Duas pistas para detectar políticos desesperados

🗓️ 2026-08-28 📁 technology 📝 ⏱️ 👁️ : -

Durante longos anos em que éramos felizes mas não sabíamos, José Luís Carneiro e Mariana Leitão hibernaram numa obscuridade compatível com o seu talento político. Mas, a dada altura, por razões que permanecem misteriosas, o PS e a IL decidiram punir-se a si próprios (e punir-nos a nós) ao oferecer-lhes, numa cintilante bandeja de prata, a liderança dos respectivos partidos. Desde esse fatídico momento, José Luís Carneiro e Mariana Leitão têm-se arrastado pelo país, pelas televisões e pelas redes sociais à procura de reconhecimento (que não existe), de palmas (que não se ouvem) e de votos (que não aparecem). Imbuído de um patriótico sentido de serviço público, deixo aqui, para os mais distraídos, as duas pistas que podem ajudar qualquer eleitor a detectar um político desesperado.

Primeira pista: sabemos que estamos perante um político desesperado quando ele, ou ela, se faz filmar com “jovens”. Esta semana, José Luís Carneiro esteve a completar uma excitantíssima “Rota pelo Interior e Cooperação Transfronteiriça” e, a dada altura, decidiu gravar um vídeo durante o qual se sentava à mesa com seis “jovens”, todos acompanhados, claro, pela sua imperial. Temos de admitir que José Luís Carneiro se esforçou nesta tentativa de apelar ao voto “jovem”; mas também temos de reconhecer que fracassou espectacularmente. Esperando receber algumas reluzentes lições de sabedoria, um “jovem” de bigode perguntou-lhe: “Em 30 segundos, diga-nos três coisas que têm de mudar para um jovem poder escolher ficar no interior”. O líder do PS começou bem: “Primeiro, emprego. Segundo, salários dignos. Terceiro, habitação.” Depois, percebendo com pânico que ainda lhe sobravam 29 segundos, cometeu um erro terrível. Tinham-lhe pedido “três coisas”, mas ele arriscou uma quarta — e, aí, entrou num labirinto mental cheio de nuvens e fumo. “Quarto: capacidade e possibilidades para que o jovem possa realizar os seus sonhos nos territórios do interior. Onde haja oportunidades para poder empreender sobre não apenas a sua vida individual, mas que possa sentir que pode participar na construção do futuro coletivo.” Santo Deus nos acuda: José Luís Carneiro está à procura de “capacidade e possibilidades”; usa a palavra “sonhos”; e está convencido de que as pessoas comuns “empreendem sobre a sua vida individual”.

Logo depois, o mesmo jovem, arguto, lançou um desafio: “Imagine que tem de convencer um jovem de 25 anos que vive em Lisboa a mudar-se para estas zonas do interior e da fronteira de Portugal”. Animado, José Luís Carneiro optou por pregar sobre a “excelente qualidade de vida” nos “territórios do interior e de fronteira”. Com os olhos rútilos, enumerou: ali, é possível aproveitar os “recursos do território desde os recursos alimentares, do património, da história, da cultura, da identidade”. E todos esses recursos (preparem o Kleenex) “permitem, muitas das vezes, momentos plenos de felicidade”, especialmente, imagino eu, os subvalorizados “recursos alimentares”. Já sem quaisquer travões, o líder do PS avançou para os argumentos geográficos: “Nestes territórios de fronteira, estão mais próximos do centro da Europa, particularmente próximos do centro da Península Ibérica”. É inegável: saindo de Lisboa, por exemplo, para Elvas, um “jovem” fica duas horas e cinco minutos mais próximo do “centro da Europa”, apesar de ainda estar a mais de três mil quilómetros do verdadeiro centro da Europa, que como se sabe fica na aldeia de Purnuškės, na Lituânia. E é indiscutível: embarcando nessa aventura, o “jovem” imaginário de José Luís Carneiro fica “particularmente” mais “próximo do centro da Península Ibérica”. Vamos ver: sendo a Península Ibérica constituída por dois países, de facto alguém que viva na fronteira entre esses dois países está incontestavelmente mais próximo do centro do que se habitar numa das pontas.

Segunda pista: sabemos que estamos perante um político desesperado quando ele, ou ela, se faz fotografar com a família. Como se sabe, há políticos que, para conseguirem subir dois pontos nas sondagens, são capazes de vender a mãe (ou, quando a ambição se cruza com a boa vontade conjugal, a sogra). Mas nem sempre é necessário recorrer a medidas tão radicais. Há poucos dias, José Luís Carneiro publicou nas redes sociais uma selfie com a mulher e com os dois filhos acompanhada de uma declaração emocionada: “Dias de família. Dias bons, daqueles que nos lembram do que realmente importa. Foram dias muito felizes, vividos com tempo e presença com quem me dá força para continuar todos os dias: a minha família!” A este entusiasmado ponto de exclamação seguiu-se, como não podia deixar de ser, um emoji de um coração vermelho.

Também esta semana, Mariana Leitão apareceu cor-de-rosa ao lado das duas filhas. Segundo nos informam no artigo, “a presidente da Iniciativa Liberal abre à Lux uma janela para a mulher para lá da política”. Apresentando-se como uma portuguesa comum, Mariana Leitão confessa que “o maior desafio foi, e continua a ser, conciliar as exigências do trabalho político com a angústia de não falhar como mãe”. Todos sabemos como são estas coisas: “Há horas, dias e momentos que sacrifico à política e que não volto a ter”. Tempus fugit, como ensinavam os romanos. Mariana Leitão sofre: “Essa ausência pesa em mim todos os dias”. Mas há uma esperança brilhante que anima e estimula a presidente da IL: “Sei também que estou a construir algo que um dia as minhas filhas vão poder olhar e reconhecer que valeu a pena.”

Nesta longa conversa com a Lux, Mariana Leitão fala da sua infância, fala do tempo em que viveu nos Açores, fala do seu percurso no bridge, fala sobre as filhas e sobre o ex-marido, fala da sua entrada na IL — só não fala, estranhamente, da sua vida profissional. Os 13 anos em que trabalhou numa empresa da Sonangol, a petrolífera do regime angolano, não atravessaram esta “janela para a mulher para lá da política”.

O problema dos políticos desesperados é que querem parecer “jovens” mas não sabem falar com os “jovens”; e acabam sempre por exigir “respeito” pela sua vida privada, mas antes disso exibem sem reservas a sua vida privada. Com graça, Churchill dizia que “o melhor argumento contra a democracia é uma conversa de cinco minutos com um eleitor comum”. Felizmente para ele, nunca teve de suportar uma conversa de cinco minutos com José Luís Carneiro ou com Mariana Leitão. Desconsolado, nunca mais se apresentaria a eleições na vida.