Da fortuna nos carros aos F-35. John Arrigo, o “grande amigo” de Trump em Lisboa
"Que presente de Natal!" John Arrigo conta a origem da amizade que levou ao convite para a embaixada em Lisboa. Golfe e culinária são das coisas que mais gosta no país onde quer colocar mais caças.
- Retrato é uma rubrica do ECO na qual, durante o mês de agosto, é publicado diariamente o perfil de uma personalidade que se distinguiu no último ano, em Portugal
Lembra-se da sequência no primeiro Rocky, na qual Sylvester Stallone corre e treina em Filadélfia, com a empolgante faixa sonora de Bill Conti a acompanhar o pugilista Balboa até ao vitorioso levantar dos braços no topo de uma escadaria monumental? Pois, essa icónica montagem do filme de 1976 acaba de ser, passado meio século, alvo de uma espécie de remake em Lisboa.
O alarme do telemóvel toca às 4h15 e depois de lavar a cara e ouvir um incentivador “you got this” da esposa Megan, John Arrigo parte para o treino. Numa reencenação ao detalhe, as câmaras captam o embaixador americano a correr pelas ruas perto do rio Tejo, depois já no ginásio de boxe a ligar as mãos para a seguir dar e receber socos, saltar à corda, fazer flexões e abdominais, antes de voltar à corrida que culmina numa triunfante subida, neste caso da escadaria que leva à chancelaria da embaixada (com dezenas de funcionários a juntarem-se na parte final).
O vídeo — que tem cerca de três minutos e foi partilhado nas redes sociais da embaixada americana em Lisboa no início de julho por ocasião da celebração do 250º aniversário da independência dos Estados Unidos — mostra bem a natureza irreverente e o showmanship de um homem que passou a carreira a gerir uma enorme rede de venda de carros e que em setembro do ano passado iniciou, aos 61 anos, a atividade na diplomacia. No curto texto que acompanha o reel nas redes sociais, Arrigo salienta o espírito americano de resiliência, determinação, otimismo e a convicção de que tudo é possível com trabalho árduo e perseverança.
Todas essas características contribuem para o sucesso, claro, mas ter amigos nos lugares certos também, e Arrigo tem um que é somente o homem mais poderoso do mundo, Donald Trump. O embaixador conta ao ECO as origens de uma ligação que já tem 32 anos. “Conheci-o pela primeira vez quando ele estava à procura de um carro para a sua família”, relembra, em resposta por escrito. “Recebi uma chamada da minha concessionária de automóveis na Florida a pedir-me para ir até lá ajudar um nova-iorquino e quando cheguei, havia uma grande multidão em torno de um cliente.”
“Ao aproximar-me, percebi que era o Donald Trump e que precisava de comprar uma carrinha para a família e para a sua filha recém-nascida — a Tiffany”, recorda. “Começou a conversar comigo, demo-nos bem e somos amigos desde então e já viajámos juntos pelo mundo inteiro“.
A título pessoal, o presidente Trump tem sido um grande amigo, vinca Arrigo. “Quando a minha mãe ficou muito doente há alguns anos, ele não hesitou em disponibilizar o seu avião privado para a levar ao hospital o mais rapidamente possível. Infelizmente, ela faleceu antes de conseguir levá-la para aquele avião, mas essa história demonstra a sua lealdade e é esse o tipo de pessoa que ele é.”
"Portugal tem um grande amigo meu, como embaixador, John Arrigo. É uma pessoa excecional que fez muito dinheiro no negócio dos automóveis e decidiu tornar-se embaixador. Eu dei-lhe opções e ele escolheu Portugal e talvez seja por causa dos vossos magníficos campos de golfe.”
Os sentimentos são mútuos e públicos. Também por altura dos festejos dos 250 anos dos EUA, Donald Trump partilhou nas redes sociais um vídeo gravado na Sala Oval e na qual disse que Portugal “tem um grande amigo meu” como embaixador. “É uma pessoa excecional que fez muito dinheiro no negócio dos automóveis e decidiu tornar-se embaixador”, referiu o republicano. “Eu dei-lhe opções e ele escolheu Portugal e talvez seja por causa dos vossos magníficos campos de golfe.”
Mantendo-se no tema do golfe, Trump gabou-se de fazer Arrigo passar dificuldades no campo. “Mas ele é muito bom, é muito difícil derrotá-lo, e difícil de derrotar de muitas outras formas”, acrescentou, sublinhando que o amigo tem feito um “excelente trabalho como embaixador”.
Ao ECO, Arrigo diz que já se tinha reformado da indústria automóvel há cinco anos e estava a ficar mesmo habituado à reforma. “Gosto de brincar dizendo que a minha maior preocupação todas as manhãs era saber qual seria a sopa do dia no meu clube”, brinca. Recorda que depois da segunda eleição de Trump, estavam os dois no campo de golfe e o presidente perguntou se estaria interessado em desempenhar funções como embaixador. Arrigo foi para casa, conversou com Megan e concordaram que era uma oportunidade “incrível” para servir o país e a Administração.
“Tive a honra de aceitar e depois o presidente perguntou-me para onde eu queria ir, e eu respondi: Portugal, é o único sítio para onde quero ir”, confessa. “Perguntou-me qual era a minha segunda opção e eu respondi: Portugal.”
Arrigo conta que já tinha visitado os Açores anos antes e se apaixonado por Portugal, pelas pessoas, pela comida, pelas paisagens e, claro, pelos campos de golfe. “Quando a minha nomeação para embaixador em Portugal foi oficialmente anunciada a 24 de dezembro de 2024, foi um momento inesquecível para mim e para a minha família”, declara. “Que presente de Natal!”
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O embaixador dos EUA em Portugal, John Arrigo. DR -
O presidente Donald Trump reúne-se com novos embaixadores no Salão Oval, na terça-feira, 25 de março de 2025. Na foto, o embaixador dos EUA em Portugal, John Arrigo. Molly Riley -
O embaixador dos EUA em Portugal, John Arrigo. DR -
O Presidente Donald Trump participa na cerimónia de tomada de posse do embaixador dos EUA em Portugal, John Arrigo, na terça-feira, 9 de setembro de 2025, no Salão Oval. Daniel Torok -
O Presidente Donald Trump participa na cerimónia de tomada de posse do embaixador dos EUA em Portugal, John Arrigo, na terça-feira, 9 de setembro de 2025, no Salão Oval. Daniel Torok -
O Presidente Donald Trump participa na cerimónia de tomada de posse do embaixador dos EUA em Portugal, John Arrigo, na terça-feira, 9 de setembro de 2025, no Salão Oval. Daniel Torok -
O embaixador dos EUA em Portugal, John Arrigo. DR -
O embaixador dos EUA em Portugal, John Arrigo. DR -
O embaixador dos EUA em Portugal, John Arrigo. DR -
O embaixador dos EUA em Portugal, John Arrigo. DR -
O embaixador dos EUA em Portugal, John Arrigo. DR -
O embaixador dos EUA em Portugal, John Arrigo. DR
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“People person“
Nada na carreira de John Arrigo fazia prever que alguma vez recebesse no sapatinho essa prenda, um cargo diplomático. O próprio reconhece isso quando questionado se alguma vez imaginara essa possibilidade. “Nunca. Se me tivesse perguntado há vinte anos se eu viria a tornar-me diplomata, não teria acreditado em si“, admite.
A página de LinkedIn de Arrigo não ajuda a explicar o ‘salto’. Além de uma minimalista referência aos estudos na Florida Atlantic University entre 1982 e 1985, a rede social lista dois cargos ocupados: o atual destacamento em Lisboa e 35 anos e 10 meses como vice-presidente da Arrigo Automotive Group Inc, entre 1984 e 2020.

John Arrigo ainda estava, portanto, na faculdade quando entrou no negócio da família, mas o marco importante foi em 1989, quando o pai, Joseph, estabelece em West Palm Beach o Arrigo Automotive Group, começando com um dealership da Dodge. O negócio expande rapidamente nos anos 90 com investimento em terrenos, showroom e stock automóvel, com o grupo a chegar na década seguinte ao lugar de maior comercializador de veículos Chrysler e Dodge nos Estados Unidos.
O patriarca ‘Joe’ viria a falecer em 2022, deixando a John, além do legado empresarial, também o gosto pelo golfe e pela gastronomia. Entretanto a família já vendera, em 2020, o negócio na altura com cinco sites, à Morgan Automotive Group, mantendo contudo a insígnia Arrigo.
Durante grande parte da carreira, John partilhou funções executivas com o irmão mais velho, Jim. Os dois partilharam também os ecrãs em anúncios nas televisões locais e no YouTube, nos quais Jim fazia o papel mais sério, enquanto John o mais animado, muitas vezes a dançar, noutras equipado a fazer aeróbica e numa até disfarçado de Pai Natal.
O facto de vir do setor privado dá-me uma perspetiva diferente. Às vezes pergunto: ‘Porque é que fazemos isto desta forma? Haverá uma forma melhor?’. Acho que isso é saudável.
Se a nomeação de um empresário para o cargo de embaixador seria uma opção rara em países europeus como Portugal, nos Estados Unidos é prática comum, com os presidentes muitas vezes a escolherem pessoas de fora da carreira diplomática, incluindo apoiantes políticos, académicos, juristas ou amigos.
Os dois antecessores imediatos de Arrigo em Lisboa, por exemplo, também vieram de outros caminhos: Randi Sherman, nomeada por Joe Biden, fez carreira nas artes e na filantropia, enquanto George Glass, o primeiro enviado por Trump para residir no número 18 da Rua do Sacramento à Lapa, fez fortuna na banca de investimento e no imobiliário.
A ideia passa pela transferência de experiência. Segundo a nota biográfica no site da embaixada, as mais de três décadas de Arrigo como dono e gestor da Arrigo Automotive Group, “dotou-o de uma profunda experiência na gestão de equipas, na negociação de questões complexas e no estabelecimento de relações — competências que agora aplica na sua função diplomática”.
Arrigo salienta ao ECO a perspetiva diferente que traz ao cargo. “Sou uma pessoa que gosta de lidar com as pessoas, estabelecer relações foi uma parte importante da minha carreira na indústria automóvel, e essas mesmas competências têm-me sido muito úteis como embaixador”, escreve. O ex-empresário vê-se como alguém que gosta de resolver problemas. “A minha equipa dir-vos-á que, sempre que alguém me apresenta um problema, a minha primeira pergunta é normalmente: ‘Como podemos ajudar? Com quem precisamos de falar?”.
“O facto de vir do setor privado dá-me uma perspetiva diferente”, resume o ex-empresário. “Às vezes pergunto: ‘Porque é que fazemos isto desta forma? Haverá uma forma melhor? Acho que isso é saudável’.”
Para Arrigo, o cargo vai muito além das reuniões formais: “Trata-se de conhecer os nossos homólogos, quer sejam responsáveis do Governo português, empresas americanas que investem aqui ou empresas portuguesas que pretendem expandir-se nos Estados Unidos”.
O embaixador dos EUA em Portugal, John Arrigo.
DR
O F-35 e o défice
Entre os grandes objetivos de Arrigo, um está claramente no topo da lista. “Não é segredo que gostaria de ver Portugal modernizar a sua frota de caças e adquirir o F-35“, reconhece. “Portugal desempenha um papel fundamental na segurança regional e é altura de modernizar e reforçar a frota com o único caça de quinta geração disponível.”
Arrigo tem sido um dos porta-vozes da campanha da incumbente Lockheed Martin na corrida contra os Gripen da sueca Saab e os Typhoon do consórcio Eurofighter para substituir os F-16 que estão em fim de vida. “Acredito que a aquisição do F-35 traz benefícios reais para o povo português”, explica o embaixador ao ECO. “Irá criar empregos qualificados e bem remunerados e, ao mesmo tempo, fazer crescer a base industrial de defesa de Portugal, e isto vai além de Portugal, irá reforçar o poder aéreo coletivo da NATO.”
Mas não é só no ar que o embaixador vê oportunidades na relação transatlântica. “Gostaria também de reduzir o nosso défice comercial“, aponta, salientando que este já está a diminuir em 2026 e que é importante tentar equilibrar estes fluxos comerciais.
“Quero ver mais investimento português a dirigir-se para os Estados Unidos; afinal, é lá que as startups e empresas portuguesas crescem”, vinca Arrigo. Para o tráfego inverso, no entanto, pede que Portugal altere alguns do fatores de contexto. “Para as empresas norte-americanas que procuram exportar e investir aqui, adoraria reduzir a burocracia, ver leis como a de controlo de investimentos que protejam as infraestruturas críticas e os setores tecnológicos de Portugal, e garantir que os vossos sistemas utilizem fornecedores de confiança.”
O diplomata espera ainda que Portugal proteja a sua “fantástica” investigação e inovação. “Todos os dias vejo novas iniciativas de I&D que ligam investigadores portugueses e norte-americanos, muitas vezes em áreas com potencial de dupla utilização, e é simplesmente uma questão de bom senso garantir que dispomos dos processos necessários para proteger o nosso conhecimento de ponta”.
As coisas nem sempre avançam tão depressa como eu gostaria, seja para abrir uma conta bancária, alugar um apartamento ou obter licenças para expandir a empresa. Se Portugal conseguir que as coisas avancem a um ritmo adequado, o céu é o limite para este país incrível.
A prossecução desses objetivos mantém Arrigo ocupado e há sempre mais uma reunião ou evento na agenda. “Não tenho jogado tanto golfe como esperava”, reconhece, mas o lamento sobre o hobby favorito é curto. “Mas não faz mal, não vim para Portugal para jogar golfe, vim para cá para trabalhar e tem sido incrivelmente gratificante.”
Ainda assim, diz que, com a esposa, tem gostado imenso de conhecer o país. Já visitaram os Açores duas vezes, onde se situa o consulado dos EUA mais antigo do mundo ainda em funcionamento contínuo. “Adoro o Porto e passei bastante tempo no Algarve e na Comporta este verão”, revela, acrescentando que há muito que ainda quer ver, especialmente algumas das cidades e regiões mais pequenas de Portugal.
Arrigo reconhece que tal como qualquer pessoa que vive num novo país, também teve de se adaptar a alguma burocracia.
“As coisas nem sempre avançam tão depressa como eu gostaria, seja para abrir uma conta bancária, alugar um apartamento ou obter licenças para expandir a empresa”, critica. “Se Portugal conseguir que as coisas avancem a um ritmo adequado, o céu é o limite para este país incrível”. Revelando os dotes diplomáticos, salienta que cada lugar tem a sua própria maneira de fazer as coisas, e isso faz parte da experiência.
O embaixador dos EUA em Portugal, John Arrigo.
DR
Um “foodie” em Lisboa
Regressando ao tom elogioso, diz que o povo português foi uma das razões pelas quais quis vir para o país. “São incrivelmente acolhedores e isso faz-me lembrar muito as minhas próprias origens, centradas na família.”
Arrigo faz um desvio para enaltecer a história “incrível” de Portugal, desde a era dos Descobrimentos até aos setores tecnológicos e de startups em crescimento dos dias de hoje, que diz revelar um espírito de curiosidade e inovação, mas volta à questão das pessoas. “Reparei noutra coisa: por vezes, pode haver uma cautela ou hesitação inicial em assumir riscos, mas assim que essa barreira é ultrapassada, as pessoas aqui destacam-se verdadeiramente”, partilha.
Além do foco na família, diz que valoriza também a importância da comida na cultura portuguesa. “Por acaso, essas são duas das minhas coisas favoritas“, comenta o ex-empresário, que já partilhou vídeos de visitas a mercados e que regularmente cozinha para a equipa mais próxima depois de receções na embaixada. É um “foodie“, diz uma pessoa dessa equipa.
“Tenho-me divertido imenso a descobrir a cozinha portuguesa e até a tentar cozinhar alguns pratos locais”, diz, antes de explicar a lógica de uma tendência migratória nos últimos anos. “É fácil perceber por que razão cada vez mais americanos optam por visitar ou mesmo ficar aqui.”
