Da cerveja ao gasóleo: dez anos de inflação em números concretos

🗓️ 2026-08-03 📁 business-finance 📝 ⏱️ 👁️ : -

Há uns dias fui ao Continente ver os preços de alguns produtos que todos nós conhecemos, coisas simples do dia a dia que qualquer pessoa reconhece do supermercado, e reparei numa coisa que já desconfiava, mas nunca tinha parado para confirmar com números. Uma Super Bock custa hoje mais do dobro do que custava há dez anos. Cruzei essa informação com os dados da DGEG sobre combustíveis, e o retrato que ficou é mais duro do que eu esperava.

Os preços, do Continente e da DGEG, comparando Julho de 2016 com Julho de 2026, são estes:

  • Leite Gresso 1 litro: 0,46€ em 2016, 0,87€ em 2026, uma subida de 89%
  • Sagres 33cl: 0,52€ em 2016, 0,84€ em 2026, uma subida de 62%
  • Super Bock 33cl: 0,40€ em 2016, 0,82€ em 2026, uma subida de 105%
  • Gasóleo, 1 litro: 1,13€ em 2016, 2,02€ em 2026, uma subida de 79%

São produtos do dia a dia, não são estatísticas abstratas de um relatório do Banco de Portugal. É o que qualquer pessoa gasta a comprar o jantar de sexta-feira ou a encher o depósito para ir trabalhar, e é por serem tão comuns que os números acabam por dizer mais do que qualquer gráfico com percentagens soltas.

O que me levou a escrever este texto não foi propriamente a subida dos preços, isso já toda a gente sente no bolso todos os meses. Foi perceber, em conversas com amigos e familiares, que grande parte das pessoas continua a pensar que ter dinheiro parado numa conta bancária é uma forma segura de o proteger. E é exatamente aí que está o problema, porque parado não significa protegido, significa apenas que se está a perder valor de forma mais lenta e mais discreta.

Para perceber a dimensão disto, é mais fácil pensar em números concretos do que em percentagens abstratas. Peguemos em 100€ guardados em Julho de 2016. Com esse valor dava para comprar:

  • 88,5 litros de gasóleo
  • 250 Super Bocks
  • 217 litros de Leite Gresso

Se esses 100€ tivessem ficado simplesmente parados, sem qualquer rendimento, hoje continuam a valer nominalmente 100€. Mas com esses mesmos 100 €, em Julho de 2026, já dó dápara:

  • 49,5 litros de gasóleo, menos 39 litros, menos 44%
  • 122 Super Bocks, menos 128 cervejas, menos 51%
  • 114 litros de Gresso, menos 103 litros, menos 47%

Sem gastar um cêntimo, sem fazer nada de errado, perdeu-se quase metade do valor real desse dinheiro. Ninguém roubou nada, a inflação fez o trabalho sozinha, devagar e sem chamar a atenção.

Se esses mesmos 100€ tivessem sido colocados em Certificados de Aforro, na altura na série D, teriam rendido até aos 117,99€ líquidos, já depois de impostos. Parece melhor à primeira vista, mas continua a não chegar. Com esse valor, em Julho de 2026, dá para:

  • 58,4 litros de gasóleo, menos 30.1 litros, menos 34%
  • 144 Super Bocks, menos 406 cervejas, menos 42%
  • 135 litros de Gresso, menos 82 litros, menos 38%

Ou seja, mesmo com o rendimento dos Certificados de Aforro, continua a haver perda de poder de compra, apenas mais lenta do que no cenário anterior.

Num cenário em que o dinheiro não só acompanhou a subida dos preços como a ultrapassou foi o investimento em ações. 100€ aplicados no índice norte-americano S&P 500 em 2016 valeriam hoje cerca de 337,10€ líquidos. Com esse valor, em Julho de 2026, já dá para:

  • 166,9 litros de gasóleo, mais 78.4 litros, mais 89%
  • 411 Super Bocks, mais 161 cervejas, mais 64%
  • 387 litros de Gresso, mais 170 litros, mais 78%

Mais do que se tinha em 2016, e não apenas em termos nominais, mas em capacidade real de compra.

Não estou com isto a incentivar a que, apenas por ter mais dinheiro o consumidor consuma mais 161 cervejas ou que passe a tomar duas chávenas de leite ao pequeno almoço. Estou sim a chamar à atenção para a inflação e para a perda do poder de compra.

Há um pormenor que não posso deixar passar em branco, até porque junta as duas pontas desta história de forma quase irónica. O Continente, onde fui buscar os preços que abrem este texto, pertence à Sonae. E as ações da Sonae, essas, subiram de 0,696€ em Julho de 2016 para 2,04€ agora, uma valorização de cerca de 193%, sem sequer contar com os dividendos que a empresa foi pagando ao longo destes dez anos (0.503€/ação no acumulado dos 10 anos). Ou seja, a mesma empresa cujos preços em loja subiram e corroeram o poder de compra de quem tinha dinheiro parado foi também, para quem investiu nela, uma das formas de proteger e multiplicar esse dinheiro. Há aqui uma lição que vale a pena pensar com calma, sobre quem fica de um lado e de outro desta equação.

Não escrevo isto como recomendação de investimento ou de compra, longe disso, cada pessoa tem a sua situação, o seu perfil de risco e os seus objetivos, e isso não se resolve num artigo de opinião. Escrevo porque me parece que continuamos a educar as pessoas para poupar, mas quase ninguém explica a diferença entre poupar e investir, e essa diferença, ao fim de dez anos, pode significar perder quase metade do valor real do que se guardou. Poupar protege o dinheiro do imprevisto, do carro que avaria ou da máquina que se estraga. Investir protege-o de um inimigo mais silencioso, que é a inflação, e que continua a subir os preços do supermercado e da bomba de gasolina, quer estejamos a olhar para isso ou não.

Fica a pergunta, que acho que vale a pena cada um fazer a si próprio, sem pressa e com a calculadora à mão: quanto vale hoje, a sério, o dinheiro que tem parado desde 2016?