Dos episódios de maus-tratos ao "mata-leão" fatal: a noite trágica que terminou com a morte de uma mãe em Algés às mãos do filho de 15 anos
O alerta para o crime durou a chegar. Foram cerca de 21 horas depois. Às 17:30 de quinta-feira, o jovem, filho da vítima, terá contactado as autoridades e confessado o que tinha acontecido. O que se descobriu a seguir, deu um novo rumo à investigação
Tudo começou com uma normal discussão entre mãe e filho. Mas o desfecho não poderia ter sido pior. Foi às 17:30 de quinta-feira que soaram os alarmes em Algés: um jovem de 15 anos era então suspeito de ter matado a própria mãe, uma mulher de 33 anos, dentro da residência onde a família vivia.
Depois de chegar ao local, o adolescente terá contado às autoridades que discutiu com a progenitora durante o dia anterior e que, durante a noite, lhe aplicou um golpe conhecido como “mata-leão”, uma manobra de estrangulamento que terá provocado a morte.
O corpo da mulher foi encontrado caído junto à entrada da habitação, aparentemente já sem vida desde a noite de quarta-feira.
21 horas até ao alerta
O alerta para o crime durou a chegar. Aconteceu apenas 21 horas depois. Às 17:30 de quinta-feira, o jovem, filho da vítima, terá contactado as autoridades e confessado o que tinha acontecido. Quando os meios chegaram ao local, o cenário não podia ser pior. A, aparentemente sem vida, encontrava-se acompanhada pelo adolescente que permaneceu na casa.
De imediato, a rua foi encerrada, tendo sido criado um perímetro de segurança, com elementos da PSP e da Polícia Judiciária no local. Técnicos do INEM foram também mobilizados para prestar apoio psicológico. Os meios de socorro e investigação permaneceram na zona durante várias horas, até ao cair da noite.
A família vivia naquele quarto andar, em Algés, há menos de dois meses. Vizinhos ouvidos no local descrevem uma família que conheciam apenas de vista e dizem nunca ter testemunhado comportamentos que levantassem suspeitas. Uma das vizinhas contou que via frequentemente a mãe à janela e que chegou a trocar alguns gestos de cumprimento com ela.
“Fiquei chocada. Ainda não consigo acreditar no que aconteceu”, contou uma vizinha em entrevista à CNN Portugal diante um cenário de grande alvoroço. “Só os conhecia de vista, porque se mudaram para aqui há pouco tempo. Cheguei a perguntar-lhes se eram brasileiros e disseram-me que sim. Via-a [a mãe], de vez em quando, à janela, e ela costumava cumprimentar-me. Por isso, o que aconteceu foi um choque.”
Criança de quatro anos no centro da investigação
Mas mãe e filho não eram os únicos elementos na residência no momento do crime. No número 26 de uma rua paralela à Avenida Marginal, em Algés, vivia também uma menina de apenas quatro anos, filha da vítima e irmã do suspeito, segundo uma confirmação da Polícia Judiciária.
"De acordo com as diligências efetuadas, obteve-se informação que para além do agressor e da vítima estava ainda na residência uma menina 4 anos, filha da vítima e irmã do agressor", revelou a força de segurança, um dia depois da descoberta, sem esclarecer se a menor assistiu ao crime.
Depois da chegada das autoridades, a menina foi retirada da habitação por psicólogos do INEM.
Durante as cerca de 21 horas que decorreram entre a morte e o alerta, o adolescente terá permanecido responsável pela irmã, tendo sido inclusivamente visto por vizinhos a passear de mão dada com a criança.
A situação da menina é agora uma das preocupações das autoridades, estando previsto acompanhamento psicológico e a necessidade de garantir estabilidade e figuras de segurança no período que se segue.
A investigação e os alegados maus-tratos
A investigação ganhou entretanto uma nova dimensão. Já esta sexta-feira, a Polícia Judiciária revelou que o contexto que antecedeu o homicídio estará relacionado com “eventuais maus-tratos físicos e psicológicos".
“O contexto que levou a ocorrência do crime estará relacionado com eventuais maus-tratos físicos e psicológicos mantidos pela vítima em relação aos dois filhos”, revela o comunicado a que a CNN Portugal teve acesso. “Foram efetuadas diligências de recolha de suporte probatório através do exame do local de ocorrência do crime e do respetivo cadáver”.
A PJ está a recolher elementos que permitam esclarecer essas circunstâncias, através do exame ao local e ao cadáver. A própria investigação procura agora determinar o que esteve na origem da discussão entre mãe e filho e perceber o contexto familiar em que ocorreu a morte.
A investigação confirma que a vítima, de 33 anos, foi “alvo de interação física agressiva e fatal mantida pelo próprio filho no interior da residência da família, vindo a falecer no local da ocorrência”.
O jovem, de nacionalidade estrangeira, foi identificado pela PJ por fortes indícios da prática de um crime de homicídio qualificado consumado. Por ter 15 anos, é inimputável criminalmente. Depois de não ter sido possível confiar a sua guarda a um familiar direto, pernoitou num centro educativo da Área Metropolitana de Lisboa.
Esta sexta-feira será presente às autoridades judiciárias junto do Tribunal de Família e Menores de Cascais, onde poderá ser aplicada uma medida tutelar educativa. A investigação continua, enquanto as autoridades procuram reconstruir o que aconteceu naquela casa entre a discussão, a morte da mulher e o momento em que, 21 horas depois, o alerta finalmente foi dado.