Depois do software, Índia corre atrás do chão de fábrica - 16/10/2026 - Economia - Folha
A Índia está à procura de seu chão de fábrica. O país que se tornou uma potência mundial em sistemas nas últimas décadas, exportando programadores e engenheiros para o Vale do Silício, nos Estados Unidos, agora tem que dar fim a uma lacuna básica de sua indústria. É preciso fabricar mais coisas.
O caminho das Índias para a manufatura percorre uma rota inversa àquela trilhada pela China, sua grande rival. Os chineses viraram o tabuleiro econômico do planeta ocupando fábricas, montando produtos baratos e até vendendo bonecos do Mickey dentro da própria Disney, tudo para absorver uma horda de centenas de milhões de trabalhadores que deixavam o campo.
De degrau em degrau, os chineses ergueram uma cadeia industrial que hoje chega aos carros elétricos, semicondutores, robôs e inteligência artificial. A Índia pulou boa parte dessa escada.
O país ganhou projeção internacional pelo conhecimento, tornou-se o escritório de serviços do planeta, especializado em tecnologia da informação e exportador de mentes ocupadas em pensar o mundo uma década à frente para empresas como Microsoft e IBM, entre outras.
No mundo dos bits, a Índia passou a vender software e serviços empresariais para qualquer lugar do globo sem ter de colocar uma única caixa dentro de um navio. Chegou o momento, porém, de descer dessa nuvem para a fábrica.
Os números do governo indiano mostram o tamanho do buraco que a indústria tem de preencher. Em 2025, 43% dos trabalhadores do país ainda estavam na agricultura, enquanto a manufatura empregava apenas 12% da população.
O governo tem reagido. As fábricas estão produzindo mais, mas ainda ocupam pouco espaço na economia indiana. A manufatura cresceu 10,7% no ano passado, mais que a economia como um todo. Mesmo assim, respondeu por apenas 15% da atividade econômica, praticamente a mesma participação de três anos atrás.
"Para passar de uma economia de US$ 5 trilhões nos próximos anos para US$ 30 trilhões até 2047, estamos conscientes de que precisaremos de mais capacidade de manufatura, injeção de tecnologia na nossa economia e qualificação da nossa população", diz Sudhakar Dalela, secretário de relações econômicas do Ministério das Relações Exteriores da Índia.
O plano não é abandonar aquilo que está indo bem, mas usar a capacidade tecnológica para construir o que ainda falta. Não se trata de trocar software por indústria, mas de encaixá-los dentro da mesma engrenagem.
Semicondutores são um exemplo claro. Mais do que trabalhar no desenho e desenvolvimento de chips, o país busca a etapa física da cadeia, o que exige fábricas, minérios, equipamentos, fornecedores, energia e bilhões em investimento.
"O foco central hoje está na transição direta para a fabricação de componentes eletrônicos e chips", diz Vaishali Sahni, diretora para América Latina e Oceania da Federação das Câmaras de Comércio e Indústria da Índia.
A resposta do primeiro-ministro, Narendra Modi, ao desafio veio na forma de um pacote de incentivos e desregulamentação. O governo criou programas de estímulo vinculados a aumento da produção e da venda de produtos fabricados em 14 setores estratégicos, como eletrônicos, automóveis e medicamentos.
Em março deste ano, mais um passo foi dado, com a criação de um programa que reservou cerca de US$ 4 bilhões para erguer cem parques industriais no "modelo plug and play". A ideia é entregar áreas pré-aprovadas com galpões prontos, energia, água, licenças rápidas e até moradia para os operários dentro de um complexo, para que empresas reduzam o tempo entre o anúncio do investimento e a saída do primeiro produto da esteira.
Com medidas como essa, a Índia quer abrir espaço para histórias como a já escrita pela Caplin Point Laboratories, fabricante de medicamentos especializada em genéricos.
O fundador da companhia, C.C. Paarthipan, é dono de uma trajetória que ilustra essa transformação. Nascido em uma vila rural pobre de Chennai, Paarthipan começou a trabalhar quando ainda era menino, ganhando o equivalente a US$ 2 (R$ 10) por mês.
Alguns anos depois, com US$ 50 no bolso, chamou três pessoas para ajudá-lo a abrir um negócio próprio. Era o embrião de uma fábrica de remédios, no início dos anos 1990. Em vez de disputar com produtos de marca, seu pequeno laboratório passou a produzir genéricos, principalmente injetáveis de baixo custo.
O crescimento foi explosivo. Quatro anos depois de abrir as portas, a Caplin Point abria seu capital na Bolsa da Índia. Hoje, Paarthipan comanda um grupo que emprega mais de 4.000 pessoas, a maioria jovens, fatura cerca de US$ 250 milhões por ano e exporta medicamentos para vários continentes, incluindo países da América do Sul. Em breve, chegará ao Brasil.
"Venho de uma família pobre, sei como a pobreza dói. Hoje posso estar rico, mas isso não significa que deva esquecer o passado. Acredito que seja possível fazer dinheiro com respeito", diz Paarthipan. "Fornecemos medicamentos genéricos de boa qualidade a preços acessíveis para a classe média e os mais pobres. Isso, por si só, é algo grandioso para nós."
A história de C.C. Paarthipan se mistura com a de um país que decidiu transformar a manufatura em política de Estado. Essa ofensiva ganhou uma marca ainda em 2014, com o "Make in India", política criada para atrair fábricas, investimentos e cadeias produtivas ao país.
O setor de medicamentos da Caplin Point está entre os 14 considerados estratégicos pelo programa, o qual inclui eletrônicos, equipamentos de informática, automóveis, baterias, painéis solares, telecomunicações, alimentos e eletrodomésticos, entre outros.
O tamanho da aposta já pode ser medido. Até o início de 2026, empresas beneficiadas pela iniciativa já tinham feito mais de US$ 25 bilhões em investimentos. O governo atribui ao programa a criação de 1,4 milhão de empregos diretos e indiretos, além de US$ 160 bilhões em exportações, desde a sua implantação.
São números de peso, mas que mostram o tamanho do desafio que o país tem pela frente. A meta é criar 8 milhões de empregos por ano. A industrialização, portanto, não é só uma escolha política. É caminho vital para a Índia.
A corrida para erguer linhas de montagem de semicondutores expõe um novo gargalo. Para fabricar eletrônicos, veículos elétricos e painéis solares em larga escala, não basta ter subsídios do governo e centenas de milhões de jovens dispostos a trabalhar. É preciso garantir o suprimento ininterrupto de matéria-prima, como minerais críticos. E é nessa etapa que o Brasil cruza o caminho indiano, tema que será tratado na próxima reportagem desta série.
A relação entre Brasil e Índia se estreita em um momento de forte comércio bilateral. A Índia já é o quinto maior destino das exportações brasileiras e o sétimo maior fornecedor do país. Em 2025, o comércio entre Brasil e Índia movimentou US$ 15,2 bilhões, com US$ 6,9 bilhões em exportações brasileiras e US$ 8,3 bilhões em importações, um déficit de US$ 1,5 bilhão para o Brasil.
Nos oito primeiros meses de 2026, houve uma virada. As trocas chegaram a US$ 12,5 bilhões, uma alta de 42% sobre o mesmo período do ano passado. As exportações brasileiras dobraram, chegando a US$ 7,3 bilhões, enquanto a compra de produtos indianos ficou estável, em US$ 5,2 bilhões. O movimento levou o Brasil a um superávit de US$ 2,2 bilhões, depois de ao menos seis anos de déficit com o país asiático.
Mais da metade do que o Brasil vende à Índia hoje é petróleo bruto. As commodities agrícolas e minerais dominam o restante da pauta. No sentido contrário, o Brasil compra medicamentos, produtos químicos, defensivos agrícolas, derivados de petróleo, autopeças e máquinas indianas.
"Com o Brasil, em particular, nossa parceria tem potencial de ser realmente muito robusta", diz o diplomata Sudhakar Dalela. "À medida que nos engajamos com o Brasil, sentimos que podemos fazer muito mais."
GERAÇÃO ÍNDIA
Este é o segundo de três capítulos da série que a Folha publica semanalmente sobre as ambições e os dilemas da economia indiana. Com a maior população jovem do mundo, a Índia enfrenta o desafio de transformar seu bônus demográfico em emprego, renda e desenvolvimento industrial. A série mostra os obstáculos para qualificar trabalhadores, ampliar a manufatura e garantir acesso a minerais estratégicos, além das oportunidades de parceria com o Brasil.