Clientes de clínica de fertilidade fechada serão recebidos noutra clínica
A Clínica de Fertilidade Ovom Care, sediada em Cascais, fechou cerca de um ano após abrir, de um dia para o outro, alegadamente, sem avisar previamente os pacientes ou as autoridades de saúde.
O Conselho Nacional de Procriação Medicamente Assistida (CNPMA) garante que “tem acompanhado de forma próxima e atenta a situação”, tendo esta sexta-feira, 4 de setembro, prestado alguns esclarecimentos.
O CNPMA reconhece que estamos perante uma “circunstância gravosa para todos os envolvidos”, salientando porém “o enorme esforço que profissionais da OvomCare têm vindo a desenvolver”, reconhecendo o "elevado espírito de profissionalismo e ético” dos mesmos.
O conselho esclarece que apesar da notícia de o fecho ter acontecido do dia para a noite, a OvomCare “dispunha de um Centro de contingência para situações de emergência”, tendo um protocolo com a AVA Clinic, através do qual esta última "se dispunha a colaborar na resolução de situações pontuais de emergência (por exemplo, falhas de equipamentos) que colocassem em risco a concretização de tratamentos em curso na OvomCare".
Assim, e no âmbito desse protocolo, alguns dos tratamentos que estavam em curso, “já em fase irreversível” foram continuados na Ava Clinic, por forma a evitar a perda “completa de todos os passos anteriormente dados”.
Acrescenta-se ainda que essa mesma clínica, face "às inesperadas e excecionalmente gravosas circunstâncias” aceitou receber “os materiais biológicos (gâmetas e embriões) criopreservados e armazenados nas instalações da OvomCare, bem como toda a documentação clínica dos utentes que receberam tratamento nesse Centro.
Mais se acrescenta que “os utentes detentores de gâmetas e/ou embriões são inteiramente livres de solicitar a sua transferência para qualquer outro Centro de PMA à sua escolha, sendo da sua responsabilidade assegurar as condições requeridas para esse transporte (como sucede sempre que há um transporte de material biológico entre Centros de PMA).
Recorde-se que a Associação Portuguesa de Fertilidade (APF) tinha exigido, na quarta-feira, garantias imediatas de acompanhamento dos utentes da clínica de Cascais, alertando para a interrupção de tratamentos e para a necessidade de assegurar a preservação e rastreabilidade dos embriões e gâmetas.
A associação tinha apelado ao Ministério da Saúde, ao CNPMA e às restantes entidades responsáveis para uma atuação "célere e coordenada", defendendo informação individualizada aos utentes e a continuidade dos cuidados "sem atrasos injustificados, nem prejuízo" para as pessoas afetadas.
Ovom Care tinha grande reputação
Era nas redes sociais que a Ovom Care atraia os seus clientes. Aí prometia "a tecnologia mais avançada da Europa" e "só pagar o preço total da fertilização in vitro se funcionar".
Essas duas características, aliadas ao facto de os valores serem substancialmente mais baixos do que os praticados no Reino Unido, foi o que fez várias outras mulheres, muitas delas de nacionalidade britânica, escolhessem a clínica em questão.
Só que, no final de agosto, sem que nada fizesse prever, pelo menos aos pacientes, o Tribunal Judicial da Comarca de Lisboa Oeste proferiu "sentença de declaração de insolvência da Ovomcareportugal Unipessoal", entregando a gestão e liquidação a um gestor de insolvências e decretando um prazo de 30 dias para reclamação dos créditos.
Fecho é culpa dos investidores?
Ex-gerente da Ovom Care, Cristina Hickman, reagiu ao encerramento repentino no Linkedin.
A mulher, que é embriologista, foi gerente da Ovom Care durante algum tempo, mas saiu em novembro de 2024, em conflito com os administradores, gestores de capital de risco, a quem agora responsabiliza pelo "colapso da Ovom Care".
Para a médica, "o capital de risco pode transformar os cuidados de fertilidade. Mas, sem liderança clínica experiente, governança responsável e uma abordagem que priorize o paciente, são os pacientes que, em última análise, arcam com o risco".
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