Com chuva a vindima também se faz e inclui lanche, vinho e convívio
Cheira a hortelã a vindima que se faz no centro da vila, no jardim de "quatro a cinco mil metros" de Manuel Alves, professor reformado de 78 anos, um dos 200 viticultores a produzir uva para o vinho Soalheiro, entre abóboras e girassóis: "Sem a vinha, criavam-se silvas, era preciso pagar para as tirar. Assim fico com vinho em casa e pelo menos um baguinho dos meus vai estar por aí", nas garrafas da marca que exporta 40% da produção para 55 países e tem uma faturação anual de 7,5 milhões de euros.
A mulher, Elsa Alves, também ex-docente, só aparece vinda da cozinha pelas 11:00, após três horas de queijos, rissóis, chamuças, folhados doces e salgados, bifanas e bifes de frango, "tudo feito em casa" para servir quem trabalhou, a acompanhar com o vinho da colheita do ano anterior, "too much (demasiado)" para o casal belga que pagou para viver a experiência e se surpreende com a abundância.
"Como estamos a falar de minifúndio, a vindima faz-se muito com a família e os amigos. Portanto, é uma forma de agradecimento à mesa. A pausa é sempre com produtos locais, um bom presunto, bolinhos de bacalhau, tudo o que estamos habituados a comer. A vindima é um esforço, mas também uma celebração", descreve Maria João Cerdeira, coproprietária da Quinta de Soalheiro, situada no distrito de Viana do Castelo, depois de distribuir generosos pedaços de pão com presunto.
O quilo da uva Alvarinho "chega a ser pago a 1,30 euros", pelo que é "rentável cultivar vinha num jardim", ou na "manta de retalhos" que são as 700 parcelas de diferentes dimensões e localizações dos produtores do Soalheiro, num total de 100 hectares.
Mais de 50 anos depois de o pai de Maria João ter plantado a primeira vinha contínua de Alvarinho, são produzidos "10 mil quilos de uva" por cada hectare, com a marca a dar "suporte técnico" e a partilhar algumas máquinas com os viticultores.
"É para todos trabalharmos para o mesmo. Assim conseguimos que as pessoas não vão para o litoral, que seja rentável ficar cá. Conseguimos manter os nossos costumes e as nossas tradições e que a geração vindoura tenha orgulho da viticultura", sustenta.
Chove copiosamente ao fim desta manhã de outono em agosto na vindima "mais precoce de sempre" – começou no dia 11 -, porque "a uva é para retirar quando está pronta" e os "controlos de maturação arrancam em julho", observa a coproprietária, juntamente com a mãe.
"Vindimar com calor é difícil. Vindimar com chuva é o pior. Mas com chuva a vindima também se faz", garante.
A dificuldade é que a água entra pelos braços levantados para cortar os cachos e desliza pelo tronco até às pernas, exemplifica Maria João, gesticulando, à chuva, com uma capa enfiada à pressa por cima da t-shirt já noutra parcela de vinha, esta longe do centro, com um total de oito hectares, "algo raro" na região.
Patrícia Ferreira, de 38 anos, está protegida com um fato de borracha amarelo de carapuço. O trabalho arrancou às 07h00 e prolonga-se "até às três da tarde", com ou sem água a cair do céu.
"Que remédio, tenho dois filhos para acabar de criar", justifica.
Desde os 12 ou 13 anos que vindima. "Fazia-me falta o dinheiro. Fui criada com a minha avó, que não me podia dar para as minhas coisas, e tive que trabalhar", acrescenta.
Não é difícil, segundo explica: "Pega numa tesourinha numa mão e, na outra mão, o cacho. É cortar e botar para a giga [cesto para apanhar e transportar as uvas]. Depois vem o trator recolher e vai no camião do sr. Nuno para a adega".
Diz que não é um trabalho duro, antes "um desporto" que se "faz bem".
Alice Afonso, de 60 anos, torce o nariz, considera que "é um bocado duro" e diz que "fica a doer um bocadinho os braços e a cervical, de estar a olhar para cima".
Mas adora: "Quando uma pessoa está mais deprimida isto alivia muito o stress. A gente anda por aqui, o ar é puro. E na vindima é o convívio, a gente conhece pessoas, faz amizades. É muito bom", resume.
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