A subida aos montes na véspera, a “mordida” mais desejada e os 17 segundos de emoção. O eclipse solar total em Rio de Onor

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“Ainda vai dar para ver mais algum tempo”, diz outro viajante. Mesmo assim, há quem continue a subir os montes que ladeiam o pequeno vale de Rio de Onor para conseguir “mais uns minutinhos” de Sol. Não é a primeira vez que José, um aficionado dos astros nos seus tempos recreativos, visita Rio de Onor. Além de partilhar o entusiasmo pelos fenómenos astronómicos — que observou parcialmente nas últimas décadas —, relata o seu fascínio pelas particularidades da aldeia.

“Aqui, não se consideram nem portugueses nem espanhóis”, comenta. Na aldeia de xisto que, em 2017, foi eleita a 7.ª Maravilha de Portugal, portugueses e espanhóis coabitam em união. Quem por lá anda, entra em território do país vizinho sem dar por nada. As vizinhas conversam num castelhano perfeito mas pelas janelas abertas das casas, vê-se e escuta-se a emissão em direto do telejornal da RTP. Nas ruas estreitas, crianças que brincam à apanhada comunicam umas com as outras em castelhano, mas param para falar em português fluente com outros moradores.

Numa terra onde a fronteira “é um tracejado”, como explica José, centenas de visitantes estrangeiros foram recebidos de braços abertos. O parque de campismo de Rio de Onor estava cheio na véspera do eclipse e a fila de carros estacionados ultrapassava os limites da aldeia: antes da placa indicativa de chegada, amontoavam-se à beira da estrada os veículos com matrículas portuguesas, espanholas ou francesas.

Nas tendas, cafés ou no bar, o tema das conversas rondava sempre o eclipse, e o mesmo aconteceu na cidade de Bragança. Na véspera, a população juntou-se no Teatro Municipal para assistir a uma sessão de palestras sobre astronomia, arte e a vida no Espaço, protagonizada pelo astrónomo e comissário nacional do Eclipse 2026, Pedro Mota Machado, pelo poeta Rui Lage e ainda pelo diretor de operações do módulo europeu da Estação Espacial Internacional, João Lousada. Durante duas horas e com “casa cheia”, tornou-se claro que Bragança era, de facto, a “capital do eclipse”, como cunhada pela presidente da Câmara, Isabel Ferreira.

Um Sol (e o entusiasmo) em crescente antes da escuridão

Na tarde do eclipse, todos esperavam a “mordida”, o momento em que a Lua se começaria a impor sobre o Sol. Poucos segundos após as 18h35, foi essa a palavra ouvida vinda detrás de um telescópio volumoso. “Temos mordida” — e era finalmente altura de, num frenesim, todos colocarem os óculos nos olhos. Júlia veio dos Estados Unidos para isso.

“Estive em Brooklyn no eclipse de 2024. Não foi total, foi quase, mas foi emocionante ver uma cidade como Nova Iorque a parar, durante breves momentos, para olhar para o Sol”, relata. Quando descobriu por um amigo em Maiorca que iria haver uma ocultação do Sol na Península Ibérica, decidiu que ia assistir ao eclipse total. Veio visitar a mãe que vive em Valença, mas levou-a para passar algumas noites em Bragança. “Olhei para os dados da NASA e este é o melhor sítio no país para ver”, explica ao Observador.

Deixou a mãe entusiasmada para ver o que a natureza tem para lhe oferecer e, à margem da multidão, sentam-se numa rocha rodeada por silvas a observar o Sol e também as pessoas. A poucos metros, um casal neerlandês confessa ter sido apanhado de surpresa pelo eclipse que, “felizmente”, coincidiu com as suas férias no norte de Portugal. “Felizmente, eu trago sempre o meu equipamento de fotografia comigo. Adoro estas coisas”, partilha Jan, enquanto mostra algumas fotografias que a sua câmara, com filtro solar equipado e uma pintura camuflada, captou naqueles primeiros instantes de eclipse. Ao mesmo tempo, os especialistas da Ciência Viva mostram aos interessados o que os telescópios têm para revelar. “Está a andar mesmo rápido”, diz um deles.

Fátima partilha que não foi fácil estar presente no melhor ponto de observação do país. “Viemos de propósito do Porto para isto. Chegámos ontem, conseguimos um alojamento em Bragança em março e vimos a coisa preta, quando nos disseram que os acessos iam ser cortados”, confessa ao Observador. Para chegar a Rio de Onor, foi preciso passar por dezenas de checkpoints da GNR, que questionavam sempre o motivo da deslocação. Só pessoas com autorizações expressas ou residentes daquelas localidades é que podiam passar às barreiras impostas pelas autoridades, colocadas devido a um elevado risco de incêndio poucos dias antes do eclipse. “Ainda passámos pelo aeródromo, mas aquilo parecia um castigo. Por isso, fomos almoçar a Varge [localidade entre Bragança e Rio de Onor] e fomos falando com a polícia e pronto, aqui chegámos”, acrescenta. Em 1999, só viu o eclipse parcial e soube-lhe “a pouco”. Agora, espera que no momento da totalidade “fique tudo escuro”.