E agora a AfD na Alemanha

🗓️ 2026-09-08 📁 business-finance 📝 ⏱️ 👁️ : -

A AfD conquistou uma vitória eleitoral na Alta Saxónia, esperada, mas com um enorme significado para o futuro da política alemã. Mas, antes das interpretações, vamos aos factos. Foi uma eleição com uma taxa de participação elevada. 75% de eleitores foram votar contra os 60% de há cinco anos. Naturalmente, este aumento reforça o significado da vitória da AfD. Apesar de não ter conseguido conquistar uma maioria absoluta, estou convencido de que a AfD acabará por formar governo.

O mais recente partido de extrema-esquerda, o BSW, já afirmou que poderá abster-se para permitir um governo regional da AfD. Esta posição do BSW diz muito sobre as semelhanças entre a extrema-direita e a extrema-esquerda alemãs. São ambas nacionalistas, anti-EU, pró-russas, revolucionárias e socialistas na economia. Aliás, o eleitorado da AfD no leste alemão é uma combinação de nacionalismo com saudosismo do regime comunista. Não tenho qualquer dúvida de que a AfD é um partido extremista e nacionalista. Já tenho muitas dúvidas de que seja mesmo de direita, na economia seguramente não é.

Se o BSW recuar e não deixar passar um governo da AfD, é provável que os necessários três deputados para a maioria absoluta da AfD venham da CDU. Será uma solução com implicações negativas para a CDU a nível nacional. Merz deve desejar que o BSW apoie a AfD. Aliás, o ideal para a CDU teria sido a maioria absoluta da AfD. É muito fácil estar na oposição, criticar e falar. É muito mais difícil estar no governo. Está na altura dos partidos populistas governarem para os eleitores avaliarem as suas competências.

Obviamente, a Alta Saxónia não é um Land importante. Tem dois milhões de habitantes (num país com 80 milhões) e é um dos mais pobres da Alemanha. É mais preocupante notar que a AfD lidera as sondagens a nível nacional. É muito improvável que a AfD tenha maioria absoluta num futuro previsível. Mas uma votação elevada na AfD (acima dos 25%) condena a Alemanha a governos de grande coligação, entre a CDU e o SPD. Estes governos têm dois grandes problemas. Não conseguem chegar a acordo sobre as reformas que a Alemanha necessita para a economia voltar a crescer. Não é só a CDU que está sob pressão da AfD, o SPD também está sob pressão dos dois partidos de extrema-esquerda, o Die Linke e o BSW. Esta pressão fará da SPD um partido anti-reformista.

O outro problema de uma grande coligação permanente é o enfraquecimento da democracia. Um regime democrático deixa de ser saudável se, independentemente dos resultados eleitorais, acabar sempre com o mesmo governo. A prazo, não há democracias se os resultados das eleições forem irrelevantes. A grande questão da política alemã é a seguinte: por que razão a CDU e a AfD não consegue governar juntos?

A resposta conta-nos uma das grandes tragédias da política alemã das últimas duas décadas. Hoje, poucos se lembram, mas quando apareceu a AfD era um partido inofensivo de académicos e de economistas saudosistas do marco alemão e contra o euro. A palavra “alternativa” referia-se ao regresso ao marco e ao abandono do euro. A crise das dívidas soberanas, e sobretudo as ajudas à Grécia, estiveram na origem da AfD. Nas primeiras eleições federais em que participou, em 2013, o partido não conseguiu sequer passar a barreira dos 5% e não entrou no parlamento federal. Nessa altura, o líder do partido era um professor universitário de economia, Bernd Lucke, contra o euro, mas politicamente moderado (antigo militante da CDU). Foi líder do partido até 2015, quando foi afastado pela linha mais radical e nacionalista, com origem na antiga RDA. A radicalização da AfD deu-se sobretudo depois de 2015.

O que aconteceu também na Alemanha em 2015? Foi quando começou a crise migratória, com os refugiados da Síria, do Iraque e do Afeganistão, que levou o governo de Merkel a legalizar mais de um milhão de imigrantes. Foi a grande oportunidade de crescimento da AfD. Nas eleições federais de 2017, o partido subiu de 4,7% para 12,6%, elegendo 94 deputados. Nas eleições de 2021, baixou um pouco e perdeu 11 deputados. Mas nas últimas eleições, em 2025, recebeu mais de 10 milhões de votos e elegeu 152 deputados. Hoje, está na frente nas sondagens.

Desde 2015, houve cerca de 20 ataques de islâmicos radicais na Alemanha, desde o ataque no Natal de 2016 no mercado de Berlim até ao ataque em Julho deste ano no festival “Berlin Pride.” A imigração e a violência com imigrantes continuam a alimentar o crescimento da AfD. O outro factor que explica o aumento de votos na AfD são as políticas ambientais, que se aceleraram durante os governos de Merkel, e que estão a levar ao declínio industrial da Alemanha e à crise económica que dura há anos. A AfD não tem soluções para a crise económica, mas aproveita a insatisfação para crescer eleitoralmente.

Nos últimos anos, o país de Hegel assistiu a uma caricatura da dialéctica hegeliana que está a degradar a democracia alemã. Quanto mais a CDU se recusou a conversar com a AfD mais radical e extremista o partido se transformou. O radicalismo político não é inato; é reativo. Quando os partidos tradicionais rejeitam e excluem os novos partidos, a única resposta possível é o radicalismo. Só resta aos novos partidos uma solução: esperar que os eleitores forcem os partidos mais antigos a conversar e a negociar.

Em 2013, Merkel ignorou a máxima de Adenauer: “à direita da CDU, nada.” Até 2015, poderia ter tentado conversar com a AfD original, muito menos radical do que hoje. Não o fez. Os seus sucessores serão obrigados, mais tarde ou mais cedo, a conversar com a AfD. A democracia não pode ignorar o maior partido ou um dos dois maiores. Mas o resultado das linhas vermelhas alemãs é dramático: a inevitabilidade de conversar com a AfD acontecerá quando o partido atingir o ponto mais alto do seu radicalismo. A AfD é um dos partidos mais extremistas da política europeia, com correntes anti-democráticas, racistas e pró-Putin. Não faço a mais pequena ideia sobre o modo de resolver a tragédia política alemã. Mas sei que a CDU e o SPD cometeram muitos erros e não souberam lidar com o crescimento da AfD.

E não foi só na Alemanha. No final do próximo ano, é muito provável que Marine Le Pen seja Presidente em França, o Vox deverá estar no governo de Espanha com o PP e Meloni continuará como PM em Itália. Todos eles foram vítimas das famosas “linhas vermelhas.” E ainda há quem as defenda. Qual é a famosa citação de Einstein sobre a teimosia?