Como as palavras de Jorge Palma se tornaram sabedoria popular

🗓️ 2026-09-26 📁 world-news 📝 ⏱️ 👁️ : -

Não me lembro de quando é que o ouvi pela primeira vez. Deve ter sido na infância, talvez tenha sido pela Estrela do Mar. Jorge Palma parece ter estado sempre lá, cá: não para mim, mas para gerações inteiras. E as canções acompanham sonhos, desgostos, manifestações e esperanças. De tanto se repetir, a voz de Jorge Palma pareceu trazer ao mundo uma verdade geral, mesmo quando dizia coisas como “Somos meros transeuntes no passeio dos prodígios”. Nem sequer entendo bem o significado, o que não me impede de achar que a frase é mágica, ou que cumpre um desígnio, ou que revela uma verdade que eu ainda não atingi. Talvez lá chegue um dia, mas se não chegar não faz mal. Corrigindo o enfraquecimento das pernas, Palma pôs o ónus na estrada, no percurso: enquanto houver à frente, continua-se.

Há muita vida autónoma nas canções de Palma. Há frases – ou versos – que sabem a sentença, ou a coisas que alguém já devia ter dito antes, mas nunca ninguém disse. Repare-se naquele “Quanto tempo mais vou ter de te ouvir queixar?” Passei anos a ouvir Minha Senhora da Solidão, anos em que vivi com dois amigos que já não dissocio da canção. Nem eles: de tanto a ouvirmos de forma repetida, a canção passou a retratar aqueles tempos. E, sendo a música permanente, e até de fundo, na casa em que vivíamos, e vinda numa voz cantada que até parecia falada, trazendo um tom coloquial, directo, a fingir desleixo, fazia-nos parte das conversas, ao raptar para a letra frases que pareciam ter sido apanhadas a meio do que íamos dizendo, por vezes no olho do furacão da tensão ou do simples dia-a-dia.

Em Jorge Palma, tudo parece fácil – até espontâneo, que é das coisas mais difíceis, e mais funcionais, de fabricar na arte, na escrita. Para que uma frase pareça inevitável, limpa, sem gorduras, é preciso que tenha sido depurada, com certas ordem e ritmo. Ainda por cima, parece que são frases que tropeçam de forma quase casual na existência, e é por isso que ganham depois vida fora das canções.

Jorge Palma: a vida inteira nas canções de um clássico desobediente

Não há refrões para trautear. Ouve-se uma letra como quem arranca o sentido à vida, ou a vê por lentes que ainda não tinham sido postas. E muitas vezes parece que se chega à conclusão de que não há conclusão alguma: “Para quê fazer projectos, quando sai tudo ao contrário?” Há ali qualquer coisa de definitivo, ainda que se rejeite o dogma – a própria certeza parece sempre provisória. É isto que faz com que Palma pareça condensar uma espécie de sabedoria popular contemporânea, ligeiramente tocada, consciente de que a vida demasiadas vezes dá para o torto, e que é ouvida e repetida porque atira aos ouvintes a banalidade da existência, numa redoma bela, inesquecível. E nisto há uma aparente simplicidade que chega a chocar pelo alcance.

Quando se ouve “Vamos lá contar as armas, tu e eu de braço de dado”, imaginam-se logo aqueles dois com tanto de passado e um futuro condenado, e uma discussão a nascer devagarinho, como um ressentimento que entra nas primeiras chamas, e esquece na ideia de ferida qualquer chance de futuro. A frase parece simples, e lá dentro não inclui uma mera descrição, uma mera experiência de uns minutos: só ali, vêem-se os cacos do porvir, e os cacos de quem vê o fundo da garrafa como quem pousa a cabeça mas sem conseguir pousá-la. De resto, ainda em relação à popularização da sabedoria, é impossível não se reparar na forma como qualquer português diz que “enquanto houver estrada para andar, a gente não vai parar”, sem sequer citar o dono: a frase, de tão repetida, passou a ser usada por todos.

E é também nisto que Palma foi absorvido no imaginário colectivo. Não são apenas acordes conhecidos, ou batidas. Há um misto que parece ir aos cantos todos: a voz funda e rouca, imensa, que invade; as frases que ficam às voltas na cabeça; as personagens, como Jeremias, o fora-da-lei. E Palma tem ainda uma tendência de falar de sentimentos da forma menos sentimental que já se viu: eis o amor misturado com orgulho, falhanço, ressentimento, dependência, medo. A beleza da arte de Palma não se faz por se fingir que a vida é bonita em tudo, que a Disney vai acontecer em cada casa, que a cada manhã há um novo sol que brilha.

Jorge Palma: a morte é um lado B

Ora, o que interessa mais nesta espécie de universalização é que a autoria quase parece ficar de lado. Não é que não exista – era o que mais faltava –, mas a repetição parece anular a propriedade, e o que ali está deixa de parecer uma letra de canção: passa a parecer um reflexo de quem somos enquanto espécie. Para isso, muito contribui a técnica: parece que a sua mão não procurava a frase literária, a voltinha semântica, ou sintáctica, que sinalizava logo que estava ali alguém a querer fazer uma coisa grandiosa, e por isso resultava tão bem. Nas frases, nas canções, não se vêem as costuras. Parece tudo fácil, que é coisa difícil de fazer.

Os versos incluem frases directas, a língua quotidiana, o que se pode soprar numa mesa de café, numa conversa entre este e aquele, numa discussão que prevê o fim, numa discussão que tenta adiar o fim, num amor que é posto em pausa, no que nos chega à cabeça depois de uma noite muita longa. E, assim que arranjadas, depuradas, atingem uma forma que parece inevitável – parece que já se sabia aquilo tudo. O próprio Palma, numa entrevista, dizia que fazer letras tão directas podia parecer fácil – e parece-o, a quem não entende bem de que massa se faz a arte –, mas que o movimento consistia em constatar qualquer coisa e arranjar uma fórmula mais eficaz, que é a simplicidade. Ora, na simplicidade, ninguém diz “ósculo” ou “obséquio”; a simplicidade não sabe a oco ou a vaidade; a simplicidade esconde o trabalho e as gorduras, dando-nos apenas a beleza.

Em frases que são ordens e pedidos, como “Dá-me lume” ou “Encosta-te a mim”, temos uma descrição do quotidiano que parece abdicar de uma grande arquitectura formal ou afectiva, mas depois vem o que a vida traz: a banalidade carrega desejo, aproximação, noite, acaso, vontade, calma. Jorge Palma pegava numa aparente minudência e, não lhe retirando essa aparência, mostrava-lhe o substrato. Jorge Palma deu-nos lume, deu-nos música e, em suma, deu-nos uma beleza que parecia sempre muito inteira.