Economia da China trava, crise imobiliária piora e consumo perde força

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Pedestre caminha entre arranha-céus em Xangai, China, em agosto de 2025: integração entre megalópoles é chave para os planos de Xi Jinping
Pedestre caminha entre arranha-céus em Xangai, China, em agosto de 2025: integração entre megalópoles é chave para os planos de Xi Jinping (Getty/Getty Images)

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A economia chinesa começou o segundo semestre de 2026 com sinais mais claros de perda de ritmo. Em julho, o consumo das famílias cresceu pouco, os investimentos recuaram novamente e a produção industrial desacelerou, enquanto o setor imobiliário continuou a se deteriorar. O quadro reforça uma das principais fragilidades da economia chinesa: a dificuldade de transformar a força da indústria e das exportações em uma recuperação sustentada da demanda doméstica.

As vendas no varejo, um dos principais indicadores do consumo, cresceram apenas 0,6% em julho na comparação com o mesmo mês de 2025. O resultado veio depois de uma alta de 1% em junho e ficou bem abaixo das expectativas do mercado, que apontavam para avanço de 1,5%.

O desempenho é relevante porque o governo chinês vem tentando reduzir a dependência de investimentos e exportações e estimular o consumo interno como novo motor do crescimento. Até agora, porém, os dados mostram que as famílias continuam cautelosas.

A fraqueza também aparece nos investimentos. O investimento em ativos fixos caiu 6,7% nos primeiros sete meses do ano, aprofundando a retração de 5,7% registrada até junho. O indicador inclui gastos em áreas como infraestrutura, máquinas, equipamentos e construção e é acompanhado de perto porque mostra a disposição de empresas e governos de ampliar a capacidade produtiva.

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O mercado imobiliário é um dos principais responsáveis pela deterioração. O investimento em desenvolvimento imobiliário recuou cerca de 19% em relação a um ano antes, mantendo o setor em uma crise que já se prolonga há anos.

O problema vai muito além das construtoras: imóveis representam uma parcela importante do patrimônio das famílias chinesas, de modo que a queda dos preços reduz a sensação de riqueza e tende a estimular a poupança em vez do consumo.

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Os preços dos imóveis novos caíram 3,2% em julho na comparação anual, enquanto apenas 17 das 70 cidades monitoradas pelo governo registraram alta mensal nos preços. Na média, os preços recuaram 0,1% em relação a junho.

O enfraquecimento do setor imobiliário ajuda a explicar por que a recuperação chinesa permanece tão desigual. Durante décadas, construção civil, venda de terrenos, infraestrutura e crédito imobiliário foram importantes fontes de crescimento.

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A crise iniciada após o estouro da bolha imobiliária, porém, deixou incorporadoras altamente endividadas, projetos inacabados e consumidores mais preocupados com a preservação de patrimônio.

O Banco Mundial já havia apontado que a resolução do problema deve ser gradual.

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No fim de 2025, cerca de 7,5 milhões de unidades habitacionais haviam sido incluídas em programas destinados a acelerar a conclusão de imóveis vendidos na planta, mas o estoque ainda era elevado.

Em março de 2026, a estimativa era de que seriam necessários cerca de 30 meses para absorver o estoque existente, supondo que nenhum novo imóvel fosse colocado no mercado.

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Indústria ainda cresce, mas em ritmo menor

A produção industrial também perdeu velocidade. O crescimento foi de 4,5% em julho, ante 5,3% em junho e abaixo dos 4,8% esperados pelos analistas. O resultado mostra que a indústria continua sendo uma das partes mais resistentes da economia, mas já não consegue compensar sozinha a fraqueza do consumo e do investimento.

É justamente nessa diferença que está uma das características mais marcantes da economia chinesa atual. Enquanto setores tradicionais ligados à construção, consumo e infraestrutura enfrentam dificuldades, segmentos de tecnologia avançada continuam recebendo investimentos e encontrando demanda no exterior.

A indústria chinesa ganhou espaço em áreas como veículos elétricos, baterias, equipamentos de energia, semicondutores e componentes utilizados na infraestrutura de inteligência artificial. O resultado é uma economia cada vez mais dividida entre setores modernos e competitivos internacionalmente e uma demanda interna ainda debilitada.

Dados regionais divulgados anteriormente neste ano já mostravam essa diferença. As províncias mais expostas a tecnologia, veículos elétricos e fabricação de chips apresentavam desempenho superior ao de regiões dependentes de setores tradicionais. Mesmo nas áreas mais ricas, porém, consumo e investimento permaneciam fracos.

Exportações são o principal ponto de resistência

O contraste fica ainda maior quando os números domésticos são comparados com o comércio exterior. As exportações chinesas cresceram 23,9% em julho ante o mesmo mês de 2025, segundo dados oficiais. A demanda internacional por equipamentos relacionados à inteligência artificial tem ajudado a sustentar fábricas chinesas mesmo diante da fraqueza do mercado interno.

O fenômeno cria uma espécie de economia de duas velocidades. De um lado, empresas chinesas ampliam sua presença em mercados internacionais e avançam em setores tecnológicos estratégicos. De outro, consumidores, incorporadoras e investidores privados continuam mais cautelosos.

Esse desequilíbrio já havia aparecido nos números do segundo trimestre. O Produto Interno Bruto chinês cresceu 4,3% entre abril e junho, abaixo dos 5% registrados nos três primeiros meses do ano e no ritmo mais fraco desde o fim de 2022. O resultado também ficou abaixo da faixa de 4,5% a 5% estabelecida pelo governo para 2026.

A força das exportações, portanto, está funcionando como uma espécie de amortecedor para uma economia doméstica que perdeu dinamismo. O problema é que essa estratégia aumenta a dependência da China do comércio exterior justamente em um momento de maior resistência de Estados Unidos e Europa à entrada de produtos chineses.

Pequim enfrenta uma escolha difícil

O governo chinês agora precisa lidar com um problema de política econômica mais complexo. Estimular a atividade pode ajudar o consumo e o investimento, mas uma expansão baseada novamente em crédito e construção poderia prolongar os desequilíbrios que levaram à crise imobiliária.

Ao mesmo tempo, depender cada vez mais das exportações deixa a China mais vulnerável a tarifas, barreiras comerciais e mudanças na demanda internacional.

O primeiro-ministro Li Qiang reconheceu nesta segunda-feira a necessidade de fortalecer o consumo doméstico, melhorar emprego e renda e estimular o investimento privado. Também defendeu medidas para estabilizar a demanda externa e ampliar a cooperação comercial.

A margem para uma solução rápida, contudo, é limitada.

O problema imobiliário reduziu a disposição das famílias de gastar e das empresas de investir, enquanto a indústria continua produzindo em ritmo relativamente elevado. O resultado é uma pressão sobre preços e margens de lucro, com sinais de deflação ainda presentes na economia.

Em julho, o índice de preços ao produtor subiu 3,5% na comparação anual, abaixo dos 4,1% de junho, enquanto a inflação subjacente ao consumidor ficou em apenas 0,9%. A combinação de produção elevada e demanda fraca mantém a pressão sobre empresas para reduzir preços.

O desafio de Pequim, portanto, não é simplesmente acelerar o crescimento. É encontrar uma forma de fazê-lo sem voltar a depender dos mesmos motores, especialmente imóveis e investimento estatal, que contribuíram para os desequilíbrios atuais.

Os dados de julho sugerem que essa transição ainda está longe de concluída. A China continua sendo uma potência industrial e exportadora, com forte presença em tecnologias estratégicas, mas a recuperação da economia doméstica permanece muito mais frágil. A diferença entre esses dois lados será um dos principais fatores a determinar o ritmo da economia chinesa no restante de 2026.

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