Como Christopher Nolan reinventa o Cavalo de Troia em "A Odisseia" com a sequência mais intensa de sempre

🗓️ 2026-07-25 📁 world-news 📝 ⏱️ 👁️ : -

A cena do Cavalo de Troia em "A Odisseia" está a surpreender fãs e especialistas. Eis porquê

Quando a estreia de "A Odisseia", de Christopher Nolan, decorreu em Nova Iorque, a 14 de julho, uma estátua de um cavalo com quase 12 metros de altura dominava a passadeira vermelha em Manhattan. Outros cavalos gigantes têm percorrido os Estados Unidos e o Reino Unido para promover o filme, que também utiliza a imagem do icónico Cavalo de Troia em alguns dos seus cartazes. Embora o poema épico original da Grécia Antiga não descreva em grande detalhe os acontecimentos ligados ao famoso estratagema mitológico, o Cavalo de Troia continua a ser um símbolo central da nova adaptação de Nolan — e quem já viu o filme percebe rapidamente porquê.

Numa sequência visceral e eletrizante, Nolan leva os espectadores para o interior do Cavalo de Troia durante uma longa cena marcada pelo realismo, revelando as condições claustrofóbicas e aterradoras vividas pelos soldados gregos escondidos no seu interior e sublinhando a sua fome quase animalesca de vencer a batalha.

A sequência, que dura vários minutos, não tem paralelo nas anteriores representações deste episódio da mitologia na cultura popular. Max Nelson, professor associado de Estudos Gregos e Romanos na Universidade de Windsor, no Canadá, que leciona disciplinas sobre representações da Antiguidade no cinema, afirma que não se lembra de outra obra que tenha colocado o público dentro do cavalo de forma tão sombria. "As duríssimas condições enfrentadas pelos gregos enquanto esperavam durante dias dentro do Cavalo de Troia nunca tinham sido mostradas no ecrã desta forma", diz Nelson.

O que torna a abordagem de Nolan particularmente inovadora é a mudança de perspetiva. "Normalmente, este episódio é apresentado do ponto de vista dos troianos, que têm de decidir o que fazer com o cavalo", explica Nelson.

A cena, evidentemente, já estava na cabeça de Nolan há algum tempo. O realizador britânico chegou a estar ligado à realização de "Troia" (2004), protagonizado por Brad Pitt, antes de o projeto passar para Wolfgang Petersen. "Está na minha cabeça há muito tempo. Havia certas imagens, sobretudo a forma como queria tratar o Cavalo de Troia", diz Nolan à revista Empire no ano passado. Este mês, numa entrevista ao Independent, revela que passou muito tempo a pensar em como representar o Cavalo de Troia de forma credível. "Tenho a imagem daquele cavalo a afundar-se na areia há 20 anos", afirma.

Christopher Nolan chegou a estar associado à realização de "Troia" (2004), mas o filme acabou por ser dirigido por Wolfgang Petersen. Mais tarde, revelou que pensava na sua própria versão da sequência do Cavalo de Troia há duas décadas. (Warner Bros/Kobal/Shutterstock)
Christopher Nolan chegou a estar associado à realização de "Troia" (2004), mas o filme acabou por ser dirigido por Wolfgang Petersen. Mais tarde, revelou que pensava na sua própria versão da sequência do Cavalo de Troia há duas décadas. (Warner Bros/Kobal/Shutterstock)

O filme protagonizado por Matt Damon abre precisamente com uma curta cena em que os troianos descobrem a enorme estátua, aparentemente abandonada pelas ondas junto à praia, exatamente como Nolan a imaginava. O realizador explicou a Jon Stewart, no programa "The Daily Show", que acreditava ser necessário mostrar o cavalo abandonado junto ao mar para tornar credível que os troianos não suspeitassem de um estratagema. O único grego que permanece no local, Sinon (Elliot Page), explica aos soldados troianos que o cavalo é uma oferta de despedida aos deuses, deixada pelo exército grego, que aparentemente desistiu do longo cerco à cidade.

Quando tudo leva a crer que a narrativa irá acompanhar o percurso do presente armadilhado até ao interior de Troia, Nolan corta inesperadamente para outra parte da história. O cavalo só volta a surgir cerca de 45 minutos depois, quando Menelau (Jon Bernthal) conta a Telémaco (Tom Holland) como foi esconder-se no seu interior juntamente com o pai deste, Ulisses (Matt Damon), e outros soldados.

O relato que surge então no ecrã é profundamente perturbador. Vários homens morrem afogados dentro do cavalo durante as duas primeiras marés, enquanto outros tentam respirar através de palhinhas à medida que a água sobe. Menelau descreve ainda como os soldados, empilhados uns sobre os outros num espaço sufocante e escaldante, eram obrigados a urinar e defecar uns sobre os outros.

Quando os troianos acabam por descobrir o esconderijo, os gregos têm de permanecer absolutamente imóveis enquanto ouvem Sinon ser morto. Logo depois, um soldado testa a estrutura do cavalo golpeando-a repetidamente com uma espada, chegando a atingir um dos homens escondidos. Mais tarde, os troianos arrastam a gigantesca estrutura com cordas e colocam-na de pé junto de um templo sagrado, abanando violentamente todos os que se encontram lá dentro.

Ao som de uma banda sonora marcada por batidas de tambor que aceleram progressivamente, os gregos saem finalmente durante a noite por uma corda, matam os poucos guardas troianos que vigiam os portões e tentam abrir as enormes portas da cidade enquanto cada vez mais inimigos convergem para o local.

Num filme repleto de momentos silenciosos e contemplativos, esta acaba por ser uma das sequências mais caóticas, emocionantes e memoráveis.

Versões anteriores mostravam um Cavalo de Troia muito diferente

Na literatura, os acontecimentos relacionados com o Cavalo de Troia são descritos de forma mais detalhada na "Eneida", de Virgílio.

Nas adaptações para cinema, como "Helena de Troia" (1956) e "A Guerra de Troia" (1961), o cavalo surge normalmente já na posição vertical e equipado com rodas. Nenhum destes filmes mostra o interior da estrutura, e os combates que se seguem parecem hoje bastante inocentes. "Como era habitual na época, os combates são representados de forma muito teatral, sem sangue nem violência explícita", observa Nelson.

As minisséries "A Odisseia" (1997) e "Helena de Troia" (2003) incluem breves imagens dos soldados escondidos no interior do cavalo, também montado sobre rodas, mas sem transmitir qualquer sofrimento significativo. Pelo contrário, o espaço parece até relativamente amplo e confortável.

"A Guerra de Troia" (1961) mostrou o cavalo sobre rodas e nunca revelou o seu interior aos espectadores. (Europa Cinematografica/Kobal/Shutterstock)
"A Guerra de Troia" (1961) mostrou o cavalo sobre rodas e nunca revelou o seu interior aos espectadores. (Europa Cinematografica/Kobal/Shutterstock)

Kim Shelton, professora de Estudos Gregos e Romanos na Universidade da Califórnia, em Berkeley, recorda que existem inúmeras representações do mito do Cavalo de Troia, desde pinturas murais romanas do século VII a.C. até manuscritos medievais. "Como se trata de um objeto pertencente ao mito e à imaginação, nunca existiu uma versão definitiva", observa Shelton. (No entanto, a professora assinala que o Cavalo de Troia tem sido frequentemente representado sobre rodas desde a Antiguidade.)

Ainda assim, considera que a versão apresentada em "Troia" (2004) continua a ser a mais convincente em termos de construção, graças ao seu aspeto rudimentar de madeira envelhecida e cordas, semelhante a algo construído a partir de navios abandonados — o único material que estaria disponível na época. Nesse filme, o cavalo é transportado para Troia sobre troncos rolantes, em vez de rodas fixas. Apesar de não mostrar o interior da estrutura — e de incluir Aquiles (Brad Pitt) entre os soldados escondidos, apesar de a personagem morrer antes desse episódio no poema original — Shelton considera que os planos dos olhos dos guerreiros espreitando pelas frestas transmitem "a sensação de perigo de estar empilhado lá dentro e tentar não ser descoberto".

A sequência do Cavalo de Troia em "Helena de Troia" (1956) era seguida por cenas de combate que hoje parecem bastante datadas. (Warner Bros/Kobal/Shutterstock)
A sequência do Cavalo de Troia em "Helena de Troia" (1956) era seguida por cenas de combate que hoje parecem bastante datadas. (Warner Bros/Kobal/Shutterstock)

Comparado com a versão de 2004, o Cavalo de Troia de Nolan apresenta um design muito mais elegante e refinado. Mas isso não significa que tenha sido menos claustrofóbico para quem esteve no seu interior — incluindo atores e equipa técnica.

Matt Damon contou ao GamesRadar+ que perguntou a Nolan, na véspera das filmagens, como pretendia rodar a sequência. "Foi uma verdadeira lição", recorda. "Ele respondeu: 'Vamos simplesmente enfiar-nos lá dentro e perceber como resulta.'"

O ator explica que entrou na estrutura juntamente com os restantes intérpretes, Nolan e o diretor de fotografia Hoyte van Hoytema. "Aquela sensação de claustrofobia foi surgindo de forma completamente natural. Se tivéssemos planeado tudo ao detalhe, acho que nunca teria a mesma energia."

John Leguizamo, que interpreta o fiel e cego Eumeu, contou ao Hollywood Reporter que ficou surpreendido ao descobrir que Nolan e Van Hoytema entraram no interior do cavalo com cerca de 20 atores e uma câmara IMAX. "Não conseguia acreditar. Pensei: 'Este homem é um verdadeiro líder'. Nunca nos pede para fazer algo que ele próprio não esteja disposto a fazer."