Do MB Way às burlas e à IA: o retrato de um Portugal cada vez mais digital, mas não necessariamente mais preparado
Os portugueses já levam o banco no bolso, pagam com o telemóvel e utilizam serviços financeiros digitais com frequência. Mas a velocidade com que o dinheiro passou para o ecrã parece estar a ultrapassar, em alguns casos, a capacidade para lidar com os riscos e a complexidade dessa transformação.
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Dois em cada três portugueses — 66% — afirmam ter sido alvo de pelo menos uma tentativa de fraude ou roubo relacionado com dinheiro durante os últimos 12 meses. Ao mesmo tempo, 34% sentem-se pouco ou nada confiantes para utilizar serviços financeiros digitais e proteger os próprios dados.
São duas das conclusões do Barómetro Doutor Finanças – Literacia Financeira Digital, realizado pelo Centro de Estudos Aplicados da Universidade Católica Portuguesa em colaboração com o Doutor Finanças, que procura perceber até que ponto os portugueses estão preparados para gerir o dinheiro num ambiente cada vez mais digital.
E digitalizado o país já está: 90% utilizam a internet diariamente e 94% têm um smartphone com acesso à internet. Quando chega a hora de gerir dinheiro, há mesmo uma pequena mudança simbólica na liderança: o MB Way, utilizado por 74% dos inquiridos nos últimos três meses, já ultrapassa a aplicação do banco ou o homebanking, usados por 73%. Seguem-se as compras online com cartão, com 61%, e os pagamentos com telemóvel, com 52%.
Dois em cada três já foram alvo de uma tentativa de fraude
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É na segurança que aparece uma das maiores contradições do estudo.
Dos 66% que dizem ter sido alvo de fraude ou tentativa de fraude no último ano, a maioria — 60% do total de inquiridos — não sofreu consequências. Mas 4% reportaram perda financeira e 2% chegaram a partilhar dados, embora sem perder dinheiro. Entre aqueles que efetivamente tiveram prejuízo financeiro, em 40% dos casos a perda ultrapassou os 200 euros.
A SMS falsa, ou smishing, é a modalidade individual mais referida, por 45% dos inquiridos, seguida do e-mail falso, ou phishing, com 27%, e das chamadas telefónicas fraudulentas, com 18%.
Curiosamente, são precisamente os portugueses que mais recorrem aos serviços financeiros digitais aqueles que mais relatam tentativas de fraude. Entre os utilizadores diários, 77% dizem ter sido alvo de pelo menos uma no último ano; entre aqueles que nunca usam estes serviços, a percentagem cai para 34%.
A exposição também nem sempre provoca uma reação. Entre quem foi vítima, apenas 47% apresentou queixa às autoridades competentes, 40% contactou o banco e 30% bloqueou cartões ou alterou palavras-passe. Quase um quarto — 23% — não fez nada. E apenas metade afirma ter mudado algum comportamento depois da tentativa de fraude.
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Quase metade já desistiu porque era demasiado complicado
O risco não é o único obstáculo. Há também um problema de utilização.
Quase metade dos portugueses, 47%, já desistiu de realizar uma operação financeira porque considerou o processo digital demasiado complexo. Para 38% aconteceu pontualmente, mas 9% dizem já ter passado pela situação várias vezes.
Entre os 14% que nunca ou raramente recorrem a serviços financeiros digitais, 42% preferem ser atendidos presencialmente e exatamente a mesma percentagem aponta a falta de confiança ou o medo de fraude. Outros 12% reconhecem simplesmente que não sabem utilizar estes serviços.
A idade pesa. A utilização diária de serviços financeiros digitais chega aos 64% entre os 25 e os 34 anos, mas cai para apenas 16% a partir dos 65 anos. Neste último grupo, 28% dizem nunca utilizar estes serviços.
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A escolaridade cria outra fronteira: só 14% dos portugueses que não completaram o 3.º ciclo utilizam diariamente serviços financeiros digitais, contra 49% entre quem concluiu o ensino superior.
Um em cada três não procura informação sobre dinheiro
O acesso à tecnologia também não significa necessariamente maior procura de informação financeira.
Mais de um terço dos portugueses, 36%, afirma não consumir conteúdos sobre dinheiro. Entre quem procura informação, os websites especializados, incluindo portais financeiros e jornais, lideram com 40%, à frente dos motores de pesquisa.
As diferenças sociais são particularmente expressivas: 79% daqueles que não completaram o 3.º ciclo não consomem conteúdos financeiros, assim como 66% das pessoas com rendimentos até 860 euros mensais. Quanto maiores são a escolaridade e o rendimento, maior tende a ser também a diversidade das fontes utilizadas.
As redes sociais já entram igualmente nas decisões. Um em cada quatro portugueses admite que aquilo que viu nestas plataformas influenciou a forma como lidou com o dinheiro nos últimos três meses: 12% aplicaram dicas de poupança ou orçamento, 7% ponderaram investimentos e 6% viram produtos financeiros.
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E a Inteligência Artificial? Quase metade ainda não confia
Há outra fronteira digital que os portugueses parecem atravessar com bastante mais cautela.
Quase metade, 48%, afirma não utilizar nem confiar em ferramentas de Inteligência Artificial para gerir assuntos financeiros. Entre aqueles que admitem recorrer ou confiar nestas tecnologias, a utilização mais aceite é explicar conceitos financeiros, referida por 44%.
Comparar produtos financeiros merece a confiança de 24%, detetar possíveis burlas de 18% e ajudar no orçamento familiar de 17%. Quando se chega a uma decisão potencialmente mais arriscada, a confiança desce: apenas 12% dizem confiar na IA para recomendar investimentos.
Também aqui existe uma divisão geracional e educativa. A confiança e utilização da IA para assuntos financeiros é maior entre os mais jovens e aumenta com a escolaridade, enquanto a desconfiança cresce progressivamente com a idade.
No conjunto, o barómetro descreve um país em que o problema já não parece ser colocar a tecnologia nas mãos das pessoas. Essa parte está, em grande medida, feita. O desafio passou para aquilo que acontece depois: perceber os serviços, distinguir uma mensagem legítima de uma burla, proteger os dados, procurar informação e saber até onde confiar nas novas ferramentas.
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Portugal pode já estar a gerir o dinheiro pelo ecrã. Os números mostram que aprender a fazê-lo com confiança e segurança continua a ser outra história.