Paula Gama: Dupla pressão: por que pneus chineses podem ficar mais caros no Brasil
Segundo a Abidip (Associação Brasileira dos Importadores e Distribuidores de Pneus), tufões recentes provocaram interrupções em terminais importantes, como Xangai e Ningbo, e agravaram um congestionamento que já atingia o transporte marítimo asiático. Além da alta do frete, importadores relatam dificuldade para encontrar espaço nos navios e contêineres disponíveis.
A associação afirma que empresas passaram a antecipar pedidos e reforçar estoques para tentar reduzir o risco de falta de produtos. O efeito das dificuldades nos embarques realizados agora tende a aparecer no Brasil nas próximas semanas.
"Até algumas semanas atrás, discutíamos principalmente o preço do frete. Agora, temos uma preocupação adicional: conseguir espaço e equipamento para embarcar", afirmou Ricardo Alípio, presidente da Abidip.
Imposto pode subir novamente
A pressão logística acontece justamente quando o setor se prepara para uma nova rodada da disputa pela tributação dos pneus estrangeiros.
Atualmente, pneus de automóveis importados de fora do Mercosul pagam alíquota de 25%. Esse percentual foi adotado em outubro de 2024, quando o imposto subiu de 16% para 25%, e acabou prorrogado pelo governo por mais 12 meses em setembro do ano passado. A medida, portanto, chega novamente ao fim em outubro.
Continua após a publicidadeA indústria instalada no Brasil quer aproveitar a nova discussão para conseguir o que não obteve nas rodadas anteriores: elevar a tarifa para 35%, teto consolidado pelo Brasil para esses produtos na OMC (Organização Mundial do Comércio).
O pedido é defendido pela Anip (Associação Nacional da Indústria de Pneumáticos), que representa fabricantes como Bridgestone, Continental, Dunlop, Goodyear, Michelin e Pirelli.
Em maio, a coluna mostrou que representantes dessas empresas haviam levado ao governo uma lista de medidas contra a expansão dos importados. Além do imposto de 35%, o setor pediu maior fiscalização ambiental, rapidez em medidas de defesa comercial e incentivos à compra de pneus produzidos no Brasil.
Na ocasião, a indústria alegava que alguns pneus estrangeiros chegavam ao país a preços inferiores até mesmo ao custo internacional de matérias-primas. Desde então, a "invasão" dos importados, para usar a expressão dos fabricantes nacionais, ganhou ainda mais força.
Importados já dominam reposição
No primeiro semestre de 2026, entraram no mercado brasileiro 27,2 milhões de pneus importados para automóveis, comerciais leves e veículos de carga, segundo dados divulgados pela Anip. O volume foi 81,2% maior que no mesmo período de 2025.
Continua após a publicidadeConsiderando também o fornecimento às montadoras, os importados já representaram 60% do mercado brasileiro, contra 40% dos pneus produzidos localmente.
A diferença é ainda maior na reposição, mercado que abastece lojas, oficinas, frotistas e consumidores que precisam trocar os pneus dos veículos usados.
Nesse segmento, os produtos importados chegaram a 71% do mercado no primeiro semestre. A indústria brasileira ficou com apenas 29%. Em 2021, a situação era praticamente inversa: os fabricantes instalados aqui tinham cerca de 64% do mercado de reposição.
Enquanto as importações avançaram, as vendas dos pneus produzidos no Brasil caíram 6,8% no primeiro semestre, de 19,1 milhões para 17,8 milhões de unidades.
Pneu chinês já paga antidumping
A discussão sobre a tarifa de importação não significa, porém, que os pneus chineses entrem hoje no Brasil pagando apenas os 25% de imposto.
Continua após a publicidadeExiste também um direito antidumping específico para pneus de automóveis originários da China. Antidumping é uma sobretaxa aplicada quando o governo conclui que um produto importado está sendo vendido no Brasil por preço artificialmente baixo, prejudicando a indústria nacional. A medida foi renovada em julho de 2025 e segue válida até julho de 2030.
O valor varia conforme o fabricante ou exportador. Para empresas do grupo Giti, por exemplo, o adicional é de US$ 1,25 por quilo; para Shandong Linglong e Zhongce Rubber, US$ 1,54 por quilo. Para outras empresas chinesas não contempladas individualmente, pode chegar a US$ 1,77 por quilo.
Na prática, portanto, parte do pneu chinês pode enfrentar simultaneamente tarifa de importação, direito antidumping e, agora, uma disparada no custo para atravessar o oceano. É essa acumulação de custos que faz os importadores alertarem para um possível aumento no preço final.
Importadores dizem que consumidor paga a conta
A Abidip se opõe a uma nova elevação da tarifa. A entidade argumenta que a entrada dos importados ampliou a concorrência e permitiu a venda de pneus a preços mais baixos, especialmente no mercado de reposição.
Em discussão sobre o aumento do imposto, Ricardo Alípio calculou que um pneu com preço de importação equivalente a R$ 500 passaria de R$ 625, com tarifa de 25%, para R$ 675 apenas com a mudança para 35%. Considerando a incidência de outros tributos e custos ao longo da cadeia, a entidade estima que o impacto ao consumidor poderia superar 20%.
Continua após a publicidadeAgora, existe uma variável adicional que não estava presente com a mesma intensidade naquela conta: o frete. Se um contêiner que custava cerca de US$ 3 mil para vir da China passa a custar entre US$ 8 mil e US$ 9,5 mil, parte dessa diferença tende a ser incorporada ao custo de cada unidade transportada, embora o impacto efetivo dependa da quantidade e das dimensões dos pneus embarcados, dos contratos de frete e dos estoques que cada importador já possui no Brasil.
Indústria nacional vê cenário de risco
Do outro lado, os fabricantes instalados no país argumentam que olhar apenas para o possível aumento do preço ao consumidor ignora a rápida perda de participação da produção brasileira.
Segundo a Anip, o Brasil possui 19 fábricas de pneus de 11 fabricantes, distribuídas por sete estados, com cerca de 35 mil empregos diretos. A entidade afirma que a redução da produção atinge ainda fornecedores de borracha natural, aço, produtos químicos e componentes têxteis.
Para os fabricantes, portanto, a alta do frete expõe um dos riscos de o Brasil passar a depender majoritariamente de pneus produzidos fora do país: qualquer interrupção logística na Ásia pode afetar diretamente a disponibilidade do produto no mercado brasileiro.
Reportagem
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