Michael França discute os limites da escolha na Flip - 24/07/2026 - Ilustrada - Folha
As universidades brasileiras foram, por muito tempo, "um parque de diversões das elites". A definição é do economista Michael França, para quem a expansão do ensino superior e políticas como as cotas democratizaram o acesso às faculdades, mas não eliminaram as vantagens herdadas por quem nasceu nos estratos mais privilegiados da sociedade.
A provocação abriu a mesa que reuniu França e a jornalista da Folha Angela Boldrini, mediada pela repórter especial Flavia Lima, na Casa Folha, na Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip, nesta sexta (24).
França afirmou que o ensino superior deixou de ser um espaço quase exclusivo da elite, mas que isso não bastou para igualar oportunidades. "Havia uma expectativa de que a universidade transformaria a vida. Essa geração saiu para o mercado de trabalho e encontrou várias barreiras inesperadas", disse.
Como exemplo, citou dois alunos da Universidade de São Paulo com desempenho semelhante —um filho da camada alta e outro do porteiro. O primeiro tende a largar na frente graças às redes de contato e ao capital social acumulado desde a infância.
Ele lembrou colegas de faculdade que ganharam carros ao serem aprovados no vestibular ou passaram anos viajando antes do primeiro emprego. "Tiravam sabático antes de trabalhar." A loteria do nascimento, portanto, continua pesando mesmo depois do diploma.
Ao defender as cotas, França disse que elas buscam reduzir vantagens acumuladas antes da universidade. Se um estudante beneficiado por todas as oportunidades perde uma vaga para um cotista, isso significa apenas que foi superado por alguém que enfrentou muito mais obstáculos, disse.
O economista também contestou a ideia de que a educação, sozinha, resolveria as desigualdades brasileiras. "Muitas pessoas acreditam que ela é a bala de prata, mas ela tem um certo limite." Para ele, o país também precisa enfrentar distorções tributárias e a forma como distribui recursos públicos.
A desigualdade apareceu novamente quando o debate migrou para o aborto. Boldrini afirmou que a discussão costuma ser reduzida a um embate moral, embora interesses econômicos e demográficos também tenham moldado historicamente as restrições ao procedimento, da Mesopotâmia à União Soviética, até desembocar no discurso pró-natalista adotado por setores da extrema direita.
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Ela defendeu que o tema seja pensado pela lente da justiça reprodutiva, conceito formulado pelo feminismo negro americano que reúne três direitos —não ter filhos, tê-los e criá-los em condições dignas. Era uma pauta diferente daquela levantada pelas feministas brancas, mais focadas no direito de não ser mãe, caso a mulher assim deseje.
"Se a escolha é ter mais um filho e passar fome, ou não ter um filho, ela não é uma escolha de verdade."
Boldrini lamentou que o debate tenha se tornado um "bicho-papão eleitoral", como se fosse possível reduzir um tema tão nuançado a ser contra ou a favor do aborto. "No chão, no procedimento, as coisas são muito mais complexas do que isso", disse.