Da Itália aos EUA, restaurantes e outros estabelecimentos estão declarando guerra aos influencers

🗓️ 2026-08-29 📁 world-news 📝 ⏱️ 👁️ : -
NO OLHO DA RUA - Advertência em restaurante espanhol: país lidera a revolta
NO OLHO DA RUA - Advertência em restaurante espanhol: país lidera a revolta (@guachinchecasaaguere/Instagram)

Continua após publicidade

Ler Resumo

A placa pendurada na porta de um aprazível restaurante no Sul da Itália faz uma advertência nada convidativa: “Aqui os influencers não podem entrar (aceitam-se pessoas, não personagens)”. Com a mensagem em tom sarcástico, a pizzaria L’Evoluzione — localizada na cidade de Catânia, na Sicília — enuncia uma determinação séria e cada vez mais frequente em restaurantes e outros estabelecimentos ao redor do mundo: a decisão de declarar guerra à categoria que simboliza, para o bem e para o mal, o poder de sedução das redes sociais. Do deslumbramento inicial com sua capacidade aparentemente mágica de transformar até rotinas vazias em milhões de seguidores, os influenciadores digitais aos poucos foram se convertendo em figurinhas inconvenientes e indesejadas para esses negócios.

Os motivos da ira contra os reis das curtidas são inúmeros. Vão do mal-estar que eles causam a outros clientes, pelo modo expansivo com que fazem gravações, falando alto e espalhando equipamentos pelo salão, até uma chateação mais periclitante: o hábito de dar “carteirada”, exigindo consumir tudo de graça em nome de sua fama e capacidade de divulgar — ou arruinar — as casas eleitas como “vítimas”.

INDIGNADOS O italiano Scandurra (à esq.) e loja americana: “criadores de conteúdo” fazem bagunça e dão calote na conta
INDIGNADOS O italiano Scandurra (à esq.) e loja americana: “criadores de conteúdo” fazem bagunça e dão calote na conta (Reprodução; @fourwindscraftguild/Instagram)

Que o diga o chef da pizzaria siciliana em questão, Lele Scandurra. Ao explicar a decisão radical de bani-los dali, ele relatou que meses atrás trocou mensagens com um famoso influencer. O “criador de conteúdo” lhe disse que gostaria de experimentar a comida do então recém-aberto estabelecimento. Apareceu lá numa noite de sábado e logo pediu sugestões a Scandurra sobre quais pizzas do menu seriam mais “instagramáveis”. Junto de um acompanhante, consumiu uma refeição completa, com sobremesa e bebidas. Terminado o banquete, a dupla se levantou, elogiou a comida e prometeu fazer postagens com as imagens gravadas no local — mas foi ligeira em deixar o restaurante sem pagar.

Continua após a publicidade

Indignado, Scandurra mais tarde desabafou: “Para mim, isso não é postura. Estávamos nos primeiros meses de abertura, tínhamos muitas despesas e precisávamos faturar”. Além do calote, os tão prometidos vídeos de divulgação não vieram. “O que me deixou profundamente chateado foi ele ter dado como certo que eu lhe daria o jantar de presente”, diz o chef.

A fúria do pizzaiolo italiano viralizou — que doce ironia — nas mesmas redes. Sua reação está longe de ser isolada. Uma notável onda de rejeição aos influencers vem ganhando volume pelo mundo (embora ainda não tenha aportado no Brasil com a mesma força). Restaurantes espanhóis lideram o movimento, com placas de “Proibida a entrada de influencers” ou “Influencers não são bem-­vindos” e até usando seus perfis na internet para informar que não trocam comida de graça por supostas avaliações positivas. Foi o que fez o recém-inaugurado restaurante de massas Pastifizzio, em Valladolid. “Acreditamos que uma avaliação tem mais valor quando surge de forma espontânea, sem um convite por trás. Não trocamos comida por publicações ou opiniões”, explicou o estabelecimento em um post.

Continua após a publicidade

INCONVENIENTES - Cena típica em restaurante: publicidade vazia
INCONVENIENTES - Cena típica em restaurante: publicidade vazia (People Images/Getty Images)

Não demorou para que um chef renomado mundialmente assumisse a liderança da revolta. O britânico Jeremy King, lendário restaurateur de Londres, anunciou a decisão de banir influencers de suas casas diante de uma série de episódios desagradáveis em seu estrelado The Park, na capital inglesa. O espaço com arquitetura e cardápio cheios de referências italianas e nova-iorquinas logo se tornou cenário concorrido para fotos e vídeos, em vez de apenas um lugar para uma sagrada refeição. “A escadaria era um local particularmente popular e, às vezes, havia dois grupos disputando a melhor posição ao mesmo tempo”, escreveu King em um artigo ruidoso publicado no jornal The Evening Standard. O banheiro se tornou outro ponto de encontro e registros, com influencers e suas equipes bloqueando a entrada do local e o utilizando como camarim, segundo o dono do restaurante — que chegou a barrar quem chegasse com grandes tripés e luzes de gravação.

Continua após a publicidade

O movimento começou com os restaurantes, mas já vai se expandindo para outras praias. Nos Estados Unidos, uma loja de artesanatos e antiguidades ganhou fama com a recente proibição de influencers no recinto. Instalada num popular destino litorâneo do verão americano, em Massachusetts, a loja Four Winds Craft Guild se incomodava por ter virado mero pano de fundo para fotos e vídeos de influenciadores — um uso que raramente traz retorno ao local. A medida despertou reações de expoentes da categoria nas redes. Por enquanto, em vão: a conta, enfim, parece ter chegado para os barrados no baile.

Publicado em VEJA de 28 de agosto de 2026, edição nº 3010

Publicidade