Precisamos de falar sobre menopausa. "Ainda se acha que as mulheres têm de se manter jovens e bonitas até ao fim da vida"

🗓️ 2026-07-20 📁 world-news 📝 ⏱️ 👁️ : -

“A natureza não é amiga das mulheres. As mulheres sofrem com a menstruação, sofrem para engravidar, e depois sofrem com a menopausa. A menopausa é a fase mais ingrata na vida de uma mulher. E a sociedade não ajuda. Ainda se acha que as mulheres têm de se manter jovens e bonitas até ao fim da vida. A sociedade exige que uma mulher que viveu uma vida inteira com um determinado cocktail hormonal, e que de repente deixa de ter essas hormonas, continue igual.” O desabafo é de Ana Sacramento, 59 anos. Tinha 53 quando, a conselho do médico, fez uma série de análises para “despistar” a possibilidade de já estar na menopausa – o que se confirmou. Deixou de tomar a pílula e tudo parecia “maravilhoso” até surgirem os primeiros sintomas provocados pela falta de compensação hormonal. Os suores, as dores nas articulações, as “brancas.” Veio tudo de uma vez, tudo em excesso. “De noite acordava com os dedos presos, engatilhados, tinha uma dor lancinante no cotovelo, nos joelhos. […] E uma dor no peito, uma dor enorme. Depois comecei a ter suores, os chamados afrontamentos. Chegava a ter quinze por dia, contava para dizer ao médico. De manhã levantava-me, punha os pés no chão e parecia que pisava vidro. […] Também tive alterações de memória, a sensação de cabeça vazia, as ‘brancas’. A pessoa pensa que está com demência. Eu resolvi pôr-me a fazer uma pós-graduação. Aos 56 anos fui estudar, para estimular o cérebro.” A menopausa testou-a ao limite, e foi quando achou que não podia “aguentar mais” que decidiu avançar para a terapêutica hormonal, depois de muito ponderar os prós e os contras. “Eu tinha um descontrolo enorme em termos de fome. No final das refeições tinha a mesma fome que no início, era uma fome anormal. No primeiro ano aumentei oito quilos. Acabei por ir ter com o médico e disse-lhe: ‘Se eu continuo assim, morro.’ Comecei a fazer terapia hormonal, e foi o céu. Ele deu-me a dose mais baixa de estrogénio, porque eu tenho alguns fatores de risco. Ao fim de três meses estava nova. Parei cinco anos depois.”

É um relato como tantos outros: cru, angustiado, frontal, sem nada de glamoroso ou de particularmente atraente – ou instagramável, como convém nos dias que correm. A história de Ana Sacramento podia ser a de Sofia ou de Olga, a de Nina ou de Sara. Por cada testemunho partilhado, há outro que fica por contar. É um avanço. Consagrar espaço e tempo de antena a um problema de saúde pública não deveria ser revolucionário, mas é. Apesar de a menopausa ter “uma transcendência social enorme”, como recordava Graça Freitas, ex-diretora-geral da Saúde, no primeiro Evento Internacional Menopausa e Direitos Humanos, recentemente organizado pela VIDAs Associação Portuguesa de Menopausa, esta ainda é encarada como uma espécie de bicho-papão, uma matéria incómoda que é chutada para canto quando é necessário tomar decisões – políticas e não só. “A menopausa foi durante demasiado tempo tratada como um assunto menor na saúde das mulheres. Foi vista como uma fase natural e isso serviu muitas vezes de desculpa para banalizar sintomas que podem ter impacto real e severo na qualidade de vida. Há ainda falta de formação, falta de atualização e, em muitos casos, falta de escuta. Muitas mulheres continuam a ouvir ‘isso é da idade’ quando o que precisam é de avaliação séria, informação clara e acompanhamento competente.” As palavras são de Cristina Mesquita, presidente e fundadora da VIDAs, que considera a menopausa como “o último grande desafio civilizacional do século XXI” por obrigar a sociedade “a decidir se quer continuar a desvalorizar esta fase ou se finalmente a reconhece como matéria de saúde, dignidade e direitos humanos”. E sublinha: “A menopausa permanece um tabu porque toca em áreas em que a sociedade ainda trata mal as mulheres: envelhecimento, corpo, sexualidade, fertilidade e perda de valor social. A menopausa continua a ser empurrada para o silêncio porque obriga a olhar de frente para a forma como a mulher é vista quando deixa de caber no ideal de juventude e disponibilidade permanentes. É natural, sim. Mas natural não quer dizer irrelevante nem invisível.” Esse é o objetivo.

O Diário da Princesa (2001)

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“Quando a médica ‘bateu o martelo’, deu o diagnóstico final, eu tinha 39 anos. Mas com 37, 38 já estava nessa transição, sem saber. A menopausa é a ausência do período por um ano, mas como eu tinha o DIU ele atrapalhava a hipótese de ter essa certeza. Então como é que descobri? Ganhei muito peso em pouco tempo e decidi procurar um endocrinologista, porque pensava que tinha algum problema de tiroide. O médico pediu várias análises e quando chegou o resultado ele até se assustou porque eu já estava na menopausa. Ou seja, eu passei pela perimenopausa e não dei conta. Claro que, quando olhei para trás e pensei nos sintomas que sentia, estava tudo lá, batia tudo certo: a irritabilidade, o acordar de madrugada e não conseguir dormir mais, a falta gigante de libido… E aí surgem outros problemas, porque o nosso relacionamento também fica em xeque. Parece que nos tornamos outra pessoa.” A menopausa precoce de Lia Queirós, agora com 41 anos, foi mais do que um murro no estômago, foi um atropelo nos sonhos que julgava ainda poder concretizar. “A dada altura o médico disse para tirar o DIU, que se tivesse de engravidar ia ser agora. E eu tirei. Só que já estava na menopausa. Não dava. Não era uma coisa que quisesse no momento [ter um filho], mas quando dizem ‘não pode’ é um choque.” O cansaço, a tristeza gigante “que não se sabe de onde vem, só apetece chorar, largar tudo e sumir”, são outros efeitos colaterais que Lia encontrou nesse doloroso processo de redescoberta. “O mais importante é você, mulher, conhecer o seu próprio corpo. No começo, quando estava com as hormonas todas alteradas, achava que era uma maré de azar na minha vida. Dava tudo errado, não conseguia nada, não tinha vontade para nada, e pensava ‘Estou numa maré de azar, não é possível!’ Por isso é importante procurar ajuda.”

Importante, também, é ter a sorte de a encontrar. Quando o assunto é menopausa, ainda existe alguma insensibilidade (desconhecimento?) por parte… da comunidade médica. “Eu quero acreditar que não é falta de sensibilidade, o que ainda existe é falta de formação e de informação. Por isso, pode haver mais dificuldade em identificar sinais e sintomas, em validar esses sinais e sintomas, e depois em orientar esses sinais e sintomas. Por sua vez, também acho que ainda há algum desconhecimento da parte das pessoas, e como há desconhecimento dos dois lados, às vezes gera este fosso, este buraco, entre ‘eu tenho este problema, preciso de alguém que me ajude, mas também não sei definir bem o que tenho’, assim como também não há uma formação tão organizada e estruturada para identificar e partir logo para a ajuda.” A opinião de Ana Cardoso, médica MGF na USF Lauroé, é reforçada por um facto que parece quase impossível de assimilar: até 2019, a menopausa “não fazia parte do curso de formação base de medicina, de cinco anos, e mesmo das próprias especialidades, quer medicina geral e familiar, ginecologia, endocrinologia, existia esse módulo, mas não era muito aprofundado. Isso tem mudado, mas desde a mudança até à efetividade isto vai demorar um bocadinho.” Daí, sugere, o preconceito que rodeia o tema – algo que precisa de ser urgentemente abolido. “A menopausa é uma fase que altera metabolicamente o corpo da mulher e tem impacto em todos os órgãos da mulher, portanto, temos de ver como é que vamos fazer isso [em termos sociais], porque a mulher vai viver um terço da sua vida nesta fase de transição ou pós-menopausa, e está numa altura muito ativa da sua carreira. Isto é biologia.”

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Posto isto, Ana Cardoso alerta para a necessidade de quebrar os mitos que rodeiam a terapêutica hormonal da menopausa (THM), muitos deles provocados por um polémico estudo de 2002, cujas conclusões, erróneas e amplamente divulgadas, criaram um clima de medo e tensão na comunidade feminina. “Em termos práticos, para quem não tem contraindicações, a terapia hormonal da menopausa é a terapêutica que temos mais eficaz para aliviar sintomas. Além disso, também sabemos que ela é favorável a nível da osteoporose, do cancro colorretal, reduz o risco cardiovascular – que é aquilo que mata mais mulheres depois da menopausa. Isso é a evidência que temos hoje. Também sabemos que não temos apenas um tipo de terapia hormonal, e isto também é importante salientar, temos vários, e temos de saber, para cada tipo, quais são os benefícios e quais são os riscos – porque mesmo os riscos associados não são iguais para todo o tipo de terapia hormonal; depende do tipo de hormona que estou a tomar, do tipo de administração, etc. São dados que já estão totalmente descritos na evidência científica.” O combate à desinformação e a promoção da literacia é uma luta diária. Basta pensarmos que a Assembleia da República discutiu o problema pela primeira vez em 2024, muito à custa do trabalho levado a cabo pela VIDAs. “É preciso falar mais cedo e melhor. Nas escolas, nos serviços de saúde, nos locais de trabalho e nos meios de comunicação. É preciso formar profissionais, dar informação clara às mulheres e deixar de tratar a menopausa como um assunto privado ou menor”, frisa Cristina Mesquita. Além da discussão no hemiciclo, o Orçamento do Estado para 2025 e 2026 já inclui legislação que contempla a menopausa. Agora é preciso ação. Até porque a menopausa, às vezes, consegue ser ultraprecoce.

“Durante os primeiros quatro anos após ter sido diagnosticada, fui muito mal tratada por um ginecologista, que não olhava nem para mim nem para as análises de forma objetiva e insistia em medicar-me como se eu fosse uma mulher de 50 anos. Foi aqui em Lisboa que, depois de vários ataques de pânico e muitos problemas de ansiedade, fui a um psicólogo que me recomendou procurar um novo ginecologista. Desde então estou muito feliz com o tratamento, que me faz estar mais calma e funcional. Como qualquer mulher na menopausa, tinha problemas de sono, secura vaginal, perdas de memória a curto prazo, dores nas articulações e outros sintomas, que agora estão a ser silenciados com tratamento hormonal de estrogénio e progesterona.” Maria Jesus destrói tudo aquilo que julgamos saber sobre a menopausa. Tem 32 anos. É jovem, bonita, leve. Descobrimo-la através de uma reportagem do jornal El País, em que contava parte da sua história – que começa com a ausência de menstruação. “Com 15 anos fui pela primeira vez ao médico, preocupada com a falta do período. Fiz uma ecografia e ele disse-me que eu não estava desenvolvida. […] Por isso sempre me senti estranha, porque de todas as minhas amigas e primas, eu era a diferente. Também me lembro de que naquela altura a ansiedade era elevada e tinha dificuldades em estudar e manter o foco no que estava a fazer. Só com 17, 18 anos é que me deram a pílula para ter uma falsa menstruação. Ela fez-me ganhar muito peso, senti-me muito mal comigo mesma e tive um transtorno de comportamento alimentar, neste caso bulimia, que se manteve até os meus 26 anos.” Curiosamente, o diagnóstico de menopausa não a derrotou – aliviou-a. “Fui diagnosticada com 22 anos em Espanha, um ano antes de chegar a Portugal, quando fui pela primeira vez a um ginecologista privado. Fizemos exames para ver se havia algum tipo de herança genética e concluiu-se que não tinha nada a ver com a genética, mas sim com o meu desenvolvimento embrionário. No estudo folicular vimos que eu não tinha folículos (x número de folículos = x número de óvulos). Aí disseram-me que para ter filhos teria de ser através de fecundação in vitro ou adoção. O impacto foi maior na minha mãe. Eu estava contente por finalmente ter um diagnóstico.” Maria Jesus é a prova de que existe (muita) vida para além da menopausa. A sua voz é a sua maior arma. Não se vai esconder debaixo de filtros ou figuras de estilo, até porque a menopausa, com o incómodo e desassossego que acarreta, pode – e deve – ser um momento de afirmação pessoal. Se ao menos nos tivessem preparado para isso.

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Eram decididamente outros tempos, sem grandes avanços tecnológicos nem grandes ambições de sucesso e poder, e talvez por isso os currículos escolares pecassem por essa inocência coletiva que nos deixava, a todos, um pouco alienados do mundo real. Não obstante, é um facto que várias gerações dedicaram horas incontáveis à prática da flauta de bisel, esse instrumento que, convenhamos, pouco ou nenhum impacto – visível – terá tido nas suas vidas. A esta distância, talvez fosse sensato que parte desse período tivesse sido consagrado a educar para temas de saúde pública, igualdade e direitos humanos, evitando que se transformassem em tabus de dimensões assombrosas. A menopausa, por exemplo. Quem é que quer falar de menopausa? Ninguém. Dizemos “menopausa” e o nosso interlocutor imagina um sótão escuro cheio de teias de aranha, cheiro a bolor e a mofo, uma estrada que não vai dar a lugar nenhum. Dizemos “menopausa” e há um desconforto do outro lado, como se tivéssemos usado uma palavra proibida. Um revirar de olhos. Um risinho pateta que esconde ignorância e roça a boçalidade. A sociedade não gosta de falar sobre menopausa. As mulheres evitam falar sobre menopausa. Os médicos tentam não falar sobre menopausa. Os homens fogem a sete pés assim que alguém toca no assunto menopausa. Apesar de afetar mil milhões de mulheres em todo o mundo, ela continua a ser um segredo público vivido em privado. A menopausa não é conversa de café. A menopausa não é coisa que se discuta num almoço de família. A menopausa não é tema para os comentadores dos canais de televisão. A menopausa não é um assunto que dê likes. A menopausa não vende. Para quem está de fora, a menopausa é invisível, indolor, não se vê e não se sente. É um problema exclusivamente feminino, daqueles que inspiraram Pedro Almodóvar a escrever “Mulheres à Beira de Um Ataque de Nervos” e conduziram Virginia Woolf ao seu trágico destino. Precisamos de falar sobre menopausa. Como se fosse a coisa mais natural do mundo. Porque é.

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