Crise anterior em Ceuta levou Espanha a mudar posição sobre Saara
Em abril de 2021, o líder do movimento independentista sarauí Frente Polisário foi tratado num hospital espanhol na sequência de uma infeção causada pela covid-19, originando uma crise nas relações entre Espanha e Marrocos.
Nesse período de conflito, Marrocos aligeirou em maio de 2021 os controlos fronteiriços e fez sentir a Espanha o peso da pressão migratória e do descontrolo dos fluxos de pessoas que querem entrar em territórios europeus permitindo a passagem de 10 mil pessoas em 48 horas para a cidade de Ceuta, um enclave espanhol no norte de África.
Para resolver o conflito político-diplomático, o primeiro-ministro de Espanha, Pedro Sánchez, enviou em março de 2022 uma carta ao Rei marroquino, Mohamed VI, na qual afirmava que a proposta apresentada por Rabat em 2007 para que o Saara Ocidental seja uma região autónoma controlada por Marrocos é "a base mais séria, credível e realista para a resolução deste litígio".
O Saara Ocidental é uma antiga colónia espanhola ocupada por Marrocos há 50 anos cuja soberania é disputada por Rabat e pelo movimento independentista Frente Polisário.
Pela primeira vez, Madrid apoiou em 2022 o plano marroquino para o Saara Ocidental: que seja uma região autónoma controlada por Rabat.
Até 2022, Espanha defendeu que o controlo de Marrocos sobre o Saara Ocidental era uma ocupação e que a realização de um referendo patrocinado pela ONU devia ser a forma de decidir a descolonização do território.
Depois da mudança de posição de Espanha, as relações bilaterais com Marrocos normalizaram-se e melhoraram.
Em dezembro de 2025, os dois países decidiram "reforçar o diálogo político bilateral", numa declaração conjunta em que o Governo de Madrid reafirmou o apoio à proposta marroquina para o Saara Ocidental, divulgada no final de uma cimeira que foi liderada pelos primeiros-ministros dos dois governos.
Os líderes dos dois executivos (o espanhol Pedro Sánchez e o marroquino Aziz Akhannouch) reiteraram então "o excelente momento" que atravessam as relações bilaterais depois da crise diplomática de 2021 e 2022.
Desde a normalização das relações, a chegada a território espanhol de migrantes de forma irregular a partir de Marrocos diminuiu substancialmente, reativaram-se as trocas comerciais bilaterais e os dois países vão organizar, com Portugal, o campeonato mundial de futebol masculino de 2030.
A cimeira de dezembro passado foi a segunda "reunião de alto nível" entre Espanha e Marrocos em menos de três anos, depois de uma cimeira em Rabat em fevereiro de 2023 que selou uma "nova etapa" nas relações bilaterais, segundo os dois governos, e que foi a primeira que realizaram desde 2015.
Por outro lado, em fevereiro de 2024, Pedro Sánchez fez uma visita oficial a Marrocos, marcada por encontros com altos responsáveis, incluindo o Rei Mohammed VI.
Sánchez defendeu então que Espanha tem uma cooperação exemplar e pioneira a nível europeu com Marrocos na gestão das migrações, reivindicando resultados "extraordinariamente positivos" e "excelentes".
Espanha partilha com Marrocos fronteiras marítimas e também terrestres, nas cidades de Ceuta e Melilla (que são também as únicas fronteiras terrestres da União Europeia com África).
Ceuta declarou-se hoje em "absoluta emergência humanitária e social" após mais de 1.500 pessoas terem entrado nos últimos dez dias neste enclave, onde chegaram a nado.
Também foi relatado que milhares de pessoas entraram hoje a meio do dia a pé na cidade de Ceuta, desde Marrocos, segundo meios de comunicação social no local.
O Governo espanhol garantiu hoje que ao contrário do que aconteceu no passado, Marrocos "está a cooperar de maneira leal e permanente com Espanha e a colaborar estreitamente" na crise atual.
As forças de segurança de Marrocos estão a travar a chegada de pessoas que querem tentar chegar a Ceuta, disse o Ministério da Administração Interna (MAI).
Marrocos atribui a entrada massiva de migrantes na fronteira com Ceuta a "organizações criminosas" e classifica como "exemplar" a colaboração com Espanha em matérias migratórias, disseram hoje fontes da embaixada marroquina em Madrid à agência espanhola Europa Press.
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