Mulheres na Ciência distinguem projetos sobre lúpus, glioblastoma, energia e microalgas
Sociedade
Edição 2025 das bolsas visam "promover a participação das mulheres na ciência".
16 de setembro de 2026 às 13:11
A edição 2025 das bolsas Mulheres na Ciência, financiadas pela cosmética L'Oréal Portugal, distinguiu investigadoras com projetos sobre o lúpus, glioblastoma, produção de energia e microalgas, anunciou esta quarta-feira a promotora da iniciativa.
Inês Alves, Fátima Santos, Cláudia Martins e Ana Esteves, todas investigadoras da Universidade do Porto (UP), vão receber cada uma 15 mil euros, valor unitário das Medalhas de Honra L'Oréal Portugal para as Mulheres na Ciência, uma iniciativa promovida pela empresa de cosmética L'Óreal, em parceria com a Comissão Nacional da Unesco e a entretanto extinta Fundação para a Ciência e Tecnologia, que designou o júri, mais uma vez presidido pelo biofísico Alexandre Quintanilha.
Atribuídas anualmente a quatro jovens investigadoras, as bolsas visam "promover a participação das mulheres na ciência, incentivando as mais jovens e promissoras cientistas, em início de carreira, a realizarem estudos avançados nas áreas das ciências, engenharias e tecnologias para a saúde ou para o ambiente".
Inês Alves debruça-se sobre o lúpus eritematoso sistémico, uma doença autoimune, Fátima Santos sobre a produção de eletricidade para pequenos dispositivos a partir de luz ambiente, Cláudia Martins sobre o combate a células cancerígenas que permanecem no cérebro de doentes com glioblastoma, tipo de cancro cerebral mais comum e agressivo, e Ana Esteves sobre a produção eficiente e sustentável de microalgas para uso na indústria alimentar, farmacêutica ou cosmética.
Ana Esteves vai testar os efeitos da luz e do som no crescimento de uma espécie de microalga, a 'Chlorella vulgaris', muito usada na indústria devido aos seus benefícios.
A investigadora do Laboratório de Engenharia de Processos, Ambiente, Biotecnologia e Energia da UP, que coordena o trabalho, tem por base a premissa de que as microalgas produzem mais proteína sob efeito de luz de cor azul e que, genericamente, as plantas reagem ao som.
No estudo, conforme descreveu à Lusa, Ana Esteves vai observar como espécimes de 'Chlorella vulgaris' reagem a diferentes condições de luz (branca e azul) e de som (mais ou menos audível e incluindo ultrassom).
Se for bem-sucedida, a experiência permitirá "ajustar as condições para melhorar a produção" de microalgas, e os seus respetivos compostos, mas também melhorar a sua colheita, evitando os gastos de energia requeridos pelos métodos atuais, como a centrifugação, ou a utilização de químicos.
A cientista espera ter resultados no próximo ano.
Doenças autoimunes como o lúpus eritematoso sistémico levam o sistema imunitário a atacar o organismo em vez de o proteger, causando danos.
A investigadora Inês Alves, do instituto i3S da UP, quer perceber se nesta doença, que se manifesta por fadiga, dores articulares, lesões na pele, sensibilidade ao sol, febre ou queda de cabelo, as alterações nos açúcares que envolvem a superfície das células dos tecidos afetados "podem contribuir para a resposta patológica do sistema imunitário" dos doentes.
"A identificação precoce destas alterações biológicas poderia trazer uma janela de oportunidade para atuar na prevenção e proteger a estrutura e a função dos tecidos, evitando a progressão para uma doença autoimune debilitante e com múltiplas comorbilidades associadas", justifica a imunologista, citada numa nota pela promotora das bolsas.
À Lusa, a cientista explicou que vai procurar identificar os padrões de açúcares alterados (em doentes com os rins afetados) e os anticorpos produzidos pelo organismo e, assim, obter um biomarcador que permita diagnosticar "mais precocemente e com mais precisão" a doença, uma vez que os sintomas iniciais, sendo genéricos, atrasam o diagnóstico.
No seu trabalho, Inês Alves vai fazer testes de pesquisa com sangue de doentes, de pessoas com risco acrescido da doença e de pessoas saudáveis e depois validá-los com células.
Fátima Santos, da Faculdade de Engenharia da UP, pretende ver em finais de 2028 a demonstração de um protótipo de janela com células solares capazes de captar luz ambiente interior e convertê-la em eletricidade para alimentar pequenos dispositivos de baixo consumo energético, como sensores de uma casa inteligente, reduzindo o uso de baterias.
Atualmente, a investigadora desenvolve testes em laboratório para selecionar os componentes das células mais adequados, incluindo as moléculas de corante, que permitem absorver a luz disponível e desencadeiam um processo semelhante à fotossíntese, tornando possível converter a luz absorvida em eletricidade.
As células solares vulgares, que têm silício na sua composição, não permitem gerar um efeito tão amplo, uma vez que estão "treinadas" para captar apenas a luz direta do sol.
Cláudia Martins, investigadora do i3S, também da UP, disse à Lusa que espera ter dentro de três a quatro anos resultados de testes feitos em ratinhos de um implante que, se os testes forem concluídos com êxito, promete revolucionar o tratamento do glioblastoma, o cancro cerebral mais comum e agressivo, e "aumentar o tempo de vida e melhorar a qualidade de vida" dos doentes.
O implante, feito de um polímero biodegradável que funcionará como um gel e será testado numa primeira fase em células tumorais de doentes, permite em tese combater as células cancerígenas que permanecem no tecido cerebral mesmo após a remoção cirúrgica do tumor, levando ao reaparecimento da doença.
Este implante terá uma tripla ação faseada: liberta um medicamento de quimioterapia exatamente no local do cérebro deixado vago pelo tumor, um medicamento que bloqueia a resistência à quimioterapia e um medicamento que elimina a mensagem genética que instrui as células tumorais a produzirem uma proteína que promove o seu crescimento e disseminação.
Nos ratinhos, que mimetizam doentes humanos, o implante será colocado depois de removido o tumor na cirurgia.
As vencedoras das bolsas Mulheres na Ciência 2025 foram, esta quarta-feira, anunciadas numa cerimónia em Lisboa.
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