Coluna Coelho Olímpico: Copa que consagrou campeã olímpica no futebol mostra padrões e expectativas diferentes para Los Angeles também entre Globo e Cazé TV – Surto Olímpico

🗓️ 2026-07-20 📁 sports 📝 ⏱️ 👁️ : -

Por Lucas Felix

A Copa do Mundo de 2026 termina com uma situação inédita para algumas gerações: o atual campeão olímpico de futebol se torna também o detentor vigente da taça Fifa. É uma dobradinha que até então era restrita apenas para Uruguai e Itália, ambas com a ajudinha de um Mundial em casa para completar a conta nos anos 1930.

Mais do que vencedora do ouro em Paris e do troféu em Nova York, a Espanha consagra uma correlação mais do que direta entre as conquistas. Se a Argentina vencedora em 2022 no Catar já havia feito história com as sobrevivências de Messi e Di María desde a festa dourada em Pequim 2008, os espanhóis Eric García, Marc Pubill, Joan García, Álex Baena e Pau Cubarsí aguardaram apenas dois anos para estar simultaneamente no topo do mundo e do Olimpo.

Outros tantos dos campeões (novamente Eric García, Unai Simón, Cucurella, Martín Zubimendi, Merino, Pedri, Dani Olmo e Oyarzabal) haviam disputado a final de Tóquio 2021 diante do Brasil, sendo ali derrotados na mesma etapa da prorrogação que ontem se transformou em alegria.

Das seleções medalhistas na Olimpíada da França, a própria então dona da casa chegou agora nas semifinais da Copa (caindo para a Espanha) e os medalhistas de bronze marroquinos foram até as quartas de final (derrotados diante da França). Ou seja, se destacaram no torneio mundial até que encontrassem outra egressa do pódio no caminho.

É um cenário que indica como o torneio olímpico de Los Angeles irá merecer atenção do mundo. E do Brasil, caso se classifique para o disputar depois da ausência parisiense. O enfrentamento com diferentes escolas é uma experiência que não é trazida pela Copa América, afinal.

Mas e a nossa atenção como público daqui a dois anos, como estará? A Copa do Mundo dá algumas respostas e outras tantas interrogações quando observamos o comportamento da mídia brasileira durante o torneio.

A Globo teve a sua Londres 2012 do futebol: não tão brutal por ter mantido parte dos direitos na TV aberta, ainda mais cruel por ter apagado também o SporTV nas limitações impostas. A falta de sabedoria na condução do contrato já é consensual até internamente na emissora, mas o que foi feito com a metade da Copa que lhe coube também rende debates.

A promessa da emissora líder de audiência foi a de “vestir o Brasil de Copa”. Não funcionou. Editorialmente falando, se tratou de uma cobertura fria e distante da Seleção. Seja de pouca euforia nos raros instantes de ilusão proporcionados, seja de pouca cobrança nos tantos de desesperança.

O excelente narrador Everaldo Marques, voz emocionada e emocionante de conquistas brasileiras históricas nos últimos anos no surfe, skate, futebol de areia e futebol de cegos, conduziu as histórias dos jogos com a qualidade de pesquisa de sempre. Mas o titular da Globo na Copa acaba incumbido de ser o maestro também do ritmo do país. E nisso ele não funcionou.

Foto: Reprodução/Lancenet

Há de se considerar que Luis Roberto, felizmente em boa recuperação e igualmente vindo de uma sequência magistral antes de se tornar número 1 do pós-Galvão, também havia falhado na missão na Copa América. E como a grade de programação além das transmissões tampouco conseguiu mobilizar o país em torno do time, a questão parece ser mais estrutural do que individual.

Muito além da mera rivalidade de torcer ou secar, a Globo fez escolhas editoriais equivocadas ao apostar que o viés estrangeiro poderia ser a observação mais interessante da Copa. Em alguns momentos, o canal pareceu uma sucursal da Telefe com tamanha empolgação diante dos recordes do argentino Lionel Messi (o mais badalado deles superado por Mbappé durante a própria Copa). Um tom constrangedor de busca por uma narrativa de protagonismo que não se confirmou ao final do Mundial.

Não se trata de questionar a genialidade do argentino, mas de considerar qual a prioridade para o interesse público nacional, dentro do raio atingido pelo sinal do canal. Termos comemorado mais o ouro de César Cielo do que os de Michael Phelps não quer dizer que ignoramos a dimensão do americano. Significa apenas que priorizamos os nossos, com o envolvimento emocional sendo muito mais relevante do que uma análise estatística.

Thiago Braz em uma noite inspirada certamente trouxe muito mais olhares brasileiros para o salto com vara do que os recordes em sequência de Armand Duplantis. Esse pertencimento tão necessário não é uma novidade ou uma exceção pedida ao futebol. Se lembrarmos da Olimpíada anterior em Los Angeles, Joaquim Cruz nos foi muito mais marcante do que Carl Lewis. Nos Jogos de Inverno deste ano, o ouro de Lucas Pinheiro nos mobilizou bem além dos seis levados por Johannes Klaebo. A situação certamente foi inversa na Noruega. Exatamente como deve funcionar.

Ao tentar vender a Copa como algo “do futebol” e não “do Brasil”, a Globo adota um padrão de nicho que seria incompatível mesmo com o SporTV. No lugar de preparar o público para se manter conectado após a eliminação canarinha, minimiza o seu teto mesmo enquanto a participação ainda ocorre.

O medo das acusações de “pachequismo” não pode imobilizar a criação de uma relação entre os brasileiros e quem os inspira. Em Los Angeles, mesmo nas competições de ambientes mais amigáveis como o skate e a ginástica, mais milhões de pessoas vão alterar as suas rotinas na espera da consagração de nossas referências do que simplesmente por um espetáculo técnico de boas notas oriundas de todo o mundo.

Essa relação não se cria do nada quando um evento começa, é claro. Depende também de um trabalho de apresentação das histórias e das façanhas, algo em que a Globo pecou até mesmo com o futebol masculino. Especialmente numa época em que tantos jogadores atuam fora do país, faz falta a série do Jornal Nacional com os perfis dos convocados. Mesmo em tempos de cortes de gastos, seria preferível colher os depoimentos remotamente do que deixar para que as figuras sejam descobertas só com a bola rolando.

Falando no JN, foi muito bom ver ele de volta ao grande palco depois da ausência no Catar e em Paris. Fica a torcida para que Renata Vasconcellos possa estar nos Estados Unidos também durante a competição olímpica, valorizando o tamanho do evento com a sua ancoragem.

Não tão bom foi ver como as pautas olímpicas simultâneas sumiram do seu espelho, algo que não ocorreu apenas por causa da Copa. Sejam as vitórias femininas ou as vergonhas masculinas na Liga das Nações de Vôlei, por exemplo, ambas passaram batidas e foram relegadas ao Globo Esporte. Já a Fórmula 1 seguiu com seu destaque de praxe.

Na inevitável comparação, a Cazé TV soube explorar melhor os eventos simultâneos que lhe couberam durante a Copa, como as etapas do circuito de tênis de mesa, do que o Grupo Globo fez com a disputa em Saquarema do Mundial de Surfe com o título de Yago Dora.

Com ambas detentoras dos dois próximos megaeventos de forma integral, a Cazé TV também se mostrou mais equilibrada na abertura de suas contagens regressivas para a Copa feminina e os Jogos Olímpicos. Enquanto a Globo parece ter optado por um foco exclusivo no Mundial feminino de futebol, fortalecendo a monocultura esportiva no país, o canal digital mostrou que é possível ter ambas as preparações simultaneamente visibilizadas desde agora.

Assim como Marta destacou no encerramento da transmissão da Globo que a ascensão das mulheres no futebol vem apenas para agregar, o que é verdade, as demais modalidades também apenas somam quando bem aproveitadas.

A presença da campeã pan-americana na cabine foi uma excelente sacada, aliás. Pena que outra mulher, a jornalista Ana Thais Matos, não esteve na posição com a bola rolando. Quando ocorreu, a presença dela nos jogos agregou não apenas pela representatividade de gênero, mas pelo viés jornalístico em relação ao da propagação de ex-atletas.

Enquanto isso, o SBT, que ainda não possui direitos relevantes nas mãos para os próximos tempos, mantinha uma representação feminina na cabine com Nadine Bastos. Ela formou excelente equipe ao lado de Alexandre Pato, Mauro Beting e do mestre Galvão Bueno, que viveu a sua melhor Copa do Mundo desde a edição em casa em 2014.

A voz do tetra, do penta e dos dois ouros olímpicos do futebol mostrou que segue imbatível – e insubstituível. Galvão torceu junto, como um veículo de massa exige. Jamais brigou com a imagem, mas muito menos resolveu comprar briga com o público, elevando a simbiose das últimas décadas em que a sua felicidade (ou a ausência dela) espelhou a do país com precisão.

Resta torcer para que tanto Galvão siga narrando quanto para que o SBT siga investindo no esporte. E nesse caso, além do futebol. Quem sabe na própria Olimpíada de Los Angeles? A Copa mostrou que há público suficiente na televisão aberta para uma divisão de direitos, com os números monumentais da Cazé TV formando uma comunidade bem própria que compete de forma mais indireta.

Entre acertos a repetir e erros a corrigir, seria excelente para o público ter as três opções da Copa do Mundo repetidas na nossa busca por medalhas. Duas delas já estão garantidas, felizmente.