Como o maior país do Médio Oriente virou um ponto de pressão para resolver duas guerras de uma só vez
Situação está a subir de tom e há um ator a ganhar relevância na região
Sim, há uma guerra civil que dura há anos no Iémen, mas o reaparecimento fortalecido dos rebeldes Houthis está relacionado com muito mais do que se passa no país que fica no extremo sul da Península Arábica.
Os ataques dos rebeldes à Arábia Saudita, onde infraestruturas petrolíferas e locais de eventos económicos têm sido alvos preferenciais, têm como ponto principal exercer pressão por um dos homens-fortes do Médio Oriente, o príncipe Mohammed bin Salman, aliado próximo dos Estados Unidos.
De acordo com a agência Reuters, que cita fontes sauditas, iranianas e de outros locais na região, o objetivo dos Houthis tem dois pontos distintos: conseguir alcançar as exigências do grupo e levar Donald Trump a aligeirar o estrangulamento económico que está a ser aplicado ao Irão.
É que os Houthis, tal como o Hezbollah ou o Hamas, têm a sua capacidade militar quase totalmente dependente do Irão, pelo que os interesses de Teerão serão sempre comuns aos dos rebeldes.
Por isso mesmo, e de acordo com as mesmas fontes, o que está em curso é uma campanha que reflete um plano calculado em conjunto por Irão e Houthis, e no qual a Arábia Saudita é o alvo principal. O ataque à prosperidade, às ambições financeiras e à exposição do maior país do Médio Oriente coloca-o num volto de vulnerabilidade, sobretudo tendo em conta os problemas que não param nos estreitos de Ormuz e Bab el-Mandeb.
Incapaz de atingir diretamente os Estados Unidos para lá de ataques esporádicos a bases existentes no Médio Oriente, o Irão entende que é através dos parceiros regionais de Washington DC que pode chegar mais longe.
Em paralelo, os Houthis têm um interesse direto em que isto aconteça, já que um alívio das sanções dos Estados Unidos ao Irão representa mais dinheiro para a causa dos rebeldes.
Na prática, se Teerão tiver mais capacidade económica, também os Houthis vão conseguir ver prolongado o seu apoio político, financeiro e militar, o que poderá ser decisivo neste momento da guerra, em que o grupo parece estar por cima nas pretensões que tem para o Iémen, onde vai conquistando terreno a pouco e pouco.
Além disso, os Houthis têm as suas próprias exigências. De acordo com fontes sauditas e de outros países da região, o grupo quer o fim de todas as operações militares da Arábia Saudita e o levantamento das restrições aplicadas aos portos e aeroportos iemenitas. Além disso, procuram também compensações de guerra e o fim do apoio de Riade ao governo internacionalmente reconhecido do Iémen. Na prática, querem que o maior país do Médio Oriente reconheça o seu direito a governar.
Um responsável iraniano que também falou à agência Reuters admite que os Houthis são parte de uma estratégia maior do Irão, que quer fazer ver à Arábia Saudita que não pode confiar na proteção dos Estados Unidos para tudo, pelo que deve encetar negociações.
Uma estratégia que deixa o todo-poderoso Mohammed bin Salman perante um dilema: escalar a situação e minar todo o Médio Oriente ou dar o braço a torcer e sair com um ar de fragilidade de tudo isto.
Em último caso, Houthis e Irão pretendem a mesma coisa: vencer as suas guerras, a civil no Iémen e a do Irão com os Estados Unidos. No entendimento de ambos, é na pressão à Arábia Saudita que está parte do segredo para isso.