SP: Incorporadoras apostam em cidades perto da capital - 28/08/2026 - Economia - Folha

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É possível comprar, por R$ 1,36 milhão, uma casa de alto padrão com 127 m², três suítes, home office e espaço gourmet privativo, em condomínio fechado rodeado pelo verde. Mas é preciso trocar São Paulo por Atibaia, a 66 km do centro da capital.

O empreendimento, que atende pelo nome La Reserva, é o retrato de uma tendência que vem se espalhando pelas cidades ao redor da Grande São Paulo —loteamentos e condomínios horizontais que se esparramam por grandes terrenos, em cidades que não demandam mais de uma hora e meia de viagem e acessíveis por grandes rodovias.

Segundo o Secovi-SP, foram lançados 445 empreendimentos do gênero no interior do estado entre 2023 e 2025. Só no primeiro trimestre de 2026, já foram mais 27. Campinas e arredores concentram 41% deles.

Diretor da ID Empreendimentos, responsável pelo La Reserva, Fabio Nunes está prestes a lançar a terceira fase do condomínio. As duas primeiras, que somam 60 casas, atraíram o mesmo perfil de compradores. "A maior parte vai viver na cidade. Para veranistas, vendi só duas unidades", conta.

As 45 casas do La Reserva 3º, a R$ 10 mil o m², têm cinco opções de plantas, de 127 m² a 246 m², com três ou quatro suítes, duas ou três vagas na garagem e vista para o pôr do sol. No condomínio, o cabeamento de energia e comunicação é subterrâneo.

"Ao contrário do que acontece em São Paulo, todos os ambientes vêm com piso, louças, metais e revestimentos de primeira linha e grandes marcas", diz o incorporador.

Os 67 km que separam São Roque da capital também são um dos principais trunfos do Lagú, empreendimento do Grupo Misura em fase de pré-lançamento. As 160 casas, com tamanhos entre 200 m² e 320 m², terão de três a cinco suítes e vista para um lago. Cada uma das cinco fases do condomínio terá um clube próprio.

Os imóveis, a R$ 9.500 o m², serão entregues com tomadas individuais para carros elétricos e revestimentos de alto padrão. Quem optar pelo plano de personalização pode receber a casa recheada com móveis e até eletrodomésticos.

Segundo Luís Henrique Moreira, diretor do Grupo Misura, vários pontos pesaram na escolha de São Roque. "A Castelo Branco é a grande vertente de crescimento de São Paulo, o que despertou nosso interesse pela região. Além disso, São Roque subiu a régua para o enoturismo, tem ótimos restaurantes, mata atlântica preservada e uma legislação ambiental rígida. A temperatura costuma ser até 5ºC mais baixa do que a de São Paulo", enumera.

No pré-lançamento, com o site do empreendimento já no ar, o Grupo Misura se surpreendeu com um perfil inesperado de interessados —os 60+ que planejam mudar para São Roque e transformar a casa em ponto de encontro da família. "Em função disso, incluímos elevador em algumas plantas e mais um quarto no andar térreo", revela.

Com 697 mil habitantes e o nono maior PIB do estado, segundo o IBGE, São José dos Campos, no Vale do Paraíba, também está no radar das incorporadoras que atuam no segmento.

A incorporadora Stemmi lançou os primeiros condomínios na cidade, focados na classe média, em 2008. De lá para cá, subiu o padrão a cada novo empreendimento. O Jardim das Nações, localizado no bairro planejado Urbanova, é o mais recente e mais caro.

Trata-se de um loteamento com 80 terrenos de 600 m² a 2.400 m², que custam de R$ 2.800 a R$ 3.500 o m². O proprietário pode construir por conta própria, mas a empresa criou uma divisão, a Stemmi Home, que entrega casas prontas. Duas unidades, com 600 m² de área construída cada uma, serão postas à venda a partir de outubro. Mobiliadas, vão custar entre R$ 15 milhões e R$ 16 milhões.

"Não brigamos por preço. As casas vêm com móveis e ar condicionado, têm claraboia no closet, piscina privativa que imita praia, sauna, elevador panorâmico e infraestrutura pronta para automação", diz Leandro Coló, diretor da Stemmi.

Frederico Marcondes Cesar, vice-presidente do Interior do Secovi-SP, se baseia em pesquisas encomendadas pela entidade para explicar por que esse tipo de empreendimento virou tendência. Começa pelo preço médio do metro quadrado, que chega a ser quase o dobro na capital.

"O interior do estado tem custo de vida mais baixo, grandes faculdades, boa oferta de empregos e segurança. Dependendo de onde você mora e trabalha, na capital, é mais rápido pegar a estrada e chegar a outra cidade", defende.

O poder de atração dos municípios de médio e pequeno portes, emenda Marcondes Cesar, fez com que o interior paulista inflasse nas últimas décadas. "A população do interior mais do que dobrou, passando de 16 milhões de habitantes para 33 milhões, enquanto a da capital aumentou só 40%", compara.

Embora não venda casas prontas, somente loteamentos com infraestrutura coletiva de lazer e segurança, o Grupo Alphaville explora o segmento faz tempo e também está apostando suas fichas nas cidades ao redor de São Paulo.

Lançado em agosto, o Parque Alphaville Alvorada, em Sorocaba, será um novo bairro planejado com 518 lotes de 250 m², ao preço de R$ 250 mil. Um parque linear agregado ao empreendimento oferece 160 mil m² de áreas verdes e 2,6 km de ciclovias.

Em São José dos Campos, onde já existe um Alphaville implantado no bairro Urbanova, uma nova fase será lançada ainda este ano. Os lotes terão 600 m². Maiores ainda são os lotes do Alphaville Indaiatuba —os 294 terrenos têm de 510 m² a 1000 m², ao preço de R$ 2.000 o m².

De acordo com Patricia Hulle, diretora de negócios do Grupo Alphaville, a maior procura é justamente pelos lotes maiores.

"Nossos lançamentos focam cada vez mais na moradia híbrida com distanciamento encurtado. Acreditamos que o trem vai chegar a essas cidades, em algum momento, aumentando ainda mais o interesse do paulistano que quer continuar trabalhando em São Paulo, mas prefere morar fora da capital."