Clube de Leitura é espaço em que os livros reverberam

Em uma das vezes em que Mia Couto esteve no Brasil, um dos objetivos era conversar com leitores deste lado de cá do globo sobre “Antes de nascer o mundo” (Companhia das Letras, 280 páginas). E uma das questões que atravessou a entrevista que ele me concedeu foi justamente a capacidade da literatura de criar afinidades entre pessoas separadas por oceanos, histórias e experiências distintas. O escritor moçambicano falou da “partilha de deuses e de mundos” que aproxima autores africanos e brasileiros.
“Na percepção do que é divino, na ideia de corpo e do tempo, da fronteira entre o público e o privado e entre a rua e a casa, em tudo isso, há muita África no Brasil”, disparou o autor que, certa vez, já havia refletido sobre essa questão ao falar do mineiro Guimarães Rosa como fonte de inspiração. Há, em “Grande Sertão: Veredas”, disse ele, “um território que não tem geografia e, portanto, toca os moçambicanos, porque aquele sertão é o mundo inteiro”.
Talvez esteja aí uma das forças mais interessantes da leitura. Embora o encontro com um livro seja inicialmente íntimo, solitário, silencioso, aquilo que ele provoca pode ganhar outra dimensão quando passa pela experiência do outro.
É neste movimento, do livro para o leitor e do leitor para o outro, que vale pensarmos quando o assunto são grupos de pessoas que se reúnem para ler uma mesma obra, dividir suas impressões e experiências sobre ela. E os cinco anos de atuação do Clube de Leitura do CCBB Rio de Janeiro, iniciativa que recebeu Mia Couto naquela ocasião e que o fez revisitar sua criação de 2009 (tarefa que, segundo ele, é feita apenas por obrigação e certo acanhamento) oferecem um bom pretexto para olharmos para uma prática que estimula vínculos e pensamento crítico.
O que a leitura compartilhada em um clube de leitura revela sobre a maneira como as pessoas estão lendo e se relacionando com a literatura hoje? O que essa experiência coletiva torna possível que talvez não aconteça na leitura individual? Eliana Alves Cruz, Ruy Castro, Jeferson Tenório, Daniel Munduruku, Marcia Tiburi, alguns dos nomes de peso da Literatura Brasileira que já passaram pelo Clube de Leitura do CCBB, além da escritora e professora Suzana Vargas, mediadora e curadora do projeto, aceitaram o convite para refletir sobre essas questões e a partilhar suas experiências com a leitura coletiva.
“Os clubes de leitura são hoje o grande campo para formação de leitores. A leitura coletiva potencializa o livro, turbina seu alcance, pois toda história possui muitas interpretações, e é muito novo esse compartilhamento imediato e conjunto”, afirma a autora de “O crime do Cais do Valongo”, destacando o movimento entre o íntimo e o coletivo presente nesses momentos de troca. “Esses espaços têm sido um grande antídoto para a solidão, mas paradoxalmente na companhia de algo muito solitário: a leitura.”
Escolhido pelo público do CCBB para falar sobre “O ouvidor do Brasil: 99 vezes Tom Jobim”, em um bate-papo afetuoso e repleto de cumplicidade ao lado da parceira de vida e escritora Heloisa Seixas, Ruy Castro aponta para o fato de que, nesses encontros, há uma variedade de leitores. “Uns ‘leem’ melhor do que outros.” Ele pontua, mostrando-nos o que tem de positivo nessa pluralidade. “E isso pode beneficiar aqueles que leem de maneira mais desatenta e por alto, ensinando-os a se concentrarem e a buscarem significados mais profundos.”
Ler é colocar o texto em movimento
Já Jeferson Tenório traz para o centro desta discussão a ideia dos Clubes de Leitura como um Movimento Literário. “Não no sentido de produção literária, com suas características formais, mas uma produção de leitores. Nos clubes não há uma escrita criativa, mas uma escuta criativa, pois as pessoas ali estão reunidas em torno da palavra falada”, assevera o autor de “O avesso da pele.” Ele enfatiza que a literatura é posta em movimento com a partilha do texto. Lido individualmente, o livro só se completa quando ganha continuidade coletivamente.
“Quem gosta de ler, gosta de partilhar o que leu. É assim que a literatura existe e perdura, por que ela se atualiza no tempo através das múltiplas leituras. Em tempos de tantas telas, desse mundo digital acelerado, ler é, antes de tudo, um ato de resistência. Ler é sempre um ato político”, sentencia.
Fazendo coro com seus pares, Daniel Munduruku é da opinião de que a melhor experiência de leitura é aquela que é compartilhada, pouco importando o tema ou o estilo. Mas o ponto central da leitura em grupo, na visão do escritor, é a existência da mediação da leitura, condição que ajuda a ampliar, confrontar e relativizar os olhares. “Os clubes de leituras são ferramentas importantes para fazer a mediação necessária para que as pessoas não criem expectativas para além de sua própria compreensão a respeito do que estão lendo.”
E não há dúvidas de que tiramos muito proveito desses momentos de troca, pois, quando um título é posto na roda, abre-se espaço para uma ampla circulação de ideias. E ainda tem mais, nas mãos dos leitores, o livro deixa de pertencer apenas ao autor. “O autor normalmente sabe que o que escreve vai além do que imaginou ser um ponto final porque o leitor é também um cocriador daquela obra que terá continuidade no imaginário de quem a lê. Os clubes ajudam a ampliar o olhar sobre a obra, revelando nuances que nem mesmo o/a autor/a tinha em mente”, ressalta o escritor, voltando a reforçar a importância da leitura coletiva que é dirigida, orientada, mediada. “O debate que nasce das leituras individuais ganha nova dimensão quando levada ao grupo maior. O leitor individual acaba se limitando à sua própria compreensão. A leitura coletiva expande e nos permite apreender melhor o conteúdo compartilhado”, avalia o escritor e ativista indígena.
Para a filósofa e escritora Marcia Tiburi, ler é como ver um filme. “As pessoas querem contar a sua experiência”, sintetiza ela, explicando que essa necessidade tem a ver com a condição social de nossa época, uma vez que, como seres comunicativos que somos, buscamos partilha. “Nessas leituras coletivas, vemos como o livro é um meio de comunicação especial”, completa a coordenadora do Clube do Livro Feminismos Urgentes e autora de títulos como “Complexo de vira-lata.”
Uma história de leitura compartilhada
Em outra ocasião contei aqui nesta coluna como nasceram as rodas literárias realizadas pela professora Suzana Vargas com alunos não só de Ensino Fundamental, mas também de universidade. Lá nos anos 1980. A história dela com os livros e com a leitura partilhada, portanto, levam-na, naturalmente, a se identificar com o formato dos clubes de leitura. Em 2021, em plena pandemia, ela aceita capitanear o Clube de Leitura do CCBB, que, neste ano em que celebra cinco anos de existência, se estende para Brasília.
“A experiência da leitura coletiva, principalmente dentro de um centro cultural como o do CCBB, onde outras séries da cultura comparecem (teatro, cinema, exposições) reforça o princípio que norteou toda a minha atividade em favor da leitura, ou seja, o princípio de que literatura é arte e de que o ato de ler também é. Colocada num centro cultural onde outras atividades artísticas são oferecidas como lazer, a leitura entra nesse rol de atividades prazerosas e instrutivas ao mesmo tempo”, defende Suzana, em sintonia com Marcia Tiburi. “A atividade leitora equipara-se, por exemplo, a ver um filme e uma peça teatral”, exemplifica.
Celebrando os resultados do projeto que já reuniu mais de setenta nomes de destaque no cenário nacional e internacional, entre autores, especialista e artistas, e um público de cerca de 80 participantes a cada edição, a escritora destaca a força dessas reuniões informais em torno de uma obra literária. “Elas enriquecem e potencializam os efeitos da leitura sobre o indivíduo, porque oportunizam o contraditório, as opiniões diversas.”
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