Grupo leva pessoas cegas para pedalar por São Paulo - 14/08/2026 - Cotidiano - Folha
Todas as quartas e quintas-feiras, por volta das 19h30, um grupo de ciclistas deixa a estação Marechal Deodoro, na região central, e pedala pelas ruas de São Paulo. Um dia sobe a avenida Angélica e desce a Rebouças; no outro, cruza a avenida Paulista até o parque do Ibirapuera. Parece um grupo de pedal como qualquer outro. A diferença é que metade dos ciclistas não enxerga.
É essa a proposta do Blind Sports, projeto criado em 2020 que reúne pessoas cegas e com baixa visão e voluntários para pedalar pela cidade.
"Nosso objetivo é fazer o que qualquer grupo de ciclismo faz em São Paulo: a pessoa cega vai subir a Consolação, vai fazer força para subir a Brigadeiro", diz a fundadora do projeto, Bia Santana, 41, que perdeu a visão aos 27 anos por complicações do diabetes.
"Vivemos em uma sociedade em que a pessoa com deficiência não pode realizar nada. As pessoas acham que o cego tem que ficar sentado. 'Ah, um skate? Você vai cair.' Eu vou cair e você também vai. Isso faz parte do esporte e do equilíbrio, não da cegueira."
Além dos passeios noturnos, o grupo organiza cicloviagens de fim de semana para cidades como Aparecida, Mogi das Cruzes, Paranapiacaba, Salesópolis e Santos. Eventualmente, também oferece oficinas de skate e patins para pessoas com deficiência visual.
O projeto nasceu na pandemia. Patinadora de velocidade, Bia precisou interromper os treinos com o fechamento dos parques.
"Eu também passei por um transplante na época, então o esporte que eu conseguia fazer era a bicicleta: a tandem", diz em referência ao modelo projetado para dois ciclistas.
Ela comprou uma e passou a pedalar com a fisioterapeuta Renata Melo, 48, sua guia na patinação desde 2017. A bicicleta era antiga e montada em casa, o que rendeu o apelido Frankenstein.
"A frente lembrava uma speed [modelo rápido para asfalto], atrás era um quadro com absorção de impacto, que rangia o tempo todo. Era pesadíssima, um esforço enorme em qualquer ladeira", conta Renata.
Foi dessas pedaladas complicadas que nasceu o grupo. No começo, havia uma tandem, com dois lugares, para três ciclistas com deficiência visual.
"A cada semana andava um cego, então, era preciso esperar quase um mês para andar de novo", lembra Bia.
Aos poucos, o projeto recebeu doações, comprou novas bicicletas e cresceu. Hoje conta com dez tandems e reúne cerca de 30 pessoas por semana, entre pessoas cegas, guias e equipe de apoio.
Uma bicicleta, duas pessoas
As tandems do projeto têm cerca de 2,60 metros —quase um metro a mais que um modelo comum— e pesam por volta de 25 kg. Têm dois bancos, dois guidões e dois pares de pedais conectados, que movem a bicicleta pela força combinada dos ciclistas. Elas exigem curvas mais abertas e comunicação constante entre quem conduz e quem vai atrás.
Por isso, voluntários e novos ciclistas passam por um treinamento no Minhocão. "Os guias aprendem a falar com a pessoa cega, a orientá-la, a se aproximar da bicicleta", detalha Renata.
Os comandos e a saída são os pontos mais importantes. "O pedal do guia e o do cego estão sincronizados —se um mexe, o outro mexe também. Dá-se o comando 'três, dois, um, vai' e os dois começam a pedalar juntos."
Os guias também descrevem o caminho o tempo todo. "Descendo a Rebouças, por exemplo, tem uma árvore baixa. Quem enxerga abaixa a cabeça automaticamente. O ciclista cego precisa ouvir o comando 'cabeça'", diz Bia.
Parte do treinamento dos voluntários acontece de olhos vendados, para entenderem a experiência de quem pedala atrás.
"Depois desse exercício, um dos guias falou: 'Nossa, ou você confia ou você confia'", diz Bia. Para formar as duplas, o projeto considera altura, peso, ritmo de pedal e afinidade.
No banco de trás
Todo esse treinamento busca fazer o ciclista confiar em quem está à frente. Para a engenheira de software Geisa Farini, 38, essa é uma etapa delicada.
"É diferente porque você está no controle do pedal, mas não da direção. O primeiro medo é entregar o seu controle na mão de outra pessoa, mas depois você começa a relaxar."
Para ela, no projeto desde o início do ano, os benefícios vão além da atividade física. "A gente aprende melhor a se guiar pelo som e desenvolve consciência corporal e noção do espaço", diz, o que amplia a autonomia e muda a forma como pessoas cegas ocupam a cidade. "Você aprende a se virar com o seu próprio corpo, do jeito que ele é."
Já para José Dilson Pereira dos Santos, 49, aposentado, o Blind Sports representou a volta às cicloviagens. Cego desde um acidente de trabalho aos 29 anos, já pedalou até Aparecida, na Volta da Fé, e por Santa Catarina. Mas a mais marcante continua sendo a primeira.
"Eu pedalei até Aparecida várias vezes enquanto ainda enxergava. Mas a primeira vez que cheguei pedalando, depois de perder a visão, foi diferente. Só quem passa por isso sabe."
No grupo há quase dois anos, afirma que pedalar é sua maior alegria hoje. "Ganhei autoestima e mais autonomia."
Na direção
O Blind Sports é mantido por doações de pessoas físicas e apoios pontuais de instituições para manutenção das bicicletas. O maior desafio não é encontrar pessoas com deficiência visual interessadas, mas guias. A rotatividade é grande.
Foi enquanto se recuperava de uma dependência química que o coordenador de qualidade Antonio Gabriel Evangelista, 33, conheceu o Blind Sports. Guia voluntário há nove meses, diz ter encontrado no grupo novas relações sociais.
"Estar com uma pessoa sendo literalmente os olhos dela é muito bacana. Às vezes, você guia uma pessoa mais simples; às vezes, alguém com cargo de liderança numa empresa, um atleta ou alguém que pedala por hobby."
A experiência, para ele, foi transformadora. "Fazer parte desse grupo foi um dos pilares da minha recuperação."
Interessados em atuar como guias podem se inscrever pelo site do Blind Sports. Pessoas cegas também podem se cadastrar, mas há fila de espera para participar das pedaladas.