Vorcaro omitiu que pagaria filme de Bolsonaro, diz delator - 16/10/2026 - Política - Folha

🗓️ 2026-10-17 📁 world-news 📝 ⏱️ 👁️ : -

O empresário Antônio Carlos Freixo Júnior, conhecido como Mineiro, disse à Polícia Federal, em delação premiada, que não foi informado por Daniel Vorcaro, do Banco Master, de que transferências a um fundo dos Estados Unidos seriam usadas para bancar o filme Dark Horse, sobre a biografia do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

Um dos responsáveis por fazer remessas financeiras e conseguir dinheiro vivo para o dono do Master, Mineiro afirmou que não teve contato com autoridades políticas na operação, como o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato a presidente. Disse ainda que tentou, sem sucesso, recuperar o investimento quando descobriu o destino.

A PF pondera que há aparentes contradições entre o que diz Mineiro e documentos obtidos na investigação. O órgão pediu ao STF (Supremo Tribunal Federal) mais 90 dias para aprofundar a análise.

Como mostrou o site The Intercept Brasil, Flávio negociou diretamente com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro o repasse.

Em depoimento à PF, Mineiro afirmou que a operação foi apresentada como oportunidade de investir em fundo voltado ao desenvolvimento de empreendimentos imobiliários nos Estados Unidos, especialmente nos estados do Texas e da Flórida, associado a empresa de Paulo Calixto, advogado ligado ao ex-deputado Eduardo Bolsonaro.

Ainda declarou que "em momento algum lhe foi informado que os recursos se destinavam ao financiamento de um filme ou cinebiografia". Mineiro disse à PF que não aceitaria participar de uma operação "com esse viés em razão do elevado risco reputacional para seu portfólio de empresas".

O depoimento foi dado em 1º de outubro. Ele disse que a demanda para transferir US$ 12,3 milhões (cerca de R$ 62 milhões) ao exterior partiu de Fabiano Zettel e foi confirmada por Vorcaro. Segundo a PF, a previsão era de repassar ao filme, no total, US$ 24 milhões (cerca de R$ 134 milhões).

Mineiro fez os repasses por meio da Entre Investimentos para o fundo Havengate, que é administrado por Paulo Calixto. O delator disse que soube do "verdadeiro propósito do fundo e da destinação dos recursos" por informações divulgadas pela imprensa. Também declarou que pediu o "resgate integral dos valores" transferidos e a apresentação do balancete demonstrativo dos investimentos do fundo, mas não obteve resposta dos gestores.

O delator afirmou que os aportes foram custeados por saques da conta garantida no Banco Master, venda de ativos e caixa próprio.

A PF afirma que, em análise preliminar, os documentos confirmam os valores e instituições envolvidas, mas que existem "pontos que divergem do depoimento ou que merecem aprofundamento". Os investigadores destacam, entre outras divergências, que há uma carta-acordo dirigida à Entre Investimentos que estabelece compromisso de aporte de US$ 24 milhões e menciona a produção de um filme.

A PF também afirma que, segundo planilha de controle dos repasses, o primeiro aporte não foi custeado por saque da conta garantida no Banco Master ou outras fontes declaradas por Mineiro. Na véspera da primeira remessa, a conta da Entre recebeu depósito de R$ 12 milhões da Super Empreendimentos, segundo a polícia.

Os investigadores também mencionam fragilidades em documentos de comprovação dos pagamentos. Citam a ausência de papéis de parte das remessas, entre outros pontos.

Procurados, a campanha de Flávio, a assessoria de Vorcaro e Calixto ainda não se manifestaram.

A PF também afirma que os documentos analisados "não permitem identificar as contas bancárias de origem dos recursos remetidos pela Go UP", produtora do filme, "limitando-se à demonstração dos valores ingressados, das contas beneficiárias e das características das operações de câmbio realizadas".