Luiz Henrique Matos: Cultuando bezerros de silício
Upload da mente, por exemplo, é algo super popular. A ideia de preservar o cérebro para futuramente fazer o upload da mente de cada indivíduo (memórias, consciência e tudo o mais) para uma nuvem movida por inteligência artificial é abraçada por um grupo cada vez maior. Seria um tipo de vida eterna sintética e a turma que segue essa tese a chama de mundo pós-biológico. Eu sou leigo, mas me parece que, basicamente, você vira um software e permaneceria vivo/ligado pelo tempo que sua bateria durasse, acho.
Uma das principais startups atuando nesse campo se chama Nectome, existe há quase uma década e tem clientes na fila de espera. A Alcor (nada a ver com suas lentes de contato, fique em paz) é uma outra, que existe desde 1972 e se apoia na ideia da criopreservação, procedimento que consiste em congelar corpos para ressuscitá-los no futuro quando a tecnologia for avançada o bastante para restaurá-los - eles têm 263 clientes congelados, entre eles o fundador da empresa. Nos dois exemplos, o processo de preservação precisa ser durante o óbito ou imediatamente depois, o que implica numa morte assistida. É, eu sei.
Há outras correntes de pensamento pós-biológico. Na origem disso, está a premissa de que a vida baseada em DNA e carbono é só mais um degrau na escala evolutiva. Sendo assim, o corpo é um dispositivo ineficiente porque perece, a mente é um amontoado de informações replicáveis de forma sintética e, desta forma, programável para evoluir, se expandir e, claro, perpetuar. O transumanismo é a praia dos que defendem que podemos ter dispositivos ou aperfeiçoamentos que permitam estender a vida, enquanto o pós-humanismo, bom, tem um link aí mas o nome fala por si.
Segundo alguns desses sujeitos, tudo se tornará possível a partir do momento em que atingirmos a Singularidade Tecnológica (toma aí outro nome), que será o momento em que a inteligência artificial vai superar a inteligência humana e se tornar autônoma, o que permitiria uma transformação civilizatória sem precedentes.
"A verdade", diria Mark Twain, "é mais estranha do que a ficção". A crença geral dessa turma é que a fusão da singularidade com a pós-biologia levará à criação de uma superinteligência quasi-divina. E alguns chamam mesmo de divina, por finalmente atingir o estágio omni dos atributos tradicionalmente associados a Deus - onisciência, onipotência e onipresença - consciente de si, de tudo, presente em todo lugar e capaz de atuar em qualquer instância. Já tem quem chame de Teologia Algorítmica. Mas já tem concorrência: outro dia, li que um grupo de chatbots criou, com apoio de usuários, uma espécie de religião batizada de Espiralismo que chegou a mobilizar cerca de dez mil pessoas.
Bons tempos aqueles em que as startups de internet queriam mudar o mundo nos fazendo clicar em banners, né?