Em modo campanha, JD Vance já começa a se movimentar para ganhar os holofotes

🗓️ 2026-09-13 📁 world-news 📝 ⏱️ 👁️ : -
NO PALANQUE - Vance em ação: livro e entrevistas em tom messiânico para cativar o eleitorado conservador
NO PALANQUE - Vance em ação: livro e entrevistas em tom messiânico para cativar o eleitorado conservador (Saul Loeb/AFP)

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Desde que vestiu o figurino de vice-­presidente, JD Vance vem fazendo o que pode para não ser mais um a ingressar na história pela falta de relevância que costuma revestir o cargo. Ele nunca escondeu dos aliados que a ambição maior é o posto do chefe, Donald Trump, que não gostaria de abrir mão da cadeira, mas esbarra em um bem consolidado marco legal que o impede de se reeleger. Pois agora, mais do que nunca, o número 2 da Casa Branca partiu para a ação, o que inclui o lançamento de um livro e uma sequência de entrevistas com discurso de contornos messiânicos recheado de citações bíblicas — um tom acima do que há tempos adota. Convertido ao catolicismo em 2019, o que Vance busca, aos 42 anos, é se apresentar como uma via palatável tanto para o vasto eleitorado conservador americano como para a radical base MAGA, a que agita a bandeira da América Grande de Novo. Recentemente, as altas rodas do poder em Washington deixaram vazar que Trump, que evita avalizar o sucessor, teria dito: “Temos que eleger Vance em 2028”.

Dentro da estratégia de ganhar espaço, o vice vem escolhendo a dedo a quem concede entrevistas, justamente para pôr nelas o filtro que lhe convém, a última mais comentada do vice foi para Bryce Crawford, um youtuber conservador que o deixou dar mostras da retórica de verniz religioso. Vance, que preferiu não cutucar nenhum dos vespeiros que hoje atormentam a Casa Branca, afirmou ali que está “fazendo o máximo possível da obra de Deus” e que “o fim dos tempos está chegando”. Ao se reunir com certos líderes globais, contou sentir uma “escuridão espiritual”. Ao fim, disparou: “Não duvido que o anticristo esteja caminhando entre nós”.

Com um currículo polido por um diploma de direito da Universidade Yale, ele conseguiu chamar os holofotes para si ao travar um duelo no campo da teologia com o papa Leão XIV sobre o conceito de guerra justa — o pontífice criticava a moralidade por trás do conflito entre Estados Unidos e Israel contra o Irã. A contenda, que lhe suscitou críticas justo na fatia da população em que tenta avançar, foi apaziguada pelo próprio Vaticano, e ele veio a público agradecer.

O OPONENTE - Rubio: defesa ao intervencionismo de olho em 2028
O OPONENTE - Rubio: defesa ao intervencionismo de olho em 2028 (Jim Lo Scalzo/EPA/EFE)

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Pouco experiente na política, terreno no qual pisou apenas em 2022 como senador por Ohio, Vance, que serviu às Forças Armadas durante a invasão do Iraque e trilhou bem-sucedida carreira no Vale do Silício, é casado com uma filha de imigrantes indianos e pai de quatro filhos pequenos, um deles recém-nascido — família que adora exibir. No recém-­lançado Comunhão, em que enfatiza quão importante é a religião para ele no exercício da vida pública, Vance conta como de protestante virou ateu, até enfim abraçar o catolicismo. “É um livro construído com o olhar atento para as próximas eleições, deixando claro o quanto endossa valores tradicionais tão valiosos para uma parcela expressiva da população”, observa o analista político Mike Catalini.

Sabidamente, Vance não é o único a querer dar as cartas no Salão Oval — seu colega, o secretário de Estado Marco Rubio, também está no páreo. A tensão entre os dois é assunto para lá de comentado em Washington, embora o vice, a seu modo, tenha negado a existência de uma “rivalidade”. Cada qual tem uma visão de mundo que reflete um racha no coração republicano — enquanto Vance, que era contra a guerra no Irã, defende um país voltado para dentro, o “America First”, Rubio está em meio a uma cruzada intervencionista que atinge em cheio a América Latina. “Para Vance, isso é secundário”, diz Dan Fried, ex-subsecretário de Estado e pesquisador do think tank Atlantic Council.

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Verdade que as eleições que se avizinham na paisagem americana são as midterms, em novembro, decisivas para definir o jogo de forças no Congresso e o próprio raio de ação de Trump. Mas as pesquisas já começaram a medir a temperatura para 2028 — uma que acabou de sair mostra que 44% dos republicanos preferem Vance e 21%, Rubio. Até lá, muitas cotoveladas ainda vão rolar na arena da Casa Branca.

Publicado em VEJA de 11 de setembro de 2026, edição nº 3012

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