Da esquerda à direita, há uma crítica comum: Discurso de Luís Montenegro está "desfasado da realidade"
A oposição teceu críticas ao discurso do primeiro-ministro, Luís Montenegro, durante a festa de rentreé política do Partido Social Democrata (PSD), na sexta-feira. Chega, PS, Livre, PCP e Bloco de Esquerda manifestaram um ponto em comum: consideram que o Governo está "desfasado da realidade". Acreditam que o discurso do líder social-democrata ocultou os problemas reais dos portugueses e que a população não se revê naquelas palavras.
Luís Montenegro discursou na festa do PSD LUIS FORRA/LUSA
O líder parlamentar do Chega, Pedro Pinto, acusou Luís Montenegro de "pintar um país cor-de-laranja, que só para ele e para a elite do PSD é que existe, porque não existe para o português comum". Em declarações à Rádio Observador, o deputado afirmou que o primeiro-ministro "não percebe o que é que custa aos portugueses ir meter combustível nem uma ida ao supermercado".
"Percebemos que não vai ao supermercado e não sabe quanto é que custa o cabaz alimentar. Apesar de uma ligeira baixa nos últimos dias, o cabaz tem aumentado sucessivamente já há alguns meses. Ou seja, é um primeiro-ministro que está completamente fora do que é o país real e dos problemas das pessoas", acrescentou. A crítica estendeu-se à habitação, "um problema sem soluções", bem como à imigração "descontrolada".
Pedro Pinto chegou mesmo a colar o discurso aos de António Costa, ex-primeiro-ministro socialista: "Fez-me lembrar os tempos de António Costa quando discursava e pintava um país cor-de-rosa." Para o deputado do Chega, a economia "está melhor", como referiu Luís Montenegro, mas "o crescimento foi menor do que em Espanha, Polónia ou Eslovénia, que são países que há dez ou 15 anos estavam muito atrás de nós e já nos passaram à frente".
Já o dirigente do PS, Filipe Santos Costa disse que o primeiro-ministro está “mais desfasado que a Alice no País das Maravilhas”, porque descreve um país que não corresponde à realidade. "Portugal está pior e os portugueses estão muito pior, os dados desmentem a propaganda da Aliança Democrática (AD)", avançou à Lusa.
“Na oposição, a AD dizia que era fácil pôr o país a crescer mais de 3%, pegou num país a crescer 3% e baixou o crescimento para 1,9%”, destacou. "Quando estava na oposição, Luís Montenegro garantia que quando fosse primeiro-ministro ia operar um milagre económico, ia pôr o país a crescer muito, ia baixar impostos e ia haver um grande ciclo de investimento público. Mas é assustador ouvir agora Luís Montenegro, no Pontal, a fazer um discurso que já é um discurso preventivo, de justificação e de desculpa do falhanço do Governo", apontou.
Filipe Santos Costa afiançou que não o deixa nada tranquilo ouvir o "discurso tranquilizador" de Montenegro de que não vai deixar como legado uma `troika´. "O país ontem [sexta-feira] descrito, pura e simplesmente, não corresponde à realidade porque a economia está pior, o custo de vida está pior, a inflação está pior, os rendimentos estão piores, o poder de compra dos portugueses e a qualidade de vida dos portugueses está pior", insistiu.
“O Governo PSD/CDS-PP continua a tentar aplicar uma política fiscal como se, de facto, estivesse a ter os resultados de crescimento económico que dizia que era fácil ter, mas que não consegue ter”, apontou. "E isso preocupa-nos porque isso vai conduzir a um agravamento fiscal e, no futuro, vai conduzir a uma degradação das contas públicas", considerou.
O Livre, pela voz do deputado Paulo Muacho, apelidou o discurso de um "verdadeiro elogio da banalidade" de um "Governo esgotado". A intervenção de Luís Montenegro "ignorou" os problemas e "mostra sobretudo um Governo sem uma única ideia para o país".
Quando "pede para que se fale menos sobre aquilo que não corre bem", Paulo Muacho afirma que este é "um primeiro-ministro que claramente não está confortável com o trabalho da oposição de apontar os erros e aquilo que vai sendo mal feito".
O PCP afirmou, ainda na sexta-feira, que "quem estica o salário até ao fim do mês" não se reviu no discurso do primeiro-ministro. Numa declaração enviada à comunicação social, a comunista Margarida Botelho, membro do secretariado do Comité Central do partido, afirmou: "O primeiro-ministro falou de governar para as pessoas, mas creio que quem espera para pôr o bebé na creche e não teve vaga, quem espera por aceder a uma urgência e a encontra fechada, quem estica o salário até ao fim do mês e tem muita dificuldade porque está tudo mais caro, não se reviu neste discurso."
Margarida Botelho acusou também o executivo de seguir uma agenda "partilhada com o grande capital, com a União Europeia, com o imperialismo", em que "umas vezes vai buscar apoios ao PS, outras vezes ao Chega e à Iniciativa Liberal".
"A verdade é que o nosso país precisava de uma política completamente diferente, uma política que desse resposta ao problema dos salários, da habitação, da saúde, da educação, que tivesse uma política de direitos de desenvolvimento e de paz", defendeu. A comunista argumentou ainda que a luta dos trabalhadores contra as alterações da lei laboral propostas pelo Governo evidenciou que "há forças no país para derrotar" a política do executivo.
O coordenador do Bloco de Esquerda, José Manuel Pureza, acusou o líder do PSD de recorrer à "rábula do costume": "Ouvimos esta noite o Luís Montenegro dizer que lá fora é que dão valor à grande obra do Governo português e que cá dentro as pessoas não se dão conta de tão grande coisa que nós temos. É um bocadinho a rábula do costume de Luís Montenegro. O país está melhor, as pessoas é que não", atirou.
José Manuel Pureza afirmou ainda que o primeiro-ministro transmitiu no discurso que os portugueses são "uns ingratos" por falarem do que corre mal, pedindo a Montenegro que pergunte aos jovens o impacto das falhas na correção dos exames nacionais ou na dificuldade de aceder à habitação.
"Finalmente, em terceiro lugar, o primeiro-ministro veio dizer que o desígnio do Governo é aumentar o rendimento de todas as pessoas, sobretudo aquelas que têm menos. Muito bem, hoje mesmo entrou em vigor o diploma que põe em prática a Prestação Social Única (PSU). E feitas as contas, sabemos que este diploma do governo retira 161 euros a quem beneficia do subsídio de desemprego a partir do sétimo mês de desemprego", acrescentou ainda, referindo que o partido se vai juntar a outras forças para levar o decreto sobre a PSU ao Parlamento.
Os restantes partidos não se pronunciaram, até ao momento.
Luís Montenegro discursou na noite de sexta-feira, durante a festa de rentreé política do PSD, na Quarteira, Algarve. Entre os destaques da intervenção estão o anúncio da aquisição de 13,7% da Redes Energéticas Nacionais (REN), a promessa de recuperação do investimento na TAP através da venda da empresa e a criação de um Passe Ferroviário Verde para Lisboa e Porto. O primeiro-ministro alongou-se por uma série de autoelogios ao Governo, sublinhando o que considera serem os "feitos" dos últimos dois anos de governação. Não abordou nenhuma das polémicas que têm marcado os últimos meses do Executivo, a envolver os ministros da Administração Interna, Luís Neves, e da Educação, Fernando Alexandre.
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