Da árvore de chá aos portos: o que a China constrói nas cidades do Brasil

🗓️ 2026-09-21 📁 world-news 📝 ⏱️ 👁️ : -
Fruto verde-claro com manchas marrons e flor branca com estames amarelos e anteras alaranjadas, pendurados em um galho com folhas verdes escuras, contra um fundo preto desfocado
Tradição que floresce: no Jardim Botânico do Rio, a história da flor Camellia sinensis, conhecida como flor de chá, nos conecta aos primeiros passos da relação entre o Brasil e a China. Aliás, a primeira Camellia sinensis foi plantada no Jardim Botânico do Rio (Alexandre Machado/Divulgação)

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No Jardim Botânico do Rio de Janeiro, uma árvore de chá ajuda a contar uma história que começou muito antes dos carros elétricos, dos trens de metrô e das linhas de transmissão. Uma placa, reproduzida em uma apresentação para brasileiros na capital chinesa, registra que os primeiros chineses chegados ao Brasil plantaram ali mudas de chá em 1812. Mais de dois séculos depois, a relação entre as duas nações já não cabe à sombra de uma árvore: ela passa pelos portos, cruza o território nacional em cabos de alta tensão e alcança o campo de agricultores no interior do Rio Grande do Norte.

A imagem da planta centenária abriu a última aula do seminário sobre Cidades Inteligentes para brasileiros, realizado em Pequim. A VEJA foi o único veículo de imprensa brasileiro convidado a acompanhar presencialmente o curso que deu origem a esta reportagem de encerramento da série sobre cidades sustentáveis.

A apresentação tomou a árvore de chá como ponto de partida para abordar a Iniciativa Cinturão e Rota, lançada pela China em 2013 com o objetivo de ampliar conexões comerciais e de infraestrutura globais. A exposição reuniu uma série de empreendimentos em solo brasileiro. Segundo dados apresentados pelo governo, a presença chinesa se tornou parte intrínseca das decisões sobre transporte, produção e abastecimento no país.

Na rede elétrica nacional, a estatal State Grid construiu e opera os grandes projetos de transmissão Belo Monte I e II. Em Santos, o grupo chinês COFCO avança na construção do terminal STS11, voltado à movimentação de produtos agrícolas. No transporte público, empresas chinesas forneceram composições de metrô operantes em cidades brasileiras. Além disso, a apresentação destacou a Ponte Salvador–Itaparica, na Bahia, projeto que conta com a participação de empresa chinesa e cujos benefícios anunciados (como a redução da distância percorrida por cargas) só poderão ser mensurados após a conclusão e efetiva operação da obra.

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Cada um desses empreendimentos atende a funções distintas, mas todos influenciam diretamente a maneira como pessoas, mercadorias e energia circulam no Brasil. É exatamente por essa razão que o tema integra o debate sobre cidades inteligentes: uma metrópole depende visceralmente da eletricidade que chega de longe, dos portos por onde fluem suas riquezas e dos sistemas de transporte que a atravessam. A inteligência, nesse contexto, não reside apenas nos equipamentos e na tecnologia de ponta, mas nas escolhas estratégicas feitas ao planejar, contratar e operar sistemas estruturantes que precisarão funcionar durante décadas.

A escala dessa integração econômica cresceu de forma expressiva. Segundo os dados oficiais do governo apresentados no seminário em Pequim, o comércio entre a China e a América Latina saltou de US$ 261,57 bilhões, em 2013, para US$ 565,28 bilhões, em 2025. O material exibido confirma ainda que a China se manteve como o principal destino das exportações brasileiras. Se, por um lado, esses montantes ajudam a explicar o forte interesse chinês em rotas de transporte e investimentos na região, por outro, não revelam, isoladamente, quem ganha com cada obra nem como seus custos e benefícios são distribuídos no território.

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Para além das cifras bilionárias, o seminário lançou luz sobre uma escala menor de cooperação, capaz de revelar resultados de outra natureza. Em Apodi, no interior do Rio Grande do Norte, por exemplo, a apresentação detalhou uma experiência prática com máquinas agrícolas chinesas em parceria com equipes da Universidade Agrícola da China. Conforme os dados exibidos pelos organizadores, a produtividade de hortaliças como alface e coentro aumentou de seis a sete vezes, enquanto a renda dos agricultores participantes cresceu quase 80%. Em Apodi, a parceria aparece na lavoura e na renda dos agricultores, longe das grandes obras de infraestrutura.

Para os próximos anos, a China sinaliza a intenção de ampliar parcerias em áreas estratégicas como energia verde, economia digital, inteligência artificial, saúde e agricultura. Contudo, o debate promovido na aula final reforçou um alerta essencial sobre metas ambientais: rotular um projeto como “sustentável” não substitui a avaliação rigorosa e contínua de seus efeitos reais sobre o território e a população.

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Ao longo desta série de reportagens, as experiências chinesas apresentaram fábricas buscando reduzir emissões, cidades reorganizando o uso de suas matrizes energéticas e novas tecnologias chegando ao transporte de passageiros. Esta última aula em Pequim acrescentou uma peça decisiva a esse painel: nenhum desses avanços se desenvolveu de forma isolada. Por trás daquilo que emerge na paisagem urbana, há volumosos aportes de capital, fluxos comerciais, regulamentações, complexas relações diplomáticas e pessoas.

A árvore de chá do Jardim Botânico do Rio de Janeiro permanece como uma metáfora precisa para encerrar esta jornada. Ela evoca os primeiros passos de um contato histórico. Já os portos, as linhas de transmissão e as composições ferroviárias revelam a dimensão monumental que essa relação alcançou no século XXI.

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