Soya Marega: "Ser filho de imigrantes não é fácil. Somos muitas vezes 'os diferentes' e alvo de preconceito"

🗓️ 2026-07-22 📁 world-news 📝 ⏱️ 👁️ : -

Sou cabeleireira especializada em cabelos naturais e ajudo muitas mulheres na transição, mas, ironicamente, eu própria cresci a não gostar do meu cabelo. Alisava, desfrisava, usava cabelo liso, extensões longas e perucas. Não era apenas uma escolha estética, era rejeição. Era gozada na escola e alvo de comentários e comparações desagradáveis. 

Ser imigrante ou filho de imigrantes não é fácil. Muitas vezes somos “o diferente” e isso torna-nos um alvo. Para sermos aceites, tentamos moldar-nos ao máximo. Isso vai muito além da estética: estende-se à música que ouvia e à forma de falar. É curioso como muitos dos hábitos que hoje tenho – e sempre tive – são atualmente trends no TikTok. Comida que tinha vergonha de levar para a escola hoje faz com que as pessoas façam filas para entrar nesses restaurantes. Aprecio e fico feliz que os tempos tenham mudado, mas isso não deixa de nos fazer pensar.

Soya Marega celebra a beleza que vem da memória e das gerações
Soya Marega fala da aceitação do seu cabelo natural Foto: Cristiana Morais / MÁXIMA

Para mim, rituais de beleza representam momentos de autocuidado. E o facto de conseguir incorporar tradições dos meus pais e avós completa-me, enriquece-me e faz-me sentir eu. Venho de um mundo em que “vaidade” é ser belo e apresentar-se bem, cheirar bem, e isso é essencial, mas não passa apenas por se vestir bem, maquilhar, pentear ou usar fragrâncias. Passa muito pela higiene. Venho de países muçulmanos em que ser limpo é um dos pontos fundamentais por questões religiosas. Para além de pelo menos dois banhos diários e das abluções entre as rezas, frequentamos o hammam uma ou de duas em duas semanas. O hammam é um ritual de purificação física através de banho a vapor, onde se faz uma esfoliação profunda com uma luva específica chamada kessa. Desde muito nova que prezo muito este tipo de cuidado: manter a pele esfoliada, limpa e bem hidratada. 

Cresci com os meus pais, sendo a minha mãe marroquina e o meu pai da Mauritânia, ambos muito amantes de fragrâncias, óleos e cremes perfumados, ambos muito vaidosos. A minha mãe, as minhas tias e primas sempre lindíssimas, com bastante kohl nos olhos e muito ouro dos pés à cabeça. Mesmo em Portugal, a minha mãe sempre manteve a sua estética, ainda que de forma mais europeizada. Do lado do meu pai, apesar de culturas diferentes, há uma grande semelhança nesse aspeto. Sou amazigh e soninké e, mesmo tendo nascido em Portugal, sempre estive muito em contacto com as culturas dos meus pais.

Mãos criam um penteado com tranças, um ato de beleza ancestral
Foto: Cristiana Morais / MÁXIMA

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Mãos criam um penteado com tranças, um ato de beleza ancestral

Soya frequenta o Centro Comercial Babilónia há 20 anos
Foto: Cristiana Morais / MÁXIMA

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Soya frequenta o Centro Comercial Babilónia há 20 anos

A minha mãe é a minha maior referência de beleza, estética e rituais. Para além dela, também as minhas tias e primas na Mauritânia, e ainda as cantoras, filmes e séries da Costa do Marfim, Senegal e Nigéria, moldaram profundamente a minha visão de beleza. Sinto que a minha imagem está em constante evolução, mas sempre soube quem era: quando vejo fotos minhas muito nova, já andava com inúmeras pulseiras nos braços e anéis. Gosto de incorporar a minha cultura na minha estética através da roupa, penteados, fragrâncias ou maquilhagem – recrio as minhas referências e sei que a Soya criança acharia isso o máximo. Só isso importa. 

A não existência de pessoas iguais a mim ou à minha mãe na televisão portuguesa e o facto de ser gozada pela textura do meu cabelo fizeram-me acreditar que era feio. Até que um certo dia me olhei ao espelho e decidi que já não queria mais ter o cabelo liso e usar extensões. Aos meus 22/23 anos, recorri a uma amiga para me ajudar nesse processo e, no dia seguinte, apareci com o cabelo natural. Voltei às tranças e nunca mais olhei para trás. Quando abracei o meu cabelo natural, comecei a experimentar diferentes penteados e isso também se tornou num dos meus rituais de autocuidado. Também percebi que a exotização é real – muitas vezes as pessoas sentem liberdade para invadir o espaço pessoal e tocar no meu cabelo. 

O processo de me trançar não é simples, requer muita atenção e exige foco no resultado final – e fé! Sinto orgulho no meu cabelo todos os dias, mas o sentimento de liberdade de me desprender de todos os meus complexos, dos estereótipos que me foram inculcados e de finalmente assumir o meu afro foi dos momentos mais marcantes da minha vida e, sem dúvida, mudou-a.

Várias perucas no cabeleireiro
Foto: Cristiana Morais / MÁXIMA

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Várias perucas no cabeleireiro

Soya Marega para a Máxima
Foto: Cristiana Morais / MÁXIMA

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Soya Marega para a Máxima

Créditos:

Fotografia: Cristiana Morais 

Realização: Cláudia Barros 

Maquilhagem: Duarte de Assunção 

Lozalização: Centro Comercial Babilónia

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