Mooca tem morador fiel e quase 5.000 lançamentos em um ano - 28/08/2026 - Economia - Folha

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Um distrito que tem hino, bandeira, brasão e clube de futebol centenário —que agora é SAF. E cujo morador faz jus a um gentílico, algo que não é prerrogativa de habitante de quase nenhum outro lugar da cidade —ou você por acaso sabe como chamam as pessoas que moram nas Perdizes, em Itaberaba, no Campo Belo ou na Vila Mariana?

Mas com a Mooca e com o mooquense a parada é outra. O morador da Mooca é o paulistano ao quadrado, o paulistano-paulistano, o paulistano da anedota, para o bem ou para o mal. Quando algum humorista carioca, Gregório Duvivier, por exemplo, tenta imitar um dos nossos, mesmo que seja um yuppie da Faria Lima, é no falar italianado do mooquense que ele pensa.

A Mooca talvez seja um estado de espírito, algo na linha "palavra abissal" com que Drummond identificou Minas Gerais. Pensa: esse lugar que "(...) Desde o parque Dom Pedro/ Tudo em ti é sucesso", como diz o hino do distrito, às vezes é tratado como "país" por seu morador.

Mas a vertigem imobiliária de toda a cidade também está lá, e nisso a Mooca pouco difere de outras regiões. Diversas incorporadoras, muitas delas insufladas pelos incentivos monetários fáceis da habitação social, mudam a cara de quarteirões inteiros.

Houve 4.653 lançamentos de apartamentos entre junho de 2025 e maio deste ano, segundo o Secovi, quase o triplo dos 12 meses anteriores. Imóveis de até R$ 400 mil compõem 69,4% disso.

Mas o espaço do alto padrão, produtos de valor de R$ 1 milhão a R$ 2,25 milhões, também cresceu, compondo 7,9% de todos os lançamentos, 50% de aumento de participação em relação aos 12 meses anteriores; na faixa superior a R$ 2,25 milhões, que não existia, foram 176 unidades lançadas, 3,8% do estoque.

No mercado secundário, o índice FipeZAP mostra valorização do metro quadrado da Mooca em 37% em cinco anos (preço médio de julho de 2021 a julho passado), valor significativamente maior do que o da média da cidade para o mesmo período —26%. O cálculo é feito a partir dos anúncios publicados nos portais imobiliários do grupo OLX, detentor do índice.

Já a startup imobiliária Loft, com base nos pagamentos do Imposto sobre Transmissão de Bens Imóveis (ITBI) à Prefeitura de São Paulo, aponta valorização de 5,1% do tíquete médio do distrito (de janeiro a junho de 2026 em relação ao mesmo período de 2025), abaixo da valorização média da capital, 6,1%. Trata-se, na exegese de Fábio Takahashi, gerente de dados da empresa, de um "mercado que amadureceu e que agora testa a sustentação de seus preços".

Nascida e criada na zona leste, e com enorme portfólio de imóveis na região, a Diálogo Engenharia joga em casa na Mooca. Para o gerente comercial Wagner de Souza, o distrito é uma espécie de "Moema de tempos atrás", como disse à Folha, um lugar com muitos serviços e facilidades, mas de público razoavelmente conservador, que faz questão de ficar na região, mexendo-se pouco, se possível não se mexendo absolutamente.

Um dos grandes projetos da empresa no pedaço é o GrandDiálogo Parque da Mooca, nos limites da Vila Prudente, pertinho da sede do Juventus, com estúdios, unidades de até 2 dormitórios —de metro quadrado cotado por cerca de R$ 9.500— e outro bloco, o "Residences", com apartamentos de até 4 quartos.

A MagikLZ tem na região o Palazzo Mooca, com 152 apartamentos, lançamento que sucede o já decano e pantagruélico Luzes da Mooca, de quase 1.000 unidades distribuídas por cinco condomínios. Com tipologias de 75 m², 84 m² e 134 m², o Palazzo mira um público mais aquinhoado, disposto a pagar mais de R$ 14 mil pelo metro quadrado.

Para Ricardo Zylberman, sócio da Magik LZ, a Mooca tem "identidade própria", e seus moradores, "relação de pertencimento com o lugar", visível "na permanência de duas ou três gerações de uma mesma família na região."

Como é de conhecimento geral, o passado da Mooca tem sua história totalmente imbricada com a imigração, especialmente italiana, e com o desenvolvimento e a expansão fabril de São Paulo, que na região deixou grandes marcas, como as fábricas da Antarctica e do Moinho Santista.

É no distrito que fica o Museu da Imigração, sediado na antiga Hospedaria dos Imigrantes do Brás, que serviu como moradia e local de acolhida e encaminhamento para postos de trabalho dos recém-chegados a São Paulo.

A hospedaria funcionou de 1887 a 1978 e nesse tempo recebeu 3,5 milhões de estrangeiros e migrantes de outros estados do Brasil. Alguns edifícios preservam as funcionalidades originais, como o apeadeiro do trem. Há hoje uma maria-fumaça que faz passeios curtos aos fins de semana.

Não é difícil intuir que um distrito com tanto "recall", tão presente no imaginário coletivo como a Mooca, acabaria por sofrer certa hipsterização, com a descoberta de suas atrações por moradores de regiões distantes.

Comer cannoli no estádio do Juventus, durante um jogo de sábado à tarde por uma liga menor, virou modinha até outro dia, bem dizer até o fechamento da Javari para reforma, iniciada sem autorização da prefeitur a em julho. O Juventus volta em janeiro à primeira divisão do Campeonato Paulista, e, para jogá-la, precisa agora providenciar uma outrora impensável iluminação noturna.

Pode ser que isso tire um pouco da aura do lugar, mas não deve interferir no gosto do cannoli.