Dá estas guloseimas ao seu cão? Veterinários alertam para o risco de dentes partidos e lesões graves
Guloseimas e snacks para cães que parecem inofensivos podem, em alguns casos, provocar fraturas dentárias, obstruções intestinais, lesões renais e até obrigar a intervenções cirúrgicas de emergência. O alerta parte de vários veterinários, que chamam a atenção para produtos considerados seguros por muitos donos, desde ossos e mastigáveis duros a guloseimas de carne seca e alimentos vendidos como “naturais”.
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Nos Estados Unidos, os consumidores gastam quase 70 mil milhões de dólares por ano em alimentação para animais de companhia, num mercado onde existe uma enorme variedade de snacks, mastigáveis e produtos destinados a melhorar a saúde oral dos cães. Mas a popularidade de determinados produtos não significa que sejam necessariamente seguros.
Ao HuffPost, a veterinária Stephanie Liff, que trabalha em Nova Iorque e é proprietária de uma clínica, diz observar diretamente algumas das consequências. Segundo a especialista, 26% dos cães sofrerão fraturas dentárias, geralmente por mastigarem objetos demasiado duros.
Entre os produtos que podem estar na origem dessas lesões encontram-se alguns mastigáveis que muitos donos consideram apropriados para os animais, incluindo bully sticks, mastigáveis de leite de iaque, hastes de animais e ossos fumados.
A recomendação de Liff é particularmente simples: “Qualquer guloseima que não seja suficientemente macia para conseguir fazer uma marca com a unha é tecnicamente demasiado dura e pode partir um dente”.
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Mastigáveis duros podem partir dentes dos cães
A ideia de que um cão deve receber objetos muito resistentes para mastigar é comum entre os donos de animais. No entanto, segundo os veterinários, a dureza do produto pode transformar-se precisamente no problema.
Liff relata ter sido obrigada recentemente a remover cirurgicamente do estômago de um cão um mastigável de iaque dos Himalaias. Noutro caso, um labradoodle fraturou os dois grandes molares posteriores depois de morder com força um mastigável duro.
A força exercida foi suficiente para que o dono ouvisse o dente partir-se do outro lado da divisão. A reparação das lesões custou mais de 2.000 dólares.
“Qualquer guloseima que não seja suficientemente macia para conseguir fazer uma marca com a unha é tecnicamente demasiado dura e pode partir um dente”, reforça Liff.
O problema não se limita a cães cujos donos tenham pouca experiência. Até criadores habituados a lidar com determinadas raças podem desconhecer alguns dos riscos associados a estes produtos.
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Ossos fumados podem fragmentar-se e causar lesões internas
Katherine Bailee, proveniente de uma família que cria dobermann europeus há duas gerações, conta que também aprendeu esta lição através da experiência.
No início da carreira como criadora, ofereceu ao seu cão Ares, um dobermann, um osso de medula fumado comprado numa loja. Pouco depois, o produto começou a desfazer-se.
“Em 20 minutos, o osso fragmentou-se em pedaços tão afiados como vidro”, recorda.
Um dos fragmentos maiores ficou preso horizontalmente no céu da boca do animal, enquanto outros pedaços foram engolidos.
Ares acabou por sobreviver, mas a família passou 48 horas a vigiar o animal à procura de sinais que pudessem indicar uma perfuração intestinal. Só depois de os veterinários confirmarem que o cão estava fora de perigo é que a situação ficou ultrapassada.
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Bailee desconhecia que o processo de fumagem retira flexibilidade aos ossos, tornando-os mais quebradiços e aumentando a possibilidade de se partirem em fragmentos.
A experiência levou-a a descrever produtos deste tipo como um “perigo interno literal”.
O risco pode ser particularmente preocupante em determinadas raças. “Quando se tem uma raça propensa a dilatação gástrica e com um aparelho gastrointestinal sensível, o corredor dos bons donos de cães no supermercado é o local mais perigoso do edifício”, afirma Bailee.
Rawhide pode provocar obstruções intestinais
Os chamados rawhide, mastigáveis produzidos a partir de couro cru, constituem outro motivo de preocupação para os veterinários, embora por razões diferentes das associadas aos ossos.
À primeira vista, estes produtos podem parecer semelhantes a uma guloseima de carne seca. Na realidade, são um subproduto da indústria do couro e são processados com produtos químicos para conservar a sua forma.
Quando são mastigados, tornam-se suficientemente moles para poderem ser engolidos em pedaços. Uma vez no aparelho digestivo, esses fragmentos podem aumentar de volume e provocar uma obstrução potencialmente fatal no estômago ou nos intestinos.
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Foi o que aconteceu a Killua, um golden retriever pertencente a Caleb Johnstone, depois de o animal engolir um grande pedaço de um osso de rawhide com nós.
“O pedaço cresceu dentro do estômago como uma esponja e provocou uma obstrução intestinal grave”, contou Johnstone.
O cão teve de ser submetido a uma cirurgia de emergência.
A experiência também alterou a perceção do dono sobre o produto. “Pensei que era carne seca. É mais parecido com mastigar um sapato de couro”, afirma. Johnstone diz ainda que gostaria de ter sabido que o processo de limpeza destes ossos envolve lixívia e peróxido de hidrogénio.
Veterinário diz realizar cirurgias evitáveis todas as semanas
Ezra Ameis, veterinário e proprietário da clínica Paw Priority, afirma que estes casos chegam regularmente às consultas.
“Faço cirurgias gastrointestinais a cada poucas semanas que são completamente evitáveis”, afirma.
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Entre os objetos que já teve de retirar do estômago, garganta ou céu da boca de cães encontram-se rawhide, ossos cozinhados e mastigáveis dentários demasiado duros.
A recomendação do veterinário é semelhante à de Liff: “Não dê ao seu cão nada que seja tão duro como os dentes dele. Pode parti-los”.
As consequências de uma mastigação inadequada podem ser evidentes: o cão pode engasgar-se, fraturar um dente, deixar de comer ou desenvolver sinais de obstrução digestiva. Mas os veterinários alertam para outro problema, menos visível e potencialmente grave: determinados produtos podem provocar lesões internas que só são detetadas quando o animal já está doente.
Guloseimas de carne seca podem estar associadas a lesões renais
Jordyn Zoul, veterinária na Geórgia, conta ter acompanhado o caso de um cão de meia-idade que apareceu na clínica com letargia súbita, falta de apetite e vómitos.
As análises ao sangue revelaram uma lesão renal aguda.
A única explicação encontrada pelos profissionais foi o facto de o dono ter comprado recentemente determinadas guloseimas de carne seca.
A doença é conhecida como síndrome semelhante à de Fanconi, uma doença renal rara que compromete a capacidade dos rins para filtrar nutrientes.
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Ameis diz ter observado situações semelhantes. “Alguns recuperam depois de as guloseimas serem retiradas, mas outros ficam com lesões renais permanentes”, afirma.
Perante este risco, a recomendação do veterinário é particularmente abrangente: “Digo às pessoas para evitarem completamente as guloseimas de carne seca. Os cães não sabem o que estão a perder”.
Dietas sem cereais também levantam preocupações
O problema, segundo Zoul, não está apenas nas guloseimas. A própria alimentação habitual dos cães pode envolver escolhas que os donos consideram mais saudáveis sem conhecerem necessariamente todos os riscos.
É o caso das dietas sem cereais.
“Muitas pessoas que alimentam os seus cães com dietas sem cereais não fazem ideia de que essa escolha comporta os seus próprios riscos graves”, afirma a veterinária.
Zoul considera que existe atualmente uma quantidade significativa de investigação que relaciona as dietas sem cereais com doença cardíaca em cães.
“A indústria de alimentos para cães percebeu que ‘sem cereais’ funcionava bem junto dos consumidores que presumiam que os cães eram carnívoros”, explica.
A veterinária considera, contudo, que essa ideia é um mito. “Os cães são omnívoros, não carnívoros obrigatórios como os gatos. Precisam de proteína animal, mas também de nutrientes provenientes de plantas e amidos”, afirma.
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Rottweiler desenvolveu doença cardíaca associada à dieta
Zoul descreve o caso de um rottweiler de dois anos a quem foi diagnosticada uma cardiomiopatia dilatada, uma doença em que o coração aumenta de tamanho e perde força.
A doença foi descoberta por acaso durante uma consulta, quando a veterinária ouviu o coração do animal.
O cão tinha sido alimentado durante toda a vida com uma dieta sem cereais, simplesmente porque o dono não conhecia os potenciais riscos associados a essa opção.
Radiografias ao tórax confirmaram o aumento do coração.
Depois da alteração da alimentação para uma dieta que incluía cereais, a evolução foi positiva. “No espaço de um ano, era um cão normal. O coração tinha recuperado”, afirma Zoul.
Xilitol é um dos ingredientes que mais preocupa os veterinários
Além dos produtos em si, os especialistas recomendam atenção aos ingredientes presentes nas embalagens.
Os três veterinários identificaram o xilitol como um dos ingredientes que mais os preocupa. Trata-se de um adoçante artificial que pode estar presente em algumas manteigas de amendoim e guloseimas à base de iogurte.
“Xilitol é o mais perigoso”, afirma Ameis. Segundo o veterinário, mesmo pequenas quantidades podem provocar uma descida potencialmente fatal dos níveis de açúcar no sangue e insuficiência hepática nos cães.
A recomendação passa, por isso, por verificar cuidadosamente os rótulos antes de oferecer qualquer produto ao animal.
Ameis aconselha também atenção a ingredientes como BHA e BHT, bem como a produtos com quantidades excessivas de sal.
A palavra “natural” não significa necessariamente mais seguro
Outro alerta dos veterinários diz respeito à forma como os produtos são apresentados aos consumidores.
A palavra “natural” aparece frequentemente nas embalagens de alimentos e guloseimas para animais, mas Liff considera que não deve ser interpretada automaticamente como uma garantia de qualidade ou segurança.
“A palavra ‘natural’ é sobretudo utilizada como marketing”, afirma.
Para a veterinária, o termo não é sinónimo de um produto “melhor, mais seguro ou mais digerível” para o cão.
Ameis resume a questão de forma igualmente simples: “Se não consegue identificar facilmente o que está lá dentro, provavelmente não é uma boa escolha”.
A composição do produto deve, assim, pesar mais na decisão do que expressões promocionais utilizadas na embalagem.
Que guloseimas dão os próprios veterinários aos seus cães?
Apesar da enorme variedade de produtos disponíveis no mercado, os veterinários ouvidos mantêm uma abordagem relativamente simples quando escolhem as guloseimas para os seus próprios animais.
Liff prefere dar aos seus cães guloseimas mais macias e com um único ingrediente.
Ameis opta por alimentos simples, como mirtilos, pedaços de cenoura e pequenas porções de carne magra.
Zoul recomenda ainda que as guloseimas representem menos de 10% das calorias diárias do cão.
Outra das regras que considera fundamental é supervisionar sempre o animal enquanto está a mastigar.
Esta vigilância permite identificar mais rapidamente comportamentos como engasgamento, dificuldade em mastigar ou sinais de que o cão engoliu um pedaço demasiado grande.
O teste da unha pode ajudar a escolher um mastigável
Apesar das diferenças entre os produtos e dos riscos específicos associados a cada um, os veterinários convergem numa regra simples para avaliar a dureza de uma guloseima ou de um mastigável.
Se o produto for tão duro que não permita fazer uma pequena marca com a unha, deve ser evitado.
A regra foi resumida por Liff: “Qualquer guloseima que não seja suficientemente macia para conseguir fazer uma marca com a unha é tecnicamente demasiado dura e pode partir um dente”.
A recomendação não substitui a avaliação veterinária nem significa que todos os produtos com a mesma consistência provoquem necessariamente lesões, mas funciona como uma orientação simples para evitar alguns dos mastigáveis mais rígidos.
Donos devem olhar para além da aparência da guloseima
O problema identificado pelos veterinários é que muitos dos produtos potencialmente perigosos não parecem particularmente arriscados.
Ossos, mastigáveis, guloseimas dentárias e produtos de carne seca são frequentemente vendidos especificamente para cães e podem ser escolhidos pelos donos precisamente por acreditarem que estão a oferecer algo especial aos animais.
No entanto, a dureza, a possibilidade de fragmentação, a capacidade de determinados produtos aumentarem de volume depois de ingeridos e a composição química das guloseimas são fatores que podem ter consequências diferentes.
Para os veterinários, uma guloseima adequada não deve ser escolhida apenas pelo preço, pela aparência, pela promessa de ser “natural” ou pela indicação de que ajuda a limpar os dentes.
A composição e a textura são igualmente importantes.
O objetivo é evitar problemas que podem acabar numa emergência veterinária
Fraturas dentárias, obstruções intestinais e lesões causadas por fragmentos de ossos podem exigir intervenções veterinárias e, em alguns casos, cirurgia de emergência. As lesões renais associadas a determinadas guloseimas de carne seca e os problemas cardíacos relacionados com determinadas dietas acrescentam riscos que podem ser menos evidentes para os donos.
É por isso que Ameis insiste que algumas das cirurgias que realiza poderiam ser evitadas com escolhas diferentes.
“Faço cirurgias gastrointestinais a cada poucas semanas que são completamente evitáveis”, afirma.
A recomendação geral dos especialistas passa por privilegiar guloseimas mais simples e macias, verificar cuidadosamente os ingredientes, limitar a quantidade de snacks e supervisionar o cão durante a mastigação.
Para quem procura uma regra particularmente simples, o teste da unha mantém-se como a principal indicação dos veterinários: se não for possível fazer uma marca no produto com a unha, é melhor não o oferecer ao cão.
A experiência levou também alguns donos a reformular completamente a escolha de guloseimas. No caso descrito pelo autor, os ossos fumados e as guloseimas de carne seca foram retirados, passando o cão a receber mastigáveis mais macios e pedaços de cenoura. Produtos cuja lista de ingredientes é difícil de compreender também deixaram de fazer parte da alimentação do animal.