Visão | Don’t be weird about this. Opinião da escritora Safaa Dib
As reações estranhas de todos nós, e as questões que serão levantadas de agora em diante, serão tão relevantes quanto as escolhas de Ocasio-Cortez: pode uma mulher solteira e sem filhos tornar-se Presidente?
Don’t be weird about this. São as recentes palavras de Alexandria Ocasio-Cortez, a famosa congressista norte-americana que conquistou inúmeros corações de uma América que luta desesperadamente por mudança. E se há país que mostrou que a mudança é possível, são os EUA que tanto elegem um Presidente protofascista, corrupto e narcisista que ameaça candidatar-se a um terceiro mandato como elegem um mayor de Nova Iorque muçulmano, e de origem africana e, pasme-se!, com medidas audazmente socialistas.
Essas palavras foram proferidas num vídeo nas redes sociais em que Ocasio-Cortez assumiu estar a iniciar o processo de congelamento de óvulos. Não só assumiu, como filmou um vídeo bastante pedagógico a explicar em que consiste o congelamento e como se processa etapa a etapa, sem esconder custos. É uma aprendizagem que partilha com uma audiência de milhões, expondo o mais íntimo e privado que pode existir na vida de uma mulher: o seu sistema reprodutivo e a vontade ou não de ter filhos. Ela detalha de forma extraordinária, sem receios de desbravar um tema ainda desconfortável para a sociedade. Ao dar esse passo, consegue controlar a narrativa, mas a sua privacidade continua a ser estilhaçada quando esta decisão está ligada à revelação forçada do seu estado civil: os jornais tabloides expõem que está solteira, após ter terminado a relação com um companheiro de longa data.
AOC, como é conhecida, continua a fazer política nos seus termos e condições, uma proeza admirável considerando que nos EUA os políticos são muitas vezes obrigados a arrastar as suas famílias para o palco político. Num país tão conservador, quantas mulheres políticas estão a ponderar candidatar-se à Presidência, sendo solteiras e com o projeto da maternidade por concretizar? Ainda assim, AOC não esconde as suas ambições políticas, mas é forçada a revelar o seu calendário reprodutivo. Ela sabe que o relógio biológico não joga a favor das mulheres e, por isso, toma esta decisão para que os calendários eleitorais não possam penalizar o seu desejo futuro de ter filhos. Infelizmente não é uma opção disponível para milhares de mulheres, tendo em conta que é um procedimento com enormes custos financeiros. Mas alguém duvida de que esta é também uma forma de expor as desigualdades de acesso?
Newsletter
Numa época em que a vida privada dos políticos muitas vezes é instrumentalizada pela agenda ideológica da extrema-direita, esta é uma jogada forte. Quem não se recorda há uns anos do comentário de J. D. Vance sobre childless cat ladies quando se referia a Kamala Harris ou AOC, como se as mulheres que escolhem não ter filhos fossem um problema por resolver? Como mulher a atuar no campo político progressista, AOC já não é a típica mulher que escolhe entre família e carreira, mas também admite que são questões que não se conciliam assim tão facilmente e sem tensões. Escolheu expor o seu corpo e fazer das suas escolhas reprodutivas uma questão pública, e de forma indireta acaba por apontar que o meio da política parece pertencer, por defeito, aos homens que não têm de se confrontar com o mesmo tipo de questões de parentalidade.
É desconfortável usar a nossa vida privada e íntima a favor da causa política em que acreditamos? Sim, definitivamente. Não tenho dúvidas de que a maioria das mulheres na política iria preferir separar as águas, e está no seu direito, mas para elas poderem ocupar o espaço político sem obedecer às regras tradicionais, terão mesmo de ir até ao limite e mostrar aquilo que os homens não mostram? É este o preço de entrada das mulheres na política?
É claro que as pessoas que assistem aos vídeos da AOC vão reagir de forma estranha e ela sabe disso. É claro que a sociedade e os média serão incapazes de resistir aos comentários sobre o seu corpo e as suas prioridades. Ela está perfeitamente consciente de que está a transformar o seu próprio corpo num território de combate político, em que ela dita as condições e não permite que sejam outros a deter o total controlo da narrativa. E as reações estranhas de todos nós, e as questões que serão levantadas de agora em diante, serão tão relevantes quanto as escolhas de Ocasio-Cortez: pode uma mulher solteira e sem filhos tornar-se Presidente? Ter filhos é incompatível com ambição política? Porque é que congelar óvulos ainda é um assunto tão desconfortável e considerado radical? E a questão mais importante de todas: Porque é que exigimos mais de uma mulher na política?
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.