"É preciso que as pessoas saibam: nós já estamos em guerra". Gouveia e Melo traça as quatro fases da escalada que a Rússia pode estar a preparar
Há um local estreito que pode isolar parte da NATO e Vladimir Putin sabe disso. É aí que pode lançar a primeira fase do que pode em breve prazo acabar numa guerra convencional entre os dois blocos
A Rússia está a aumentar o tom das provocações à NATO, mas estamos apenas na primeira fase daquilo que pode ser uma evolução da ameaça.
Essa é a análise feita pelo almirante Henrique Gouveia e Melo em Entre Dois Mundos, espaço de comentário da CNN Portugal.
O ex-chefe da Armada explica que estamos na fase da guerra híbrida, a posição 1 de toda esta evolução, em que o que existe não passa das tais provocações, por vezes pequenas incursões de drones ou aviões em espaço inimigo, ou também com ameaças cibernéticas e de sabotagem, como aconteceu há umas semanas em Leipzig.
Henrique Gouveia e Melo refere que as fases 2 e 3, respetivamente um ataque cinético e um teste militar limitado, podem chegar dentro de meses, naquilo que seria uma evolução que termina na fase 4, a da guerra convencional, algo que poderia acontecer num período até 2030.
“Estamos na posição 1. É preciso que as pessoas saibam: nós já estamos em guerra. O Ocidente, a Europa e a NATO já estão em guerra, que é uma guerra híbrida, com a Rússia”, começa por dizer.
A passagem do limiar desta guerra híbrida para as fases 2 e 3 pode estar mais perto do que se podia pensar. É também isso que indicam algumas avaliações das secretas, nomeadamente das europeias.
“O que dizem os serviços secretos é que há um plano, que é a meses, de levar esta guerra híbrida até quase ao limiar de uma guerra convencional”, refere, explicando que o Kremlin pode ter a tentação de aproveitar o tempo que resta de Donald Trump na Casa Branca para fazer isto mesmo.
O evoluir da tensão pode começar pelos tais ataques cinéticos, que passam por situações como mísseis a cair na Polónia, mas sempre com a defesa de que foi um acidente. Depois seguem-se testes militares limitados, sendo que o primeiro grande objetivo de Vladimir Putin é um teste à coesão da NATO.
“O senhor [Vladimir] Putin mal tem capacidade para manter uma guerra na Ucrânia, agora imagine com a NATO”, sublinha Henrique Gouveia e Melo, explicando que o objetivo do Kremlin passa, então, por testar a verdadeira força do artigo 5.º da NATO, o tal que obriga os Estados-membros a defender um outro caso seja atacado.
“Será que os aliados estão dispostos, com um determinado tipo de ações, limitadas, envolver a NATO toda com a possibilidade de um confronto que pode escalar para uma guerra nuclear?” é o que estará a pensar Vladimir Putin, na ótica do almirante, que também aponta à solidariedade entre forças aliadas.
A acontecer esta evolução, o local ideal para o teste passa por países que pertenceram à União Soviética. Estónia, Letónia e Lituânia estão ligados à NATO, mas apenas por uma pequena faixa de terreno que tem pouco mais de 60 quilómetros.
Falamos do Corredor de Suwalki, que divide o exclave russo de Kaliningrado e a Bielorrússia. O mesmo é dizer que a união destes dois territórios cortaria a ligação terrestre entre aqueles três países bálticos e o resto da NATO.
Há, portanto, para Henrique Gouveia e Melo, uma mudança de paradigma, já que a NATO começou a colocar tropas no terreno com posições avançadas para iniciar a dissuasão, tentando evitar que a Rússia tente sequer algum destes passos.
“Na Polónia há um grupo de combate da NATO liderado pelos Estados Unidos”, exemplifica o almirante, que vê na estratégia da Aliança Atlântica uma estratégia clara de mostrar a Vladimir Putin que “há um limite a partir do qual ele vai ter mesmo de enfrentar a aliança toda”.