Ecossistema espacial português ‘orbita’ Países Baixos

🗓️ 2026-09-16 📁 business-finance 📝 ⏱️ 👁️ : -

Portugal chega esta semana ao ESA Industry Space Days 2026 nos Países Baixos para transformar a participação crescente de Portugal na Agência Espacial Europeia (ESA) em novos contratos, parcerias e posições mais relevantes nas cadeias de valor europeias.

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O ESA Industry Space Days 2026, que decorre esta quarta e quinta-feira Centro Europeu de Pesquisa e Tecnologia Espacial (ESTEC), em Noordwijk, junta empresas, integradores e responsáveis da indústria espacial europeia. É precisamente essa concentração de potenciais parceiros que leva empresas portuguesas como a Tekever, Infinite Foundry, Spaceo, Hypermetal e outras entidades do ecossistema nacional a marcar presença no evento.

“A AED vai com os seus associados, à semelhança de outros momentos em que também tem vindo a participar, para ajudar a construir redes. Os associados que vão participar, quer seja na delegação, quer seja com os seus stands, vão todos à procura da criação de relações de networking porque mais do que a oportunidade casual que acontece, estes eventos servem maioritariamente para criar essas relações“, explica Rui Santos, diretor-geral da AED Cluster Portugal, associação empresarial de defesa, espaço e aeronáutica, ao ECO/eRadar.

O objetivo passa por “acelerar um pouco mais todos os processos e dinamizar as relações para que as coisas aconteçam mais rápido”, aproximando as empresas nacionais dos principais fabricantes internacionais, através das iniciativas portuguesas que “nascem dentro do país e que mostram bem a ambição” que Portugal tem neste momento no setor espacial. Para fomentar essas ligações, a AED e a delegação da AICEP nos Países Baixos promovem, a 16 de setembro, a Portugal Networking Reception.

É muito importante Portugal participar. Não é só a AED que vai, vão também muitas empresas, havendo já muita experiência de todo o ecossistema. O timing pode não ser exatamente agora, mas daqui a um ano, daqui a seis meses, a oportunidade surge e os grandes integradores lembram-se de Portugal.

O evento reunirá mais de 2.500 participantes da comunidade espacial europeia, incluindo startups, PME, grandes empresas, universidades, centros de investigação e investidores. A edição de 2026 contará com uma exposição com 201 stands, além de reuniões B2B previamente agendadas, painéis, apresentações e workshops dedicados a oportunidades de negócio e às principais tendências do setor espacial.

“Estão sempre a acontecer missões e passa geralmente por grandes integradores, ou franceses, ou alemães, mas tem que ter toda uma cadeia de conhecimento dentro dos parceiros da ESA. Aí é muito importante Portugal participar. Não é só a AED que vai, vão também muitas empresas, havendo já muita experiência de todo o ecossistema“, destaca o responsável da AED Cluster.

A participação portuguesa pretende transformar a capacidade industrial em oportunidades concretas. Apesar de cada empresa rumar aos Países Baixos com as suas reuniões agendadas, é comum a estratégia de dar a conhecer as capacidades nacionais aos grandes players do Espaço.

“O timing pode não ser exatamente agora, mas daqui a um ano, daqui a seis meses, a oportunidade surge e os grandes integradores lembram-se de Portugal”, sublinha Rui Santos.

Portugal quer subir na cadeia de valor

O momento ganha importância com o aumento da contribuição portuguesa para a Agência Espacial Europeia e com o georetorno que esse investimento gera. Relativamente ao período 2026-2030, o país aumentou em 51% a contribuição financeira para a ESA, para um total de 204,8 milhões de euros.

Para a AED Cluster Portugal, o desafio passa agora por consolidar essa trajetória e garantir que o aumento da participação portuguesa se traduz em projetos de maior dimensão e numa presença mais profunda nas cadeias industriais europeias.

“O nosso orçamento continua bastante inferior aos nossos países congéneres e, naturalmente, isso tem vindo a limitar um pouco a ambição e a capacidade das empresas portuguesas de subirem maioritariamente na cadeia de valor”, afirma Rui Santos. “É preciso haver orçamento para haver mais ambição”.

Para assumir a liderança (Prime) de grandes missões europeias, o ecossistema nacional ainda enfrenta o desafio da escala e da dimensão crítica. É um caminho de crescimento gradual, que exige não só competência tecnológica, que já existe, mas também capacidade industrial e financeira para suportar a responsabilidade dessas grandes operações.

Apesar de o aumento do orçamento ser “positivo e bem-vindo” e ter “impacto direto na atividade”, é preciso traduzi-lo em algo tangível. “O que verdadeiramente abre portas não é apenas o montante, mas a forma como é alocado e a capacidade da indústria nacional de o absorver em programas que gerem produto e receita, e não apenas estudos“, vinca ao ECO/eRadar João Loureiro, CEO da Spaceo, empresa do Porto que está a desenvolver uma vela de arrasto insuflável para recolher satélites em fim de missão, com o projeto de três milhões de euros Spacecraft With Inflatable Termination (SWIFT).

A necessidade de escala é também apontada pelas empresas portuguesas. “Para assumir a liderança (Prime) de grandes missões europeias, o ecossistema nacional ainda enfrenta o desafio da escala e da dimensão crítica. É um caminho de crescimento gradual, que exige não só competência tecnológica, que já existe, mas também capacidade industrial e financeira para suportar a responsabilidade dessas grandes operações”, refere Pedro Rodrigues, diretor de Espaço da Tekever, ao ECO/eRadar.

O aumento é positivo e bem-vindo, e teve um impacto concreto na nossa atividade. Convém, no entanto, fazer duas leituras. Primeiro, tratando-se de orçamentos plurianuais, os valores devem ser analisados à luz da inflação acumulada nos últimos anos e da que se antecipa para os próximos, sob pena de o crescimento real ser inferior ao nominal. Segundo, o que verdadeiramente abre portas não é apenas o montante, mas a forma como é alocado e a capacidade da indústria nacional de o absorver em programas que gerem produto e receita, e não apenas estudos.

Para Afonso Nogueira, CEO da Hypermetal, o objetivo da presença portuguesa deve ser precisamente passar da capacidade demonstrada para relações industriais duradouras.

A empresa de Vila Nova de Gaia, que levantou três milhões de euros em abril, procura “estabelecer relações com grandes integradores e fabricantes de subsistemas”, identificar programas onde as suas capacidades possam ser utilizadas e, sobretudo, “evoluir para fornecimento recorrente”.

A mensagem que o ecossistema português leva para a ESA Industry Space Days é, por isso, semelhante à que levou para outros grandes fóruns internacionais: Portugal já tem capacidade para participar. A próxima batalha é transformar essa capacidade em contratos recorrentes, escala industrial e lugares de maior responsabilidade nos grandes programas europeus.

Apresentar soluções com reuniões marcadas

A participação portuguesa não se resume a estreitar parcerias. A Infinite Foundry chega a Noordwijk com uma agenda já preenchida de reuniões com grandes empresas, incluindo a Thales. “Já vamos com várias reuniões, com uma série delas marcadas”, afirma André Godinho Luz, CEO da tecnológica portuguesa, ao ECO/eRadar.

O responsável sublinha que o objetivo será usar o fórum como um espaço de “diálogo entre os diferentes stakeholders” do setor, procurar oportunidades existentes e também levar propostas, “dar algum input“, sobre áreas onde a empresa identifica falhas de mercado. “O setor do espaço, como o da defesa, são setores onde é muito importante trabalhar com aquelas empresas que já há décadas trabalham com os governos”, frisa.

Na bagagem a empresa leva também o AMIDA — projeto desenvolvido para o Exército Português baseado em ‘gémeos digitais’ e destinado a apoiar decisões rápidas e eficazes no terreno — como uma porta de entrada para outros mercados. “É um projeto muito acarinhado por nós e que temos algum interesse da própria NATO. Encontrarmos organizações pan-europeias que nos permitam aumentar o reach desse tipo de tecnologia é bastante relevante“, destaca André Godinho Luz.

Um novo cliente ou a entrada num programa europeu seria o melhor resultado possível. Mas, neste setor, o indicador mais importante é sair do evento com oportunidades identificadas, interlocutores técnicos definidos e um próximo passo concreto. É isso que transforma networking em negócio.

A lógica de abordagem é semelhante à da Hypermetal, mas numa fase diferente da cadeia. A fabricante de foguetões quer transformar o contacto com integradores europeus em processos técnicos concretos.

“Um novo cliente ou a entrada num programa europeu seria o melhor resultado possível. Mas, neste setor, o indicador mais importante é sair do evento com oportunidades identificadas, interlocutores técnicos definidos e um próximo passo concreto. É isso que transforma networking em negócio”, afirma Afonso Nogueira. “Isso significa passar do contacto comercial para uma discussão técnica: assinatura de um NDA, receção de dados de um componente, um pedido de cotação ou a definição de um processo de qualificação”

Já a Spaceo aterra em Noordwijk com três objetivos claros. “O primeiro é comercial: apresentar a nossa drag sail a operadores e fabricantes de satélites que estão hoje a definir as arquiteturas das missões que voarão no final da década. O segundo é a cadeia de fornecimento, já que a qualificação espacial de materiais e componentes exige parceiros europeus com heritage comprovado. O terceiro é o alargamento da nossa atividade de serviços de engenharia [cálculo estrutural estático e dinâmico], uma componente do negócio que nos permite trabalhar com primes europeus e consolidar competência técnica interna”, elenca João Loureiro.

A empresa considera existir uma oportunidade na sustentabilidade orbital por ser “um domínio ainda em definição a nível europeu”. “Significa que não há posições consolidadas a disputar, e é raro um país de dimensão média ter uma oportunidade destas. Para que se concretize, é preciso que o apoio público se mantenha consistente e que o capital privado acompanhe a fase de industrialização”, vincou o CEO.

Da tecnologia espacial à defesa

A aproximação entre Espaço e Defesa é outro dos elementos que atravessa a presença portuguesa nos Países Baixos. Para Pedro Rodrigues, a separação entre estes dois domínios está cada vez menos presente. “A convergência entre Espaço, Defesa e Segurança é hoje indissociável”, salienta. O responsável considera que “o track record que a Tekever construiu” em sistemas autónomos e segurança pode funcionar como cartão de visita para o setor espacial.

A empresa vê também a integração de diferentes plataformas como uma das principais oportunidades. “Drones, IA e satélites não competem entre si; completam-se”, afirma o diretor de Espaço da Tekever ao ECO/eRadar, defendendo a criação de um ecossistema capaz de transformar dados provenientes de diferentes meios em informação acionável.

Rui Santos vê igualmente no Espaço uma plataforma de expansão para a indústria de Defesa. A Europa está a procurar maior soberania em lançamento, comunicações e segurança, numa procura que, na sua visão, abre novos mercados para empresas portuguesas que tenham desenvolvido competências através dos programas da ESA. “O setor defesa cada vez mais busca soluções a nível do espaço e estão a abrir-se novos mercados”, afirma.

Também a nacional Hypermetal considera que o espaço e a defesa são setores onde é fundamental garantir soberania. “Espaço e Defesa estão cada vez mais ligados a questões de autonomia estratégica e isso está a alterar os critérios de seleção de fornecedores”, alerta o CEO Afonso Nogueira.

“Capacidade produtiva dentro da Europa, controlo da cadeia de fornecimento, rastreabilidade, certificação, proteção da informação e capacidade de aumentar rapidamente a produção passaram a ter um peso muito maior. Para nós, isso reforça a importância dos investimentos que fizemos em capacidade industrial e qualidade”, acrescenta o responsável.

Esta aproximação entre os dois setores está também a alterar a própria lógica de desenvolvimento industrial na Europa, com maior atenção à capacidade de produzir dentro do bloco e de controlar tecnologias e cadeias de abastecimento consideradas críticas, numa altura em que os Estados Unidos admitem ter já armas no Espaço.