Conflitos globais viram dor de cabeça pra Trump às vésperas de eleição | G1
No entanto, assuntos de alcance mundial raramente oferecem respostas fáceis. Neste momento, os acontecimentos fora dos EUA ameaçam minar os esforços de Trump para reduzir os preços domésticos dos combustíveis antes que ele consiga aproveitar qualquer benefício nas urnas.
Os altos preços de energia — especialmente para os estados agrícolas do centro do país que dependem do diesel para máquinas agrícolas e para o transporte — têm sido uma crescente fonte de frustração para os eleitores americanos.
Eles irão às urnas em 3 de novembro para escolher todos os 435 deputados da Câmara dos Representantes e 35 dos 100 assentos do Senado. Os deputados tem mandatos de dois anos, os senadores de seis.
As pesquisas indicam que os eleitores consideram a guerra contra o Irã a principal causa de seus problemas. O apoio geral a Trump e a aprovação de sua gestão da guerra e da economia americana caíram drasticamente.
Em publicação na rede Truth Social, Trump anunciou seu acordo com a Rússia como algo que traria "preços mais baixos para os americanos", enquanto ordenava ao Departamento do Tesouro que suspendesse as restrições americanas que impediam a venda de diesel russo nos mercados globais.
A verdade, porém, era mais complicada.

Rússia ataca instalações de energia da Ucrânia apesar de trégua anunciada por Trump
"É evidente que Putin não lê o Truth Social", observou Zelensky ironicamente na segunda-feira. Ele acrescentou: "Neste inverno, se a Rússia não concordar com um cessar-fogo energético, nós responderemos."
Trump e Zelensky tiveram uma relação tumultuada ao longo de seu segundo mandato. O presidente americano alterna entre culpar a Rússia e a Ucrânia pelo conflito contínuo, que ele anteriormente disse que seria fácil de resolver assim que retornasse à Casa Branca.
"Acho que o presidente (dos EUA) tem um histórico público de uma década de ataques pessoais contra aqueles que não fazem o que ele quer, quando e como ele quer", disse Terry Haines, fundador do think tank independente Pangaea Policy, à BBC.
Agora parece que a celebração da "trégua energética" por Trump é só mais um de seus atos típicos: alardear um acordo antes mesmo de ele ter sido firmado e implementado. No passado, por exemplo, ele já anunciou prematuramente cessar-fogos no Oriente Médio e amplos acordos de paz.
Seja por impaciência do presidente com a lentidão da diplomacia ou por uma tática de negociação astuta para levar um acordo à conclusão, o resultado é uma corrida contra o tempo, enquanto o mundo tenta entender o que isso significa e como reagir.
Essas reações não demoraram a aparecer.
O primeiro-ministro canadense, Mark Carney, que se tornou um crítico ferrenho do presidente no cenário internacional, ofereceu "forte apoio" ao cessar-fogo energético, mas condenou o acordo sobre o diesel por minar a paz e a estabilidade na Europa e por ajudar a Rússia a financiar sua "guerra ilegal e injustificável contra a Ucrânia".
Nos EUA, o anúncio de Trump sobre o diesel gerou preocupação semelhante, inclusive entre membros de seu próprio partido. Quatro senadores republicanos se uniram aos democratas em uma carta pedindo ao presidente que "revertesse imediatamente sua decisão".
"O Congresso proibiu explicitamente as importações de energia russa em 2022 para impedir que dólares americanos financiem a guerra brutal de Putin contra a Ucrânia", escreveram os senadores em um comunicado divulgado no domingo.
"A decisão do presidente Trump de permitir a importação de diesel russo para os EUA contraria diretamente essa lei."
Pouco efeito

Trump suspende sanções à Rússia e anuncia acordo para compra de diesel
O que poderia ser pior para o presidente do que as críticas é que o cessar-fogo anunciado teve pouco efeito sobre o preço do diesel, que continua abaixo de seus recordes, mas ainda bem acima de US$ 6 por galão.
Entretanto, à medida que os últimos desdobramentos do conflito entre Rússia e Ucrânia se intensificam, a nova onda de violência no Oriente Médio ameaça pressionar ainda mais os mercados globais de energia, independentemente do que aconteça com o petróleo russo.
"Os houthis estão enviando uma mensagem de que não se trata apenas de alvos militares, não se trata apenas de infraestrutura energética. Eles também vão atacar aeroportos civis, o que pode matar muita gente", disse Michael Ratney, ex-embaixador dos EUA na Arábia Saudita, à BBC.
A guerra entre os EUA e o Irã é um conflito que nenhuma das nações árabes da região desejava, afirmou ele, e a mais recente ofensiva dos houthis era previsível. Com os EUA e o Irã atualmente em um impasse prolongado, quaisquer novas hostilidades poderiam levar a mais conflitos regionais e fazer com que os preços do petróleo disparassem novamente.
"Acho que a situação vai piorar antes de realmente se acalmar", disse ele.
Isso pode, no entanto, ser apenas uma ilusão — uma tentativa de convencer o público americano a direcionar sua raiva relacionada à energia para um conflito que começou sob a gestão de um presidente diferente.
No entanto, só há um presidente por vez. E quando os eleitores americanos votam, tendem a responsabilizar aqueles que estão no poder.
Após um fim de semana difícil que comprovou mais uma vez que não existem soluções fáceis para a crise energética global, essa pode ser a pior notícia de todas para o presidente dos EUA.