Cuidados Paliativos: são apenas para os últimos dias de vida?
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Começa agora mais um "Tratar da Saúde" com a Dra. Mariana Sobral, médica de família dos Centros de Saúde. CUF, olá, doutora. Bom dia, bem-vinda. Amanhã, dia 10, celebra-se o Dia Mundial dos Cuidados Paliativos. Dra. Mariana, o que são e para quem são estes cuidados, cujo nome ainda assusta muitas pessoas?
Obrigada pelo espaço para falarmos neste tema, porque efetivamente estes cuidados continuam pouco acessíveis aqui em Portugal a quem deles necessita. Cerca só de 30% da população é que efetivamente consegue aceder, o que é manifestamente pouco. E assim muito resumidamente, são cuidados que não são centrados na doença, mas sim na pessoa e também na família. Portanto, incluem desde o alívio de sintomas físicos, emocionais, espirituais e também o apoio à família e aos cuidadores, porque doenças graves e potencialmente fatais afetam a pessoa e, naturalmente, os que a rodeiam.
Quando uma família ouve que um familiar foi referenciado para cuidados paliativos, é comum sentir-se medo e pensar: "Já não há nada a fazer." Esta referenciação significa que a pessoa está necessariamente nos últimos dias de vida?
Não. Os cuidados paliativos não são sinônimo de cuidados de fim de vida. Infelizmente, cá em Portugal, como há pouco acesso, muitas vezes essa referenciação é atrasada, mas eles podem entrar desde o primeiro dia do diagnóstico de uma doença oncológica, de uma doença demencial, por exemplo. No fundo, eles ajudam a controlar sintomas e a planear cuidados e também a respeitar as decisões da pessoa que está doente e a planificar, que também acho que é muito importante.
Muitas pessoas associam estes cuidados apenas ao cancro, mas não é bem assim, pois não, doutora?
Não. São muito conhecidos, efetivamente, na área oncológica, mas podem ser úteis em inúmeras doenças, desde que sejam graves, potencialmente fatais. Vamos pensar, por exemplo, na demência. Podem ajudar ao ajuste da medicação para controlar sintomas, rever o plano de abordagem, esclarecer a família e potencialmente podem até melhorar o outcome, a resposta.
E podem ser recebidos ao mesmo tempo que tratamentos com intenção curativa?
Naturalmente. No fundo, nós, se pensarmos só, vamos controlar os sintomas. Imagine dor, falta de ar, anorexia, enquanto a pessoa está a receber um tratamento com intenção curativa. E, portanto, a nossa intervenção, e falo em "nossa" porque também trabalho nessa área, depende da situação clínica e das necessidades de cada pessoa, não apenas do nome da doença.
E o que é que pode mudar no dia a dia depois de uma referenciação?
Eu acho que pode haver mais esclarecimento. Às vezes nesta área, e vamos pensar então na doença oncológica, é tanta informação, são tantas as mudanças que os cuidados paliativos também ajudam na organização do plano, esclarecimento de dúvidas. E também ajudam a ter conversas que às vezes são as chamadas conversas difíceis, sempre quando a pessoa o deseje, naturalmente.
E Dra. Mariana, qual é o papel do médico de família neste percurso todo?
O papel do médico de família acho que é importante. Muitas vezes ajuda no diagnóstico ou então, pelo menos, e é muito importante, identifica e vai encaminhar as pessoas à tal referenciação, nomeadamente para equipas de cuidados paliativos domiciliares.
Estamos a terminar. O que é que a Dra. Mariana Sobral diria a uma família que recebeu agora esta notícia?
Eu acho que é importante que não interpretem a palavra paliativos como abandono. É uma ajuda adicional para que o familiar tenha mais conforto, menos sofrimento e que as decisões sejam mais alinhadas e, portanto, que confiram mais dignidade à pessoa em todos os pontos da doença.
Portanto, fica aqui a mensagem: cuidados paliativos não significam que já não há nada a fazer. Significam, sim, que há muito a cuidar da pessoa, dos sintomas, das suas escolhas e de quem está ao seu lado. Dra. Mariana Sobral, muito obrigada por esta conversa.
Obrigada.