Rapper Macklemore afastado da digressão de Ed Sheeran após defender uma “Palestina livre”

🗓️ 2026-09-14 📁 world-news 📝 ⏱️ 👁️ : -

Foram duas palavras ditas para dezenas de milhares de pessoas: “Free Palestine” ["Palestina Livre", em português]. A 4 de setembro, no primeiro de dois concertos em que abriu para Ed Sheeran no Estádio MetLife, em Nova Jérsia, Macklemore explicou que aceitara participar na digressão também para poder levar aquela mensagem aos maiores palcos norte-americanos. Dez dias depois, estava fora das restantes datas.

O momento não se limitou ao apelo por uma “Palestina livre”. Com um keffiyeh (lenço tradicional usado em muitas partes do Médio Oriente) sobre os ombros, o rapper mostrou imagens da destruição em Gaza e de protestos universitários enquanto interpretava a canção Hind’s Hall. Acusou Israel de genocídio e apartheid, declarou solidariedade com o Congo, o Sudão, Cuba e o Irão e chamou “organização terrorista” ao Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA. Na noite seguinte, voltou ao palco e dirigiu-se aos espectadores judeus: afirmou que criticar o Estado de Israel não significava criticá-los e apresentou a sua mensagem como um apelo à paz, à dignidade e à igualdade, reportou o Los Angeles Times.

A atuação desencadeou uma campanha pela sua retirada. O Israeli-American Council, organização de representação da comunidade israelo-americana, acusou-o de usar o palco de outro artista para promover uma agenda política unilateral. O grupo StopAntisemitism considerou que os espectadores tinham sido surpreendidos por “propaganda anti-Israel” e exigiu desculpas e reembolsos. 

A retirada de Macklemore do cartaz foi confirmada pela Messina Touring Group, promotora da fase norte-americana da Loop Tour, esta segunda-feira. De acordo com a empresa, vários recintos avisaram que não aceitariam receber os concertos com Macklemore no cartaz; mantê-lo poderia levar ao cancelamento de toda a digressão e afetar centenas de milhares de espectadores. Após conversas com as partes envolvidas, decidiu-se afastá-lo. Os músicos Lukas Graham e Aaron Rowe continuam, no entanto, anunciados como parte da abertura. A digressão regressa a 19 de setembro, em Filadélfia, e termina a 7 de novembro, em Tampa, no estado da Flórida.

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A cantora Pink - que não participa na digressão - repartilhou inicialmente a publicação mas recuou, esclarecendo depois que não se opunha à expressão “Free Palestine” nem pretendia ver Macklemore silenciado ou despedido. Disse, porém, que a combinação entre as imagens, o discurso e uma atuação de 2014 — na qual o rapper usou uma peruca escura, barba postiça e um nariz protético, num disfarce entendido por muitos como uma caricatura antissemita — a assustara enquanto mulher judia e mãe. Macklemore desculpou-se na altura, garantindo que não existira intenção étnica ou religiosa.

A reação de Macklemore

O músico reagiu esta segunda-feira, numa extensa declaração publicada nas redes sociais. Na mesma, Macklemore contou que passou a última semana em “conversas difíceis” com Sheeran, amigo de há 13 anos. O cantor britânico ter-lhe-á dito ao telefone que proclamar “Free Palestine” fora “doloroso para muitas pessoas”. O músico rejeitou que a defesa da liberdade palestiniana constituisse um ataque aos judeus e insistiu que a amizade entre ambos não poderia alterar a sua “responsabilidade de dizer a verdade”. O relato foi publicado pela revista Variety e não motivou, para já, qualquer reação de Ed Sheeran.

Na declaração, Macklemore reconhece também que Sheeran ficou numa posição difícil, entre a relação pessoal e a dimensão comercial de uma digressão de estádios. Afirma ainda que nenhum dos artistas envolvidos - incluindo ele próprio, Sheeran e a cantora Pink - deve ser tratado como vítima; todos conservam carreiras, segurança, dinheiro e a possibilidade de regressar às respetivas famílias. “As vítimas são os palestinianos”, escreveu.

Os sete recintos em que ainda estava previsto que Macklemore atuasse são o Lincoln Financial Field, em Filadélfia; o Gillette Stadium, em Foxborough, onde estavam previstas duas noites; o Mercedes-Benz Stadium, em Atlanta; o Lucas Oil Stadium, em Indianápolis; o Bank of America Stadium, em Charlotte; o AT&T Stadium, em Arlington; e o Raymond James Stadium, em Tampa. Nenhum responsável pela gestão dos espaços adiantou se o cancelamento das atuações de Macklemore resultou das posições políticas do músico, de preocupações de segurança, de condições contratuais ou outro motivo.

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Uma ligação antiga à Palestina

O apoio de Macklemore à Palestina não começou agora. Depois de condenar os assassinatos e raptos cometidos pelo Hamas a 7 de outubro de 2023, passou a denunciar a resposta militar israelita e a pedir um cessar-fogo. Em maio de 2024 lançou Hind’s Hall, tema cujo título homenageia Hind Rajab, menina palestiniana de seis anos morta em Gaza, e prometeu entregar à UNRWA (das Nações Unidas) as receitas obtidas nas plataformas digitais. A canção apoiava os estudantes que tinham ocupado a Hamilton Hall, da Universidade de Columbia, em apoio à Palestina.

Em setembro de 2024, Macklemore foi retirado do Neon City Festival, em Las Vegas, dias depois de ter gritado “Fuck America” ["Que se foda a América", em português] num espetáculo solidário com a Palestina. O festival invocou apenas “circunstâncias imprevistas”, não estabelecendo oficialmente uma relação entre os dois acontecimentos. Os Seattle Kraken e os Seattle Sounders, clubes dos quais Macklemore era investidor minoritário, classificaram então as declarações como divisivas e anunciaram que avaliariam a relação com o músico.

Desde 2023, outros artistas sofreram consequências concretas por intervenções relacionadas com Gaza, embora os casos não sejam inteiramente equivalentes. A atriz e cantora mexicana Melissa Barrera foi despedida do filme Gritos VII depois de classificar a ofensiva israelita como “genocídio e limpeza étnica”; a produtora Spyglass alegou tolerância zero perante antissemitismo, incitamento ao ódio e referências que considerava falsas. A atriz condenou tanto o antissemitismo como a islamofobia e defendeu o direito de criticar qualquer governo.

Nesse mesmo mês, a agência UTA deixou de representar a atriz Susan Sarandon após uma intervenção numa manifestação pró-Palestina. A atriz pediu posteriormente desculpa por uma formulação que reconheceu diminuir a história da perseguição aos judeus, mas manteve a defesa de um cessar-fogo. Em setembro de 2026, afirmou que continua a perder papéis e que algumas agências desaconselham a sua contratação.

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