Demandas externa e interna seguram preço da arroba de boi - 13/10/2026 - Vaivém - Folha
As exportações de carne bovina de setembro caíram para 229 mil toneladas, 35% a menos do que em igual período de 2025. As compras da China despencaram para 13 mil toneladas, 93% a menos no mesmo período. Os números deveriam indicar uma retração nos preços da carne, mas não é o que acontece. Há alta tanto no mercado externo como no interno. O boi mantém uma escalada de preços, com o valor da arroba próximo de R$ 380, segundo dados do Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada). E há quem aposte nos R$ 400.
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Thiago Bernardino de Carvalho, pesquisador do Cepea, aponta vários motivos para essa alta. A oferta de animais para abate está enxuta. Há uma elevação no valor do bezerro, e os pecuaristas reservam fêmeas para a cria. Sem elas, embora o percentual de machos nos abates seja de 60%, há uma elevação dos preços da arroba. O consumidor não deverá ver muito alívio nos preços dessa proteína nos próximos meses.
Os confinamentos têm menos animais do que em igual período dos anos de 2025 e 2024, o que ajuda a reduzir ainda mais a oferta. Se os frigoríficos têm menos animais à disposição, a demanda continua aquecida, segundo Carvalho. Mesmo com a saída da China do mercado, a demanda externa pela carne brasileira continua elevada, uma vez que supera 195 mil toneladas exportadas por mês. Outro fator de pressão são as exportações de animais vivos, em patamar recorde até setembro. Pelo ritmo atual, as vendas externas de gado em pé devem ficar entre 1,3 milhão e 1,4 milhão de animais, segundo o pesquisador. São exportados vacas prenhes, bezerros e boi magro.
A China diminuiu muito a presença no mercado brasileiro nos dois últimos meses, mas o país asiático já está negociando os novos contratos para a entrega de carne em janeiro de 2027, sem a cota extra de 55%. Essa procura chinesa faz com que os frigoríficos busquem animais prontos no campo. Afinal, diz o pesquisador, o Brasil é o único com uma boa capacidade de oferta de carne bovina no mercado internacional.
A China diminui o ritmo de compras, mas os Estados Unidos aumentam a presença no mercado brasileiro. No mês passado, os americanos compraram 48 mil toneladas, 37% a mais do que há um ano. No entanto, não é só a demanda externa que movimenta o mercado. Boa parte da população brasileira está endividada, mas ainda prefere a carne bovina, o que dá sustentação aos preços. A arroba atinge valores nominais recordes no pasto, e o aumento chega também ao atacado. O kg da carcaça casada, um indicador para mostrar o valor médio do kg das peças de traseiro, dianteiro e ponta de agulha, grande parte do que o animal tem de carne, já supera R$ 25. Na média mensal de setembro, é o maior valor deflacionado desde 2020, quando se iniciou o boom das compras chinesas.
No ritmo atual, o boi poderá chegar aos R$ 400 por arroba, e o mercado futuro já aponta para R$ 388. Quando o pecuarista tem a sensação de alta, ele endurece a negociação com a indústria, e há um cenário de queda de braço entre os dois. O problema, alerta o pesquisador, é saber se o consumidor brasileiro consegue comprar carne com um boi a R$ 400 a arroba e se o apetite externo vai continuar. Além disso, Turquia, Líbano e outros importadores de gado vivo poderão pagar por essa alta de preço no setor?
Uma redução do câmbio para R$ 5 por dólar leva a arroba a US$ 80, um patamar nunca atingido. "Eu acredito que a arroba chegue aos R$ 400, sim, mas temos uma trava, aí. Vai depender muito do apetite contínuo externo e como brasileiro vai encarar essa virada de ano", afirma Carvalho.
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