Daniel Candeias. "Farioli evolui defensivamente nos últimos anos."
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O baú do futebol português esconde vários segredos e tesouros bem valiosos. E em vésperas de clássico, a Rádio Observador foi a esse baú e andou à procura de alguém com quatro condições: um jogador português com passagens por Futebol Clube do Porto e Sporting Clube de Portugal e Benfica, e que tenha sido orientado por Marco Silva ou por Francesco Farioli. Encontrámos. Estamos ao telefone com Daniel Candeias, antigo jogador de futebol. Terminou a carreira na temporada transata ao serviço da Associação Académica de Coimbra, organismo autónomo de futebol. Ao longo das últimas duas décadas, Daniel Candeias passou no clube da Cidade Invicta, ainda nas camadas jovens. Foi contratado pelo Benfica em 2014, mas teve sucessivos empréstimos ao longo dos três anos seguintes. Um deles foi ao Alanyaspor, o emblema turco, na altura, em 2016/2017, orientado por Francesco Farioli. Daniel, mais uma vez, muito obrigado por esta entrevista à Rádio Observador. Portugal, Espanha, França, Alemanha, Turquia. Creio que não estou a falhar nenhum país. É uma carreira que terminou na temporada passada com essa subida da Académica à Segunda Divisão Nacional, mas é uma carreira recheada de experiências além-fronteiras e, acima de tudo, muitas histórias para contar.
Sim, já agora, boa tarde. Obrigado pelo convite. Sim, foram muitas mudanças. Quando se tem contrato com clubes grandes, mais na minha altura era muitos empréstimos, algo que o jogador às vezes não gosta muito, porque não se consegue estabilizar num sítio e precisamos sempre de mais algum tempo para nos estabilizarmos, mas foram experiências enriquecedoras para a minha carreira, da qual me orgulho muito e que foi sempre com o maior profissionalismo que encarei essas aventuras.
E um beirão natural de Fornos de Algodres, olhando para trás para estas duas décadas, passando por momentos bastante emblemáticos, essa passagem pelo Nacional da Madeira naquela época 2013/2014, também outras passagens, concretamente pelo Alanyaspor, do Francesco Farioli, já lá vamos, mas também olhando para estas duas décadas, um beirão de Fornos de Algodres, que balanço faz destes dois dígitos, neste caso, 20 anos de carreira?
Faço um balanço muito positivo, porque quando saí de casa tinha esse sonho, mas nunca pensei que ia chegar onde cheguei, ter a carreira que tive. E ser do interior muitas vezes não é fácil chegarmos a concretizar, se calhar, os sonhos, mas na altura os meus pais, agradeço imenso, porque não é fácil uma criança de 13 anos sair de casa e ir à procura desse sonho, e era esse o sonho que eu tinha. Graças a Deus consegui. Trabalhei para isso, mas também é preciso sorte, é preciso oportunidades, o que na minha altura não era tão fácil como agora, que eu acho que agora está muito mais fácil para os jovens, mas acho que foi o meu desejo, o meu querer, a minha vontade e principalmente o meu profissionalismo que me levou onde eu cheguei.
E foi concretamente, neste caso, na época 2002/2003, que o Daniel se muda de Fornos para o Futebol Clube do Porto, na altura no sub-15. Pergunto-lhe como é que, neste caso, aquela vivência toda na Cidade Invicta, essa mudança e essa distância logo numa idade tão embrionária e, acima de tudo, a mística e muitas vezes os valores que são tão falados quando um atleta está no Futebol Clube do Porto. Como é que viveu esses anos e como é que assimilou todos esses valores do emblema azul e branco?
Sim, como eu disse, no início não foi fácil. O primeiro mês talvez tenha sido o mais difícil. Depois começamos a fazer amizades, porque vivíamos muitos jogadores de longe juntos na Casa Dragão. E isso também me ajudou, porque estávamos todos na mesma situação.
Que jogadores é que apanhou, por exemplo?
Tive um que, por exemplo, o Fausto Lourenço, que agora é adjunto do mister António Barbosa.
Na Académica.
Que foi desde sempre o primeiro que nós ficamos com uma grande amizade desde aí e brincámos com isso o ano passado e muitos outros, Divanildo também, Márcio Sousa também. Mas foram tempos que me fizeram crescer e depois tu entras num clube como o Porto, começas a sentir a mística e eu passei dos melhores momentos na altura do Porto, que é se ganha a Liga Europa, depois a Liga dos Campeões, e isso começa a entrar em ti e aquela paixão, aquele desejo de querer sempre ganhar, entra em ti e acho que foi isso também que levei sempre na minha carreira.
E esses momentos mais de destaque, de conquistas, concretamente conquistas europeias, pela mão do atual presidente do Futebol Clube do Porto, André Villas-Boas, sentia-se muito nos treinos e também em outros jogos das camadas mais jovens, essa mística que já trazia, por exemplo, o atual presidente dos azuis e brancos?
Sim, acho que quando entras num clube como o Porto, tu começas a sentir essa mística porque tens que ganhar e isso sente-se em cada treino, em cada jogo, até um jogo de treino. Acho que isso começa a entrar logo nos mais novos e depois começas a habituar-te a ganhar e isso, habituar a ganhar, é o que toda a gente quer.
Voltando a centrar atenções no seu percurso enquanto jogador de futebol profissional, destacou-se concretamente no Nacional da Madeira. Houve essa passagem muito positiva pelo emblema insular, que dá azo a essa transferência em 2014, novamente para uma equipa dita grande, neste caso para o Benfica. Pergunto-lhe como é que se deu essa transferência e já agora, até porque como há pouco referiu, houve quatro empréstimos durante esses mais ou menos três anos. Como é que foi lidar com essas quatro deslocações para fora do país, numa altura em que o Benfica era orientado por Jorge Jesus?
Sim, como eu disse no início, acho que a estabilidade foi sempre importante para o jogador e eu, quando fui para o Nacional, tive essa estabilidade. É um clube também que me diz muito. Consegui afirmar-me na Liga Portuguesa. Era um dos objetivos e acho que é o objetivo de cada jogador em Portugal chegar à Primeira Liga e assentar na Primeira Liga. O Nacional deu-me essa estabilidade e depois de acabar contrato, começaram a aparecer muitos clubes, eu tinha várias opções. Optei, na altura, pelo Benfica, porque senti da parte deles que me queriam, mas claro que se sabia para aquilo que seria, talvez tivesse tomado outra opção, mas são opções que não nos podemos arrepender, foi o que foi. E depois, claro, ser emprestado não me entrava muito bem e tive para sair mais cedo. Estive na Rússia para ser vendido para a Rússia e as coisas não andaram. Então depois apareceu o Rangers do Mister Pedro Caixinha, que tentou me levar sempre onde ele esteve e isso vou lhe ficar eternamente agradecido, porque levou-me para um grande clube e é um clube que me diz muito, como o Rangers, e acho que foi a melhor decisão.
Sim. E o que é que, neste caso, apesar de ter estado várias vezes emprestado, concretamente, por exemplo, essas boas memórias na Escócia ao serviço do Rangers, certamente se recordou de todo o ambiente que vivia o clube da Luz, principalmente em período de pré-época. Muitas vezes esses períodos antes da temporada eram feitos além-fronteiras, como por exemplo, na Suíça, em França, sempre países com muitos adeptos benfiquistas. Pergunto-lhe como é que viveu, apesar de escassos momentos com a águia ao peito, como é que se sentiu e que memórias traz de, neste caso, estar ao serviço do Benfica?
Traz-me boas memórias. Eu não me arrependo das escolhas que fiz. Foram momentos que vão ficar comigo, na minha memória. Claro que o Benfica é um grande clube, isso ninguém tem dúvidas, e foi uma experiência positiva. Apesar de não ser positivo de ter jogado muitas vezes, ter feito só uma pré-época, serviu-me de lição para muitos momentos mais à frente e fez-me crescer. Por isso foi uma passagem, como disse, bem rápida e da qual vão ficar momentos bons com alguns companheiros e isso é o que fica.
Um desses empréstimos, como já referimos inicialmente nesta entrevista, foi para a Turquia. Neste caso, um país onde o Daniel esteve, creio eu, cinco temporadas, neste caso seis, com esse empréstimo antes de ingressar no Rangers. Mas logo em 2016 e 2017, emprestado pelo Benfica ao Alanyaspor de Francesco Farioli.
Não, na altura ainda não era do Francesco. O Francesco veio depois, veio mais tarde.
Em 2021/2022?
Sim.
Também foi orientado em 2021/2022. Ok. Foi então já nesse período onde está no Rangers, depois vai novamente para a Turquia.
Para a Turquia e volto para o Alania a seguir e é quando o Mister Farioli também vem para o Alania.
E faz 41 jogos nessa temporada. Pergunto-lhe quem é Francesco Farioli para si.
Para mim é um grande treinador. Na Turquia, acho que foi dos melhores treinadores que tive, apesar da tenra idade dele, e já demonstrou no Porto. Quando ele veio para o Porto, eu sabia que estavam a escolher o treinador certo pela ambição que ele tinha, pelo desejo de ganhar, pela dinâmica que ele cria. Eu acho que fiquei contente de o ter no Porto.
E já agora, até porque Francesco Farioli está a ser analisado pela crítica portuguesa, naturalmente, nos últimos ano, mais ou menos ano e meio já. Que características é que destaca deste técnico transalpino que, neste caso, o Daniel apanhou ainda numa tenra idade, mas como já referiu, já se notava ali traços de sucesso no futuro.
Sim, eu notava que ele queria ir ao pormenor e que tinha grande capacidade pela intensidade que nos pedia. Levava tudo ao detalhe. Nós víamos que estava ali algo especial Claro que depois teve passagens por França, pela Holanda, que fizeram talvez mudar alguma coisa. Defensivamente, acho que melhorou bastante. Também não podemos comparar os campeonatos. A Turquia não é uma França, nós jogávamos muito mais no ataque e às vezes jogávamos num 3-4-3. Mas depende dos jogadores que ele tinha. Eu acho que ele agora defensivamente está muito melhor. E claro que com o tempo vai evoluir, como o futebol está sempre a evoluir e ele é um estudioso do futebol e eu acho que está a demonstrar isso aqui em Portugal.
E quando a crítica neste momento, e até porque um dos jogos que ficou já marcado nesta temporada foi a derrota do Futebol Clube do Porto frente ao Manchester City, a crítica dizia e referia muito que o Futebol Clube do Porto tinha poucas armas ofensivas e que Francesco Farioli era um treinador marcadamente defensivo, apesar de ter alguns homens de renome no ataque, o caso do Pepe, do William Gomes, o próprio Andrés Silva e Santiago Gimenez. Quando a crítica diz que Farioli é um técnico muito defensivo, o que é que o Daniel tem a dizer?
Eu não o via muito assim. Nós jogávamos muito no ataque e na pressão do adversário, interbola, criávamos muitas oportunidades. Nós tínhamos uma equipa extremamente ofensiva e se calhar defensivamente não éramos tão fortes, mas acho que a parte do ataque era incrível e dava grande liberdade aos jogadores, mas com compromisso. Foi o que eu disse antes, eu acho que ele defensivamente melhorou bastante daquilo que era.
Vamos entrar então com mais foco nesta partida da sétima jornada. O Futebol Clube do Porto recebe o Benfica no Estádio do Dragão. É um jogo que, neste caso, marca o início da temporada no que toca a jogos entre candidatos ao título. O Futebol Clube do Porto que ainda não perdeu nesta temporada. O Benfica, que joga hoje frente ao AC Milan, mas que ainda regista apenas um empate, neste caso, logo na jornada inaugural, frente ao Académico de Viseu. Eu pergunto-lhe quem é que, para si, entra melhor para este clássico?
Os dois estão a demonstrar que têm uma grande equipa e, como disse, ainda não perderam, apenas o Benfica tem um empate. Eu acho que as duas equipas neste momento estão num bom momento. Acho que vai ser um grande jogo. Vão se respeitar muito, porque nestes jogos ninguém quer errar, ninguém quer perder. Eu acho que vai ser um jogo equilibrado. Nestes jogos, como dizem, é sempre 50-50. Acho que vai ser um grande jogo de futebol, mas as duas equipas a respeitarem-se muito uma à outra.
Há um ano registou-se um empate a zero. Na altura, Francesco Farioli vinha já de uma vitória em Alvalade, com uma grande avalanche de resultados e exibições bastante positivas. Agora apanha um Benfica com um novo treinador, com novas dinâmicas, com outro tipo de jogadores que no ano passado se calhar não rendiam tanto e que agora estão a render muito mais, o caso de Gianluca Prestianni. Pergunto-lhe se Marco Silva e o regresso do técnico português ao futebol nacional pode ter o mesmo impacto de Farioli no ano passado.
Sim, eu acho que todos os treinadores têm uma ideia diferente e o Marco acho que vem com uma ideia diferente também, de bom futebol, e acho que disso precisamos também para o nosso campeonato. E claro que vai trazer outras coisas que o ano passado o Benfica não tinha, já o tem demonstrado. Tem jogadores com grande qualidade. O Porto acho que também tem um plantel com grande qualidade, conseguiu manter muito daquilo que era a sua base do ano passado.
É um trunfo para a revalidação do título, para o Futebol Clube do Porto, esse manter, neste caso, do núcleo duro?
Pode ser um ponto importante. Acho que quanto mais tempo jogar junto, mais tempo vais conhecendo. Se é o mesmo treinador, vais conhecendo melhor as ideias, vais conhecendo muito melhor os teus colegas de equipa. Isso pode ser uma vantagem. Agora, temos visto que o Benfica também está a subir de forma, mas eu acho que o Porto em casa também é sempre muito forte. A pressão que faz, a dinâmica que mete ao jogo é muito grande e acho que vai ser, como eu disse, um jogo muito bem disputado e acho que isso também será bom para o nosso campeonato.
Daniel, para terminar, e depois de termos feito esta pequena antevisão ao clássico de domingo, e até porque o Daniel terminou o campeonato no ano passado em grande festa em Coimbra, com essa subida da Briosa ao segundo escalão do futebol nacional, a Académica que até teve um bom arranque nesta temporada, três vitórias consecutivas. Pergunto-lhe, neste caso, quais são os seus planos para o futuro, se ambiciona continuar no ramo do futebol profissional, quer em outras funções, como treinador, como dirigente, quais são os seus planos para o futuro?
Sim, acabei de uma boa maneira. Acho que não fazia sentido continuar e baixar mais ainda, então decidi colocar o ponto final na minha carreira. Quero ficar ligado ao futebol, isso é um ponto que está bem vincado em mim, quero ficar dentro do futebol. Neste momento, há várias hipóteses. Agora estou a tirar um tempo para estar mais com a família e depois decidir o que vou realmente fazer. Tenho tirado alguns cursos e isso vai me abrir portas, certamente.
Daniel Candeias, mais uma vez, muito obrigado por esta entrevista, não só aqui uma espécie de balanço de duas décadas de carreira ao mais alto nível, mas também uma antevisão a esse primeiro grande jogo do campeonato, um Futebol Clube do Porto e Benfica, sétima jornada da Primeira Liga de futebol. Daniel, mais uma vez, muito obrigado por esta entrevista.
Obrigado.
Obrigado, viu?
Obrigado