalmente inaceitável" solução para ascensor da Glória
Sociedade
Fórum Cidadania Lx afirma que substituição do histórico ascensor por modelo contemporâneo "constitui uma decisão precipitada, culturalmente inaceitável e que não está devidamente fundamentada".
03 de setembro de 2026 às 19:17
A associação Fórum Cidadania Lx considerou esta quinta-feira que a solução para o futuro ascensor da Glória, em Lisboa, para um equipamento moderno até 2029, constitui uma decisão "culturalmente inaceitável", defendendo a necessidade de salvaguarda do património deste Monumento Nacional.
"A pretensão anunciada pela Carris, aparentemente em sintonia com a Câmara Municipal de Lisboa, de responder à tragédia de setembro de 2025 através da substituição do histórico ascensor da Glória por um modelo de linguagem e 'design' contemporâneos constitui, a nosso ver, uma decisão precipitada, culturalmente inaceitável e que não está devidamente fundamentada", afirmou a associação Fórum Cidadania Lx.
Esta posição consta de uma carta endereçada ao presidente da Câmara Municipal de Lisboa (CML), Carlos Moedas (PSD), ao presidente do Património Cultural, João Soalheiro, e ao presidente da Carris, Rui Lopo, divulgada esta quinta-feira, dia em que se assinala um ano desde o descarrilamento do elevador da Glória, que ocorreu a 03 de setembro de 2025 e provocou 16 mortos e 24 feridos, sobretudo turistas estrangeiros.
Defendendo que não se pode responder à tragédia "apagando a memória" do ascensor da Glória, classificado como Monumento Nacional, a associação Fórum Cidadania Lx disse que quem exerce funções públicas tem o dever de garantir a segurança dos cidadãos, mas também de salvaguardar o património que recebeu das gerações anteriores.
"Não pode, por isso, aproveitar-se uma tragédia para substituir um Monumento Nacional pela solução aparentemente mais rápida, fácil ou barata", afirmou.
Na segunda-feira, a CML e a Carris apresentaram a solução para o futuro ascensor da Glória, com um "novo sistema" que garantirá "toda a segurança", prevendo-se um concurso público internacional de conceção até ao final março de 2027 e a inauguração do equipamento em 2029.
"Já não podemos ter um equipamento histórico que funcionava sem modificações substantivas até ao dia 01 de janeiro de 1986 e, portanto, estamos perante uma solução nova em termos de processo construtivo", afirmou o presidente da Carris, Rui Lopo, na apresentação da solução e dos conceitos técnicos subjacentes ao projeto do futuro ascensor da Glória, que decorreu no auditório da Ordem dos Engenheiros, em Lisboa.
Para o Fórum Cidadania Lx, o que se sabe até ao momento quanto ao ascensor da Glória, com 140 anos de história, "não apontam para uma inevitável 'obsolescência do material circulante'".
Referindo que o relatório preliminar do Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves e de Acidentes Ferroviários (GPIAAF) concluiu que o cabo de união das duas cabinas do elevador da Glória que cedeu não respeitava especificações nem estava certificado para transporte de pessoas, a associação considerou que, a confirmar-se essa informação no relatório final, se trata de "uma falha grave de manutenção, fiscalização e gestão da segurança e não perante uma consequência inevitável da antiguidade, do peso ou da configuração histórica das cabinas".
"Não é, portanto, aceitável transformar uma eventual falha técnica e operacional num argumento para eliminar a identidade histórica do equipamento", expôs, sublinhando que o ascensor da Glória é classificado como Monumento Nacional enquanto conjunto integrado, proteção que não se limita ao traçado ou à infraestrutura, incluindo também "o sistema e a autenticidade material dos seus elementos, incluindo as cabinas que lhe conferem a sua identidade histórica".
Por isso, o Fórum Cidadania Lx defendeu que a sua substituição por veículos de 'design' contemporâneo não constitui uma simples modernização, mas sim "uma alteração radical da imagem, materialidade e autenticidade de um bem patrimonial que pertence à cidade".
"Quem conferiu à Carris ou à CML o mandato para alterar radicalmente um Monumento Nacional que faz parte da memória coletiva de Lisboa?", interrogou, perguntando ainda se o Património Cultural deu parecer favorável a uma intervenção que implica a perda da autenticidade das cabinas históricas.
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