O que o Mundial de Futebol nos lembra sobre a sexualização das mulheres no desporto
Não é nada de novo. Enquanto milhões acompanham o Mundial de Futebol, há uma imagem que continua a repetir-se nas transmissões desportivas: o plano que abandona o jogo para mostrar uma mulher na bancada. Lá está ela, uma mulher bonita e provavelmente com um plano no decote. No desporto feminino, essa lógica é frequentemente transportada para as próprias atletas. Close-ups, planos de detalhe e repetições em câmara lenta centram-se em pernas, cinturas ou glúteos, desviando o foco daquilo que realmente importa: a performance desportiva.
O exemplo mais recente aconteceu durante o Mundial de Futebol. As câmaras focaram duas adeptas portuguesas nas bancadas e, em poucas horas, as imagens tornaram-se virais. As gémeas passaram a ser notícia em vários meios de comunicação e nas redes sociais, onde a atenção se centrou sobretudo na sua aparência e não no jogo que decorria em campo. Este tipo de enquadramento ajuda a perceber o conceito de pervcam: a tendência para transformar mulheres presentes num evento desportivo - sejam adeptas ou atletas - em objeto de contemplação. No caso das atletas, o problema é ainda mais evidente, com close-ups, planos de detalhe e repetições em câmara lenta que destacam partes do corpo sem qualquer relevância para a compreensão da competição.
Mas existem boas notícias. Esta semana foi publicado pela European Broadcasting Union Sport (EBU) um documento de 23 páginas com o nome Raising the Bar e as diretrizes são simples: não é uma lista de restrições da cobertura desportiva, são orientações que evitam comprometer a narrativa e qualidade visual. Glen Killane, diretor executivo da EBU, afirma que "a sexualização das atletas através de ângulos de câmara seletivos e escolhas de edição continua a ser uma preocupação significativa em muitas transmissões desportivas". Planos prolongados sobre os corpos, ângulos de câmera baixos que captam imagens reveladoras e repetições excessivas em câmera lenta que não servem qualquer propósito técnico ou narrativo "estão entre os problemas observados na cobertura mediática das competições de atletismo feminino atualmente”, afirma o responsável. As recomendações serão implementadas pela primeira vez nos Campeonatos Europeus de Atletismo de Birmingham, entre 10 e 16 de agosto, e deverão servir de modelo para futuras transmissões da modalidade.
Leia também Lise Klaveness: a mulher que fez tremer os homens do futebol (e ainda desafiou a FIFA)
A preocupação com a objetificação das mulheres nas transmissões desportivas não é inédita. Em 2018, durante o Mundial de Futebol da Rússia, a FIFA pediu às emissoras que reduzissem os planos recorrentes de mulheres nas bancadas escolhidas pela sua aparência física. No entanto, ao contrário do que acontece agora com o atletismo, essa recomendação não deu origem a um conjunto formal e detalhado de diretrizes sobre a realização televisiva das competições.
A revista brasileira Trip conta-nos que, em 2023, uma pesquisa da agência VML com a Lux para a campanha Change The Angle mostrou que as mulheres têm mais 10 vezes mais probabilidade de ser objetificadas por câmaras do que os homens (e talvez porque a grande maioria das pessoas por trás das câmaras sejam, exatamente, homens). Para além disso, e “para escancarar o problema", a campanha jogou o 'jogo dos próprios media' durante a transmissão do Durban Open Beach Volleyball, na África do Sul: as atletas usaram QR codes nas áreas do corpo mais visadas de forma sexista pelas lentes, transformando o enquadramento invasivo num canal de informação sobre a campanha.
Em entrevista à Stylist, a atleta britânica Holly Bradshaw, que pratica salto com vara olímpica, refletiu sobre o impacto que a cobertura mediática pode ter no desempenho de um atleta: “A forma como o nosso desporto é apresentado durante as transmissões em direto pode ser incrivelmente poderosa, mas, por vezes, prejudicial para as mulheres que competem e para as mulheres e raparigas que assistem”, afirma. “Eu própria já fui alvo de abusos nas redes sociais e testemunhei vídeos online meus e das minhas colegas, quando são captadas imagens em câmara lenta de nós a competir.” Na opinião de Holly, as mulheres deviam poder desfrutar do desporto que gostam sem o desconforto de como está a ser filmado e transmitido. A atleta admite também que já passou por situações em que estava a competir e o seu foco estava nas câmeras e não no desempenho.
Esta sexualização não acontece só quando a câmara começa a gravar. Os regulamentos que obrigam as mulheres a utilizar equipamentos justos, curtos e cavados ao ponto de serem desconfortáveis são apenas a ponta do iceberg. A jogadora de voleibol Carol Solberg, em entrevista à Trip, explicou a vulnerabilidade que sente ao estar de cuecas em frente aos operadores de câmara: “Às vezes estamos ali a jogar e ficamos com o corpo literalmente na cara de uma pessoa com uma câmara, é muito desagradável. Existem milhões de sites dedicados a rabos de jogadoras de voleibol (...)”.
Leia também As mulheres que estão a fazer história nos Jogos Olímpicos de Inverno
E infelizmente, esta não foi uma situação isolada. Nas Olimpíadas de Atlanta, em 1996, as jogadoras brasileiras Sandra Pires, Jacqueline Silva, Adriana Samuel e Mônica Rodrigues conquistaram as primeiras medalhas femininas do país - um marco importante para o desporto brasileiro – mas foram obrigadas pela organização a subir ao pódio de biquíni e impedidas de usar o casaco oficial do Brasil. O argumento utilizado? “Fica mais bonito”.
Em 2021, a equipa feminina norueguesa de andebol de praia recusou-se a usar biquíni e optou por calções durante o campeonato europeu. Uma revolta necessária contra a sexualização da mulher no desporto que lhes custou uma multa de 1500€.
Quando o foco da competição passa pelo corpo da mulher e não pelo desporto em si, deixa de ser uma discussão sobre ângulos e enquadramentos. Enquanto o destaque forem os glúteos e não os golos, a mensagem que as atletas (e o mundo) recebe vai continuar a ser a mesma: por muito que vençam, estamos mais interessados noutra coisa. E o que realmente deveria interessar (e interessa se estivermos a falar de atletas masculinos) é o segundo em que alguém bate um recorde, faz história ou ganha uma medalha. O resto é apenas um mau enquadramento.