Bruno Lourenço lembra passagem no Amedspor: «Jogar fora era complicado»
Entender a dinâmica desportiva, social e política de um clube como o Amedspor só é possível com uma ‘ajuda’ extra. Alguém que tenha vivido na primeira pessoa a experiência de alinhar no polémico emblema turco e que nos conte aquilo que sentiu, sem filtros nem vergonhas.
E esse interlocutor perfeito existe. Chama-se Bruno Lourenço, tem 28 anos e alinha no Olimpija Ljubljana. Na temporada 2024/25 envergou a camisola do Amedspor e apressou-se a aceitar o convite para nos contar tudo o que há para saber. Curiosamente, esta foi a primeira aventura no estrangeiro para o extremo português, que depois de passagens por Sacavenense, Benfica, Aves, Estoril e Boavista, avançou sem medos para uma aventura especial.
“Quando cheguei ao clube, tinham subido da terceira para a segunda divisão e naquele contexto era tudo novo para eles, do presidente aos diretores. Tinham de contratar jogadores estrangeiros, renovar instalações, renovar relvados, tanto o do estádio como o do campo de treinos, e nessa altura senti que era um clube que iria crescer muito. Mas ainda estava numa fase inicial e precisava de tempo para estabilizar”, revela sobre esses primeiros tempos no clube.
Bruno Lourenço não esquece clube
“Lembro-me também que estavam a construir a academia e o ginásio. Acredito que agora as instalações já sejam outras. A principal coisa que não me esqueço são os adeptos do clube, que vivem o futebol de forma incrível nos jogos e nas ruas. Lembro-me de ser sempre abordado quando saía à rua nos centros comerciais e nos parques. É um povo que vive muito o futebol e a sua cultura, visto que são curdos. Aprendi algumas palavras em curdo na cidade onde vivi e senti também que é um povo muito acolhedor”, destacou.
O futebolista português, que agora vive numa realidade completamente diferente ao serviço dos eslovenos do Olimpija Ljubljana, não esquece os adeptos do clube turco e muito menos as amizades que estabeleceu e que o fizeram, juntamente com a família, sentir ainda mais em casa…
“Eu e a minha mulher acabámos por criar uma grande amizade com os nossos vizinhos, que eram professores nas escolas da cidade. A minha filha brincava muito com as filhas deles. A cidade não tem muito para ver ou conhecer, mas tem o essencial - restaurantes, cafés, shopping’s, parques ao ar livre para as crianças. Aliás, uma coisa que não me esqueço também é que durante os dias, ao final da tarde, viam-se muitas crianças a brincarem nos parques, a jogar à bola na rua, a brincarem sem telemóveis”, realça.
União antes do embate
“Em relação aos meus colegas de equipa não tenho nada a criticar, acolheram-me bem e fiz grandes amizades. Alguns jogadores turcos não sabiam falar inglês e isso tornou-se um bocado complicado, mas ao mesmo tempo era engraçado porque em alguma ocasiões comunicávamos por gestos”, sintetizou.
Questionado sobre o atual momento do Amedspor e esta inusitada liderança no campeonato da Turquia, Bruno Lourenço segue com os pés bem assentes na terra…
“O campeonato turco é competitivo e eles criaram uma boa equipa, investiram em alguns jogadores este ano e pelo que tenho visto vão acabar por fazer um campeonato tranquilo com bons resultados. Vai ser muito difícil para as equipas adversárias jogarem em casa do Amedspor, perante 30 mil adeptos curdos, mas acredito que possam ficar do meio da tabela para cima”, garantiu.
Extremo português em destaque
Só falta mesmo entender se Bruno Lourenço sentiu na pele a vertente mais política do clube, especialmente nos jogos fora de casa, onde o ambiente se inflama mais. Igual a si próprio, o futebolista volta a realçar e enorme dimensão social do Amedspor.
“Acabei por conhecer pouco dessa história que se passava entre turcos e curdos. Lembro-me que a certa altura, se um jogador estrangeiro falasse curdo, o próprio povo da Turquia corrigia e dizia-lhe para falar em turco. Quando íamos jogar fora a outros estádios, era complicado por causa da política, pelo hino turco que cantam sempre antes dos jogos, muita polícia nos estádios e muitos gestos que faziam perante o simbolo do Amed…”, lembra.
“Mas o clube é gigante e é um símbolo para esse povo, não sei quantos curdos existem no mundo mas são milhões e esse clube representa esse povo, há muita gente que trabalha na Europa, Ásia, América… Pessoas curdas que investem no clube e o objetivo é eles permanecerem muito tempo na primeira liga turca para conseguirem representar esse povo da melhor maneira”, rematou.
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